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@alevezadenaoser
― F. Scott Fitzgerald, The Sensible Thing
― Billy-Ray Belcourt, A History of My Brief Body
[text ID: To love someone is firstly to confess: I'm prepared to be devastated by you.]
hoje um amigo disse que, ao ver como você me olhava, era fácil pensar em eternidade.
foi lembrando daquela noite em que você decidiu me mostrar que ainda podíamos ser bons juntos que ele falou isso.
evito pensar nela, quase como se fosse uma memória proibida.
sendo sincera, eu evito pensar em todos os momentos bons que tivemos.
na turatti, le, hoots, o brilho no seu olhar.
a chuva toda manhã.
o pedido.
lençóis amassados.
é difícil acreditar, hoje, depois que você foi embora — exatamente como eu achei que iria, desaparecendo completamente, como se deixar rastros fosse um crime — que tudo isso foi real.
as imagens destoam, como um corte abrupto, dos últimos meses em que te chamei de meu.
tenho fixado meus pensamentos nos pontos doloridos, é o melhor que posso fazer:
a cópia das chaves da sua casa, devolvidas, como se nunca tivessem me pertencido, como se você nunca tivesse, por livre e espontâneo desejo, estendido sua mão em minha direção e dito: pegue, são suas.
odeio admitir que tenho medo da vida quando ela começa a acontecer pra mim.
e então em um sábado qualquer você volta,
sua foto familiar junto ao nome que ainda hoje é o mais bonito que tive a chance de pronunciar ao lado de "meu"
— você,
o mesmo que há sete anos atrás me ensinou o poder de uma voz
das palavras e da poesia —
uma conversa distante se desenrola e no meio dela
como se fosse simples
tudo me remete a um tempo onde eu sofria o luto de dois amores perdidos para uma doença terrível
um tempo onde você tentava - inutilmente - me segurar perto
onde eu nem existia por completo.
mas ainda assim, um tempo que parecia a realização de algo que sempre pareceu nos pertencer
o amor
onde eu pude enfim te chamar de meu amor, meu.
meu deus,
quanto amor dividimos
é uma pena que tenha existido, ainda assim, tanta dor.
mas a ilusória sensação de que o tempo não passou sempre precede o baque do corte e não consigo mais segurar a pergunta que corre ansiosa pela minha língua,
sua resposta, vem rápida e certeira:
"na verdade, sim. há quase 6 meses."
e então meu mundo se parte em dois:
quem fui, com toda essa distância implantada pelo bem e covardia da minha própria sobrevivência
e quem sou hoje, depois de te ouvir dizer que seu coração agora pertence a outra pessoa.
a raiva, a dor, a felicidade
os textos,
as palavras que despencam
de novo e de novo
tudo que não posso te falar
teria sido mais fácil se eu, como ela, estivesse perto de você?
o resultado teria sido diferente se em todas aquelas brigas eu pudesse ter olhado para o seu rosto? beijado sua boca?
relembro sua voz
que tanto amei
dizendo: "você é o amor da minha vida"
e meu peito começa a acomodar um vazio etéreo
vejo suas fotos
te encontro lindo e radiante - como sempre imaginei que estivesse -
imagino ela do outro do celular, feliz, como ela poderia não estar?
imagino tudo que ela pode ter
você, como nunca pude, como nunca vou poder
um abraço, tão pouco - que constatação cruel - e eu nunca te abracei
e então numa - muito provável - tentativa egoísta de manter um único pedaço de mim inteiro,
eu percebo que nas fotos, apesar de deslumbrante, você não tem aquele olhar
aquele olhar que costumava me atravessar por inteira,
aquele olhar único que nunca encontrei em mais ninguém
não vou mais te responder
não tenho nada de verdadeiro para dizer
e a verdade tem gosto de barganha:
volte,
eu voaria hoje mesmo para perto de você
eu posso. agora eu posso.
mas eu te amo demais para arriscar ameaçar qualquer coisa bonita que exista na sua vida
me reviro na cama de madrugada
suas mensagens não lidas
a dor percorrendo todo o meu corpo
o máximo que consigo ter de você
agora eu sei como você se sentiu
tomo tudo de bom grado
é justo,
é um justo fim,
a perda da minha vida.
fazer as pazes com o fato de que sempre vou esbarrar na sua existência
pontos que nos ligam existem bem antes do dia em que eu te conheci
e sempre vão existir
fazer as pazes com o amor que dei e que foi perdido por hora
por que eu não quero amar ninguém novamente dessa forma
agora
por que talvez eu nunca queira
novamente
ou talvez só até que eu encontre maneiras de coexistir com a intensidade sem que ela acabe comigo
fazer as pazes
comigo
com a pessoa que fui
a pessoa que te escolheu
apesar de tudo
por causa de tudo
ela não tinha como saber
que o quebrado não se conserta de fora
que o amor não sustenta dois pesos
e que a vontade, ah, a vontade
não é o bastante para fazer nada dar certo
a vida anda no único sentido que sempre andou
o sol, nasce e morre, só pra nascer e morrer de novo no dia seguinte
e eu continuo aqui, exatamente onde estava
quando te escrevi: então vá
e você foi
com alguns simples cliques no celular
o meu medo se parecendo com uma salvação
seus números como fantasmas
e a cor da vida despontando no fundo de tudo
já fazem dois meses que não ouço nada sobre você
cinco que não te vejo
sete meses que viver tem sido uma tarefa fácil
desconhecer algo nunca foi tão bom
e dói porque eu nunca quis que tivesse chegado nesse ponto
e dói porque eu tinha prometido que te ajudaria a decorar seu novo apartamento
mas você também prometeu, E
prometeu que nunca me trataria mal novamente
mas você tratou
de novo e de novo
e até hoje eu acordo de pesadelos onde busco desesperadamente entender a razão de tudo isso
mas eu sempre acordo
e lembro que não preciso entender tudo
só preciso deixar ir
e eu deixo
um pouco mais a cada dia
eternamente assombrada
pela forma como amei você
e, de repente, numa quinta-feira qualquer, eu desci aquelas escadas e coloquei a mão em frente ao sensor que abre a porta, fingindo uma indiferença irreal, pela última vez. e então, quase dois anos — meu cabelo ruivo, liso, o enamoramento pelo trabalho, as meninas, o ônibus que me trouxe de volta àquele velho amigo, a mudança, cabelo curto, preto, natural, você, você e, finalmente, esse apartamento, nosso amor, a dor, os remédios, a vida ganhando cor, meus amigos, o poder da amizade — ficaram pra trás. ou a lembrança de que, por meses e meses e meses, essa foi minha vida. estar às 09 no mesmo lugar, aquele velho caminho. sair às 18 com o céu já escuro. passar no supermercado, chegar em casa e amar ou odiar tudo, cada detalhe dessa rotina. as inseguranças, o medo, o mundo crescendo, se expandindo, eu não percebia, mas agora vejo: sim, eu dobrei de tamanho. e eu fui capaz. as coisas acontecem mesmo de uma hora pra outra, mesmo que demorem a vida inteira pra acontecer. o futuro, como sempre, é incerto. mas todo o resto, não.
Você não tem ideia do tamanho do vazio que se instala no meu peito toda vez que dizemos adeus. Se soubesse, talvez juntasse as migalhas de afeto que ainda te mantêm perto de mim e, pelo meu bem, dissesse: não volte mais.
Apesar de soar meio masoquista, espero que você corte esse fio de uma vez por todas, que seja cruel o bastante para que eu não encontre mais brechas onde o seu desinteresse possa parecer, ainda que por engano, um pouco de paixão.
Escrevo e tudo me soa falso. O gosto amargo sobe à garganta. Como eu poderia saber aquilo que você nunca diz? Nada nessa adivinhação me parece real. Talvez eu seja covarde demais para admitir que, dos seus sentimentos, sei muito pouco. Covarde para abraçar minhas próprias escolhas e a impossibilidade de o outro ser tudo o que eu desejo.
Talvez… este seja só mais um texto jogado ao vento. Porque eu sou covarde o bastante. E porque nunca admito isso.
é quarta-feira, feriado, estou deitada na minha cama, lasanha congelada no forno. oh to be a girl in her's twenty. meu amigo me envia mensagens, show do mac demarco em recife. vamos? vamos. ativo um despertador, amanhã às 12h preciso comprar o ingresso. e a vida tem sido como a realização de um sonho. minha viagem para joão pessoa próxima semana, mais dois dias de trabalho e então férias. o dinheiro na minha conta bancária. fruto de trabalho e esforço, meu deus o quanto eu batalhei para chegar aqui, exatamente aqui, meu apartamento branco, liberdade, liberdade para sonhar, planejar desejar comprar livros passagens ingressos tudo que eu disse querer aos vinte e dois anos e que hoje posso dizer: que bom que eu quis.
te ligo pela décima vez em uma semana, com o celular no ouvido, não ouço um toque sequer. seus dois números parecem não existir mais. você, não existe mais na minha vida.
simples assim, como eu sempre temi que fosse ser, como eu ansiei secretamente que fosse.
não sei o que fazer, mas deito nessa cama e me reviro como me revirei um ano atrás. não é a primeira vez que você some, mas sinto que dessa vez não existe volta.
acabou? sinto a dor apertar minha caixa torácica. tudo que eu fiz para te ter um pouco mais perto, o tempo, as lágrimas, as palavras, os olhares. o que diabos eu faço com tudo isso?
me movo, o sol das nove na cara, o escritório vazio, uma viagem sendo planejada, de repente já é noite. a vida corre, será que ela corre aí também?
será que foi fácil ir?
será que você também se pergunta?
as perguntas que segurarei até não precisar mais.
o amor que eu sinto e que me ameaça dia e noite.
meu deus como eu te amei.
me movo. o que mais eu poderia fazer? te ligo outra vez, você vai desaparecer, repito com incredulidade.
é simbólico que tenha sido um dia antes de agosto começar, um ano atrás você quebrou meu coração, um ano atrás eu quebrei o seu.
o que restou para ser quebrado? a linearidade do tempo eu acho. mas não por muito tempo.
Anamnese
teria sido melhor se eu não tivesse te respondido no dia em que o primeiro corte foi feito. teria sido melhor se eu não tivesse aceitado voltar para sua casa quando você me fez esperar duas horas na rodoviária. teria sido melhor se eu tivesse dito não, chega, é o fim. teria sido melhor nunca ter chegado ao ponto de que o afeto fosse um pedido imposto.
mas eu não fiz o melhor, eu fiz o que me faria estar perto de você. eu queria provar que algo podia mudar, eu tive medo que todos os más sinais fossem apenas minha mente alerta, absorvida em memórias de um passado distante. eu quis provar que ainda existia dentro de mim, capacidade de amar. e agora eu olho para toda essa bagunça e esbarro nas lembranças como se precisasse da dor para voltar a realidade, minhas mãos estão suadas, meu estômago dói, não acredito que um dia você me olhou com tantas certezas, não acredito que sua visão mudou como água entre meus dedos, não acredito que você nem sinta minha falta, pelo menos não tanto.
que encontro trágico,
como foi fácil cairmos em um poço de tristeza, como foi fácil o alimentarmos, oh, foi doce a entrega ao corrosivo
espero que você esteja mais confortável agora, espero que o afogamento no trabalho te traga as respostas das perguntas que você nunca teve coragem de fazer, espero que eu esteja errada.
que o motivo de toda essa aversão a completar um texto sobre nós e essa história dolorida seja porque terminar uma escrita seria terminar parte de mim.
já fazem 3 meses que eu disse chega, 11 que você jogou facas
não-vejo-um-futuro-com-você
uma a uma,
como doeu
como foram cruéis os dias que eu não conseguia engolir uma grama de comida e que no trabalho me olhavam com pena
que estar em qualquer lugar era estar num inferno, as lembranças rasgando meu peito, você ignorando que eu existia
how much sad did you think I had in me?
eu acho que muita. o bastante.
quanto eu tenho realmente? acho que um tanto, mas queria que você tivesse escolhido ir embora quando disse que era o fim
queria que o medo de me deixar nunca tivesse sido maior do que a vontade de me ver bem. queria que você tivesse me ouvido e visto. como eu vi você, como eu te amei, te entendi e te dei uma versão de mim que sinto saudade. provavelmente sempre vou sentir.
o depois é um eterno ir e vir, ontem foi um dos dias difíceis. te liguei e você disse que sabia que eu estava chateada. quem dera eu estivesse, quem dera fosse tão simples.
hoje acordei com os olhos inchadas, atrasada e doente. mas com a certeza de que a escrita vai me salvar. e que eu vou voltar a amar um dia, por que isso é, como diria liniker, tudo pra mim.
e não foi um erro, não, ser quem eu sou nunca vai ser um erro.
penso muito no acervo de paixões que carrego and then i can’t sleep penso no ladrão de ossos que usa sempre a mesma faca no menino da loja de sorvetes que volta sempre ao mesmo amor e que há em toda embarcação alguém que pensa muito no acervo de paixões que carrega o pássaro dando saltos entre a herança de deus e rajadas de revolução briguei por muito tempo com a saudade e agora ela é tudo o que permanece.
"all i do is keep the beat" – Leslie Lane.
falei que te amo sem querer, mas sei que não foi uma mentira. talvez não seja também uma verdade completa, mas sei que, ao sentir seu toque, beijo, ver seu rosto, sentir seu cheiro, algo desperta meu coração que costumava bater fraco. ilumina um caminho onde o futuro se entrelaça com o seu nome, que é o nome mais bonito que eu conheço. e como você me chama: deborá, com ênfase no a, com ênfase na singularidade. só você me chama assim. eu tento absorver tudo, mas falho. tento escrever tudo e perco o essencial, o mais bonito. suas mãos na minha cintura durante todo o show, sua postura protetiva, a preocupação. o "vem cá" dito com sono, os beijos que você espalha, sem displicência, nas minhas costas. as piadas, ditas sempre. o carro de 2.600 metros. o "eu sou todo seu" escorregando da sua boca. a ligação atendida: você está com sua namorada? a resposta: sim. as esperanças que me invadem como o mar invade a areia às 16 horas da tarde.
eu disse que te amo, sem querer, meio bêbada, meio sem forças pra segurar o impulso. eu disse. é agora que você foge? provavelmente. provavelmente. mas saiba que, se eu pudesse escolher, você ficaria, sem tempo determinado de partida. porque eu gosto de gostar de você e, talvez, só talvez, isso seja o um em um milhão que tanto procuramos.
― Billy-Ray Belcourt, A History of My Brief Body
[text ID: To love someone is firstly to confess: I'm prepared to be devastated by you.]