Juliet odiava ver a amiga daquela forma. E detestava ainda mais o fato de não possuir qualquer controle sobre a situação. Ela não poderia simplesmente estalar os dedos e ordenar que a mesma desaparecesse. Aquilo estava fora do alcance de qualquer um deles. A morena fechou a porta atrás de si com cuidado, trancando-a antes de seguir a mulher casa adentro — um ambiente onde via-se tão a vontade quanto seu próprio lar, mesmo que já não pudesse mais visitar a amiga com a frequência que fazia quando ainda estavam no ensino médio. “— Aparentemente isso é algo comum aos remetentes, então. —” Ela revirou os olhos, recordando-se da discussão com Garrett. “— Eu já teria devolvido a minha, mas não consegui contata-lo ainda. —” Completou, cruzando os braços antes de se sentar ao lado da amiga. A mulher mordiscou o lábio inferior. “— Você acha que ele vai ler? Mesmo que você peça o contrário? —” Indagou com certa preocupação. Ao ouvir o nome de Isla, a Newport sentiu-se um pouco mais tranquila. A ruiva era uma ótima conselheira e ela certamente saberia como Alessia deveria agir, mesmo sendo essa uma situação deveras complexa. “— Ei, é impossível alguém te odiar, okay? E mais ainda odiar a Vicky. —” Falou com sinceridade, abrindo um sorriso ao lembrar-se da menininha. “— Mas se você acha que deveria mesmo contar para ele… Bom, é, o melhor é que ele não descubra pela carta. Porque ele não vai poder falar com um pedaço de papel. E posso apostar que ele terá muitas perguntas. —” Ela meneou a cabeça, tocando o braço da amiga e alisando-o com carinho, buscando confortá-la. Por fim, uma careta tomou suas feições. “— Okay, podemos nos mudar para Marte então, a NASA está falando sobre mandar humanos na década de 2030, mas tenho certeza de que, dado o contexto, eles abrirão uma exceção para nós. —” Ela brincou, soltando um risinho. “— Eu… Pensaria bem quanto ao que eu quero. Para meu futuro, para minha filha… Mas essa é uma decisão sua e unicamente sua. Minha opinião não importa. —”A jovem sabia que aquela provavelmente não era a resposta que a outra buscava, porém, não cabia a ela fazer julgamentos como aquele. “— Hum… Sim. Mas isso não importa agora. Foquemos na sua situação. Diga-me como eu posso ajudá-la? E a Vicky está na escola, certo? Você quer que eu vá buscá-la mais tarde? Assim você teria mais tranquilidade para pensar e procurá-lo, se assim desejar. —”
Alessia soltou um pesado suspiro, dedilhando o tecido do sofá enquanto sua mente ainda processava tudo aquilo. “ — Obviamente, se fosse comigo, eu devolveria a carta! Não é da minha conta, certo?” Fez uma careta, percebendo que, na prática, talvez suas ações não fossem bem assim. “ — Okay, talvez eu ficaria um pouco curiosa. E teria meu nome na carta... Que seja! Acho que meu desespero, na verdade, foi o motivo de curiosidade dele. Eu deveria ter ficado calma, mas quando o vi tive certeza que já tinha lido e o único motivo pra estar na cidade era isso.” Alessia não costuma pensar antes de agir. Se fosse refletir sobre isso, tinha certeza que grande parte dos problemas que já enfrentara na vida poderiam ter sido evitados não fosse por tal característica da morena. “ — Sim, eu acho. Embora uma pequena parte de mim ainda tenha esperanças de que ele não vá ler. E ele me deu a opção, Ju, não leria se eu simplesmente contasse o que havia nela, mas... Eu nunca pensei sobre isso! Nem mesmo sei como começaria a contar uma bomba como essa. Eu... Preciso pensar. Até o dia da festa talvez tenha uma ideia. Só preciso rezar pra que aquela carta permaneça lacrada até lá.” A mulher encostou a cabeça contra o encosto do sofá, desejando nada além do fim daquele pesadelo. Acabou soltando uma risada com a brincadeira. Somente Juliet pra lhe fazer rir em uma situação como aquela. “ — Acabo de chegar à conclusão de que a NASA é, realmente, minha última esperança.” Brincou, correndo os dedos pelos fios castanhos. “ — Eu não gosto de decisões, não pode fazê-la por mim?” Fez um biquinho, dando continuação no tom humorado embora agora mais fraco. Alessia suspirou. “ — Não, está tudo bem. Não quero que ela pense que tem algo errado. Agora, isso não é justo, me conte pra quem enviou a carta! Saber da sua desgraça vai me fazer sentir melhor sobre a minha.” Ela sorriu, mesmo que o gesto ainda lhe parecesse quase triste.