Ben 10 Ultimate Alien Force é misógino e aqui estão as provas
Por Alex Cardellini (pseudônimo), jornalista com formação em Rádio, TV e Internet pela Faculdade Cásper Líbero
Em 2016, vários grupos feministas protestaram contra um cartaz do filme X-Men: Apocalipse que mostrava o personagem Apocalipse apertando o pescoço da personagem Mística. A principal alegação era de que o cartaz “promovia a violência contra a mulher”. Seis anos antes, estreava a terceira série da saga Ben 10, chamada Ben 10: Ultimate Alien. Logo na primeira temporada, a principal personagem feminina, Gwen Tennyson, apanha severamente tanto de seu primo Ben Tennyson (o protagonista) quanto do namorado Kevin Levin. Infelizmente, embora o caso de Gwen fosse ainda mais grave que o de Mística (considerando o enredo de ambas as histórias), não houve sequer um protesto contra o desenho.
Mesmo que Ben 10: Ultimate Alien não seja mais tão popular como era antes (embora ainda tenha muitos fãs engajados), é preciso apontar o caráter machista que a saga tomou desde que a Cartoon Network trocou os responsáveis por ela. Nos tempos de hoje, em que o caráter discriminatório (racista, xenofóbico, etc.) de muitas histórias antigas está sendo revelado, é importante denunciar o sexismo em obras mais recentes para que este não seja repetido no futuro. Neste artigo, vou mostrar porque Ben 10: Ultimate Alien e sua predecessora Ben 10: Alien Force são séries misóginas e precisam ser questionadas.
1- Gwen Tennyson: de heroína empoderada a mulher de malandro
A série original de Ben 10 foi criada por Man of Action na segunda metade da década de 2000. Os personagens principais eram Ben Tennyson, sua prima Gwen e seu avô Max. Gwen foi apresentada como uma menina de 10 anos muito inteligente, corajosa, limpa e dotada de muitas habilidades. Ela sabia lutar karatê, fazer pesquisas importantes (como nos episódios “Washington A.C”, “O Krakken”, “Caçado”, “Acusado”, “Os Desnaturados”, “Lobisben”, etc.), possuía muito conhecimento sobre informática (ex.: “Pronto Pra Briga”, “Ben 10 Contra os 10 Negativos”, etc.) e, a partir da segunda temporada, desenvolveu poderes mágicos. Os episódios “Sorteada”, “Má Sorte” e “Gwen 10” são focados nela. Gwen era um exemplo de empoderamento feminino, o que atraiu a audiência de muitas meninas, que se identificavam com ela. A heroína passava a mensagem de que as meninas não precisam esperar que os meninos as salvem dos vilões, elas podem lutar ao lado dos meninos contra os vilões. Infelizmente, a Cartoon Network não soube aproveitar a popularidade de Gwen. Os produtos do desenho (brinquedos, cadernos, jogos, roupas, etc.) focavam exclusivamente em Ben e nos alienígenas, limitando a heroína a adesivos e jogos online de pouca expressividade. Mas o problema maior está nas sequels, nas quais o desenvolvimento da personagem foi por água abaixo.
Gwen na série original de Ben 10
Visando aproveitar o sucesso comercial de Ben 10, a Cartoon Network apostou em uma continuação. Porém, substituiu o criador Man of Action por Dwayne McDuffie como desenvolvedor. A nova série, Alien Force, tornou Ben e Gwen adolescentes de 15 anos e trouxe enredos mais “sombrios” para os episódios. Infelizmente, o que era para ser uma fase de “maturidade” dos personagens, acabou regredindo os mesmos, e Gwen foi a personagem mais afetada. Para começar, seu físico é sexualizado comparado com o de outras personagens femininas da mesma idade, como Julie Yamamoto. Além disso, sua inteligência e habilidades de pesquisa são quase ignoradas (salvo em episódios como “Paradoxo” e “De Castigo”). Sua atuação nas lutas passa a ser mais corporal (através de sua magia). Com a chegada da adolescência, naturalmente Ben e Gwen passariam por novas experiências e sentimentos, como as primeiras paixões. E nesse ponto, McDuffie e sua equipe não conseguiram fazer um bom trabalho.
Gwen e Julie em Alien Force
O personagem escolhido para ser a “paixão” de Gwen foi Kevin Levin. Na série original, ele era o segundo vilão principal (atrás apenas do alienígena Vilgax). Kevin deixou bem claro que era uma pessoa gananciosa e com fortes traços de psicopatia (evidente em episódios como “Kevin 11” e “Luta de Revanche”). Em sua primeira aparição na sequel (“O Retorno de Ben 10 - Parte 1”), ele continua desprezando a vida das outras pessoas, pois atua como um contrabandista de armas letais (mais perigosas que as da Terra). Apesar de reconhecer o mesmo vilão que ela e seu primo combatiam na infância (e que a machucou em “De Volta Com Uma Vingança”), Gwen inexplicavelmente se apaixona por Kevin. Ela chega ao cúmulo de guardar um lenço suado dele no episódio “Uma Artimanha de Kevin”. Como uma menina que aos 10 anos era independente, limpa, e que não se deixava humilhar por homem nenhum, aos 15 resolve guardar para si o lenço suado de um psicopata? Com isso, temos o primeiro questionamento sobre a mensagem que Ben 10: Alien Force quer transmitir ao público: os roteiristas querem insinuar que as meninas aos 15 anos são seres irracionais que abrem mão do juízo e personalidade para se entregarem ao primeiro “garoto bonito” que aparece? Não seria isso uma descrição muito machista das meninas adolescentes? Certamente, pois a atitude de Gwen em “Uma Artimanha de Kevin” insinua uma inferioridade intelectual das mulheres ao sugerir que elas não saibam diferenciar atração física de amor incondicional. Uma coisa é achar um homem bonito, outra coisa é ignorar que o mesmo seja um psicopata e idolatrá-lo de forma que até seus excrementos sejam considerados “sagrados”.
Alien Force infere que Gwen acredita que Kevin possa ser mudado (característica comum em mulheres com hibristofilia, “Síndrome de Bonnie & Clyde”). No entanto, quem o conhece desde a série original sabe isso é impossível, pois ele é um psicopata. Episódios como “O Retorno de Ben 10 - Partes 1 e 2”, “Uma Artimanha de Kevin”, “A Manopla”, “Simples” e “Questão de Ira” revelam que Kevin sempre volta ao crime, mesmo quando está ajudando os Tennysons em uma missão. Heróis verdadeiros não fazem jogo duplo (a série original explica isso em “Verdade”). Com sua inteligência e habilidades de pesquisa, a Gwen original saberia que é impossível curar a psicopatia, portanto, não se pode confiar em Kevin. No entanto, a Gwen de Alien Force (cinco anos mais velha) ignora a razão e se deixa guiar pela atração física. A ideia de que as mulheres são puramente emotivas e não sabem raciocinar constitui um conceito misógino.
No episódio “De Que São Feitas As Garotinhas?”, quando ela recebe uma proposta de viver com a avó e aprimorar seus poderes, Ben a aconselha a ir. Já Kevin rejeita a proposta e sugere que ela deva ficar, como se Gwen fosse sua propriedade. Ela o beija e aceita sua ideia, sem perceber que a “preocupação” dele é, na verdade, um sentimento de posse. Além disso, em nome de seu amor por Kevin, Gwen se submete a humilhações e perigos (“O Tempo Cura”) para ajudá-lo. Ela ignora a grosseria (“Nasce o Estrela Sombria”, “Reserve A Última Dança”) e o desrespeito que o amado tem por seus sentimentos (“Os Encantos de Encantriz”), sacrifícios (também em “Os Encantos de Encantriz”) e seu padrão de vida (“Reserve A Última Dança”) para continuar nutrindo esse amor. A heroína não percebe que está vivendo um relacionamento tóxico, e o curso da história ignora esse problema para sugerir que não há nada de errado com isso. Um exemplo é o meio e final do episódio “Reserve A Última Dança”, em que a “preocupação” de Kevin em levar Gwen ao baile de sua escola (que ele despreza no começo) mascara o desdém que ele tem pelo modo como ela vive.
Kevin não é o único personagem mau-caráter e machista que conquistou a heroína. Ela também é seduzida por Michael Morningstar, um vilão que quer absorver sua energia. Gwen é facilmente manipulada por ele pelo fato de o vilão ser bonito (“Nem Tudo Que Reluz...”). Ao mesmo tempo, ela rejeita os sentimentos de Cooper - um menino que a ajudou na série original - porque ele não se encaixa nos padrões de beleza (“Camuflagem”). Com isso, Alien Force indica que Gwen seja fútil e atraída por homens de má índole. Logo, a série insinua que mulheres valorizam a beleza física em detrimento do caráter, outro retrato machista.
O sexismo de Alien Force ganha mais intensidade em sua sequel, Ben 10: Ultimate Alien. Nela, Gwen se torna uma vítima da violência física contra a mulher. No episódio “Centro da Criação”, da primeira temporada, Kevin absorve energia demais para derrotar o vilão Agreggor. A overdose acarreta em uma sede incontrolável de poder e ele passa a promover ataques para conseguir cada vez mais energia. Em “O Inimigo Do Meu Inimigo”, Kevin agride Gwen após lutar contra os Encanadores (agentes intergaláticos), e a narrativa sugere que a agressão só ocorreu porque Kevin estava sob efeito de um “entorpecente”. Comparando com a vida real, é como um marido que diz que bateu na esposa “porque estava bêbado”. Após isso, enquanto Gwen encara Kevin como alguém que precisa de ajuda (como um alcoólatra ou viciado em drogas que precisa de tratamento), Ben o vê como uma grande ameaça e, na posição de “maior herói do universo”, não vê outra opção a não ser matá-lo. A partir dessa discordância entre os primos, é aflorado o pior caso de misoginia de toda a saga.
No fatídico episódio “Poder Absoluto - 1ª Parte” - ironicamente, escrito por uma mulher, Charlotte Fullerton - Ben está determinado a matar Kevin. Ele fala e age de maneira rude com Gwen ao perceber que ela não concorda com ele. Os primos então começam uma luta: ela usa sua magia para segurá-lo, e ele usa suas transformações para, inicialmente, mantê-la afastada. No entanto, a briga se torna mais intensa quando Ben se transforma em NRG para lançar lava contra a prima (o que poderia matá-la caso a mágica falhasse). Ela em retaliação o esmaga com seu livro quando ele se torna Nanomech (o que também poderia matá-lo). Em seguida, ele se transforma em Gigante, lança um raio de energia contra ela e a deixa inconsciente. Ben ainda profere um discurso de vitória diante do corpo da prima. Depois, Gwen apela ao avô, que surpreendentemente se coloca ao lado do neto e ignora que a neta foi agredida pelo próprio primo. A partir do momento que usou NRG para detê-la, Ben não estava mais na posição de “protetor” (ou seja, tentando afastá-la de um perigo que ela “não entendia”). Ele estava com a intenção de machucar Gwen porque ela não concordava com ele. Percebe-se então que Ben promove e justifica a violência contra a mulher e o machismo, colocando a mulher como inferior ao homem e que merece apanhar quando não está de acordo com ele. E o que é mais preocupante: dessa vez não é o “vilão” que está desempenhando o papel machista, é o “herói”.
Ben agredindo Gwen em Ultimate Alien
Gwen acaba se aliando a Morningstar para salvar o namorado, oferecendo-lhe a energia de seu corpo em troca de ajuda (uma metáfora sexual). O vilão não perde a oportunidade de assediá-la, como de costume. Ao tentar conversar com Kevin, durante uma emboscada, ela é agredida pelo mesmo de uma maneira ainda mais violenta que Ben, tanto verbalmente quanto fisicamente. Em “Poder Absoluto - 2ª Parte” - escrito por um homem, Dwayne McDuffie - quando Cooper se junta ao time, Gwen se sente atraída por ele, que agora está belo. Eles conseguem trazer Kevin de volta ao normal. Ela beija Cooper no rosto e Kevin na boca. Ben e Kevin se desculpam um com o outro, mas nenhum deles pede perdão a Gwen por tê-la agredido, nem nesse nem nos episódios seguintes. O assunto é simplesmente “esquecido” e todos agem como se nada tivesse acontecido. É como se a série dissesse para o público: “Veja, o herói da sua infância bate em mulher, e não acontece nada. É normal. É certo bater em mulher porque ela é fraca”.
Kevin agredindo Gwen em Ultimate Alien
Além de normalizar o machismo de um psicopata (Kevin), a série ainda promove um herói machista (Ben) que tem seus atos perdoados por ser o protagonista. A luta entre Ben e Gwen, principalmente o discurso de vitória dele, lembra muito as cenas do filme Nunca Mais, no qual o vilão Mitch (Billy Campbell) agride a esposa Slim (Jennifer Lopez). Porém, em Nunca Mais, a vítima aprende a enfrentar o problema e dá a merecida punição ao agressor. Em Ben 10: Ultimate Alien, os agressores saem impunes e aclamados, e a vítima é ignorada e desvalorizada. É nojento como a série retrata a violência contra a mulher, pois implica que ela é o resultado de uma escolha das próprias mulheres. Na vida real, muitas vítimas acabam aguentando as agressões porque não têm apoio financeiro e familiar para se livrarem dos agressores. Não é o caso de Gwen, que é rica e acolhida pelos pais. Fica claro que a personagem sofre de Síndrome de Bonnie & Clyde, que é tratada na série como “algo natural das mulheres”, quando deveria ser encarado como é de verdade: um sério problema psicológico.
Tal como ocorre em Alien Force, Kevin continua desprezando os sentimentos de Gwen em Ultimate Alien. Em “Os Encantos de Encantriz” (de Alien Force), além de trair seus sentimentos ao beijar Encantriz, ele desconsidera o trabalho que a heroína tem para ajudá-lo a reverter os efeitos colaterais de um acidente. Em uma conversa com Ben, Kevin acusa Gwen de não gostar mais dele por causa de sua aparência mutante, indicando que ela seja superficial. No episódio “Vídeo Games” de Ultimate Alien, ele demonstra valorizar mais o carro do que ela, considerando-a um objeto. Em “Hora do Herói” e “Garota Problema”, ele aceita os flertes, respectivamente, de Jennifer Nocturne e Sunny, mesmo tendo namorada. Em ambos os casos, Gwen prefere ameaçar as amantes a repreendê-lo. Esses exemplos provam que Kevin não valoriza Gwen. Relacionamentos assim são tóxicos, abusivos e sexistas. Uma série animada vista por crianças e adolescentes deveria combater essas ideias, não incentivá-las. Ironicamente, no episódio “Ninho De Amor”, Gwen tenta alertar Encantriz de que Morningstar é um namorado tóxico, sem perceber que seu próprio relacionamento com Kevin é igualmente tóxico e abusivo. A série alerta sobre a Síndrome de Estocolmo através de Jennifer Nocturne e o vilão Nemesis em “Pegando Uma Estrela Cadente”, mas, ao mesmo tempo, normaliza e romantiza a Síndrome de Bonnie & Clyde através de Gwen e Kevin.
Ultimate Alien ainda possui mais dois episódios que expõem a misoginia contra Gwen. Em “Centro da Criação”, ela é assediada por uma versão mais jovem de Ben, que faz comentários indiscretos sobre o traseiro dela. Kevin os ecoa logo em seguida. Uma pergunta para os roteiristas e produtores: se assediar uma mulher já é inaceitável vindo de um adulto, como pode ser normal vindo de um menino de 10 anos? Querem incentivar as crianças a cometerem assédio? Isso é crime. No último arco da série, em “O Inimigo Supremo: 1ª Parte”, o vilão Diagon revela que Gwen é o ser mais poderoso do universo. No entanto, o próprio roteirista Matt Wayne afirma que não acredita que isso seja verdade. Isso demonstra que a produção de Ultimate Alien não reconhece o poder das mulheres. Considerando os fatos, Gwen tem mais habilidades que Ben (que, sem o Omnitrix, não tem poder algum). No entanto, a regra do universo de Alien Force e Ultimate Alien (também chamado de Ultimate Alien Force, abreviado UAF) é tratar as mulheres como inferiores aos homens, principalmente ao protagonista. Logo, seria inconcebível reconhecer que Gwen é mais poderosa que Ben.
Na sequel de Ben 10: Ultimate Alien, Ben 10: Omniverse, Gwen é rebaixada de deuteragonista a coadjuvante. Embora ela continue namorando Kevin, seu relacionamento não está mais em evidência. Na verdade, Gwen quase não tem espaço em Omniverse, pois a série é totalmente centrada em Ben. E, como ela passa a frequentar a faculdade, não está mais tão disponível para o primo. Nessa etapa da franquia, embora ela não esteja feia, é visível que a direção de arte buscou torná-la menos atraente que suas versões anteriores (considerando os padrões e estereótipos adotados em séries e filmes americanos). Primeiramente, a série quer reproduzir a ideia misógina de que mulheres não podem ser bonitas e inteligentes ao mesmo tempo (ecoada por personagens de diversas séries americanas, como Damon Salvatore em The Vampire Diaries). Em segundo lugar, Omniverse repete a ideia de Ultimate Alien Force de que Gwen é inferior aos homens e que serve unicamente para satisfazer aos mesmos. Se ela não tem mais “utilidade”, ela não merece destaque. Logo, após retirar a inteligência e independência da personagem, a saga agora lhe toma seu último “destaque”: sua beleza.
É importante lembrar que, na série original, Gwen e Max davam lições em Ben (em episódios como “O Pega-Turista” e “Sorteada”), mostrando ao público-alvo (as crianças) que cometer erros e aprender com eles faz parte da vida. Infelizmente, os responsáveis por Omniverse parecem ver isso - erroneamente - como algo que “tira o protagonismo” de Ben, e criam enredos nos quais ele sempre sai vitorioso, mesmo que sua conduta não seja a melhor. Episódios como “Mistério Incorpóreo” e “Lama É Mais Grossa Que Água” fazem questão de humilhar Gwen para transmitir a mensagem de que não importa o que ela faça, ela precisa estar abaixo de Ben.
Em Ben 10: Reboot, em que os personagens voltam a ter 10 anos, Gwen perde sua personalidade e se torna uma versão feminina de Ben. Com isso, ela age como uma menina imatura, inconsequente e com pouca inteligência, como o primo. A única coisa notável no Reboot é que um de seus episódios - “Nação Zingo” - critica o sexismo de Ultimate Alien Force. Em uma paródia desse universo, Gwen é representada como uma moça irracional, atraída por criminosos. Ela tem consciência do perigo, mas se deixa levar pela atração do mesmo jeito. Não coincidentemente, na paródia, ela recebe o nome de Quinn, o mesmo de Arlequina, namorada do Coringa.
Man of Action criou Gwen como uma personagem feminina independente e empoderada. Seus sucessores acharam mais lucrativo promover estereótipos sexistas (ignorando a consequência disso para o público-alvo: crianças e adolescentes) e a transformaram em um estereótipo de mulher sexualizada e irracional que se submete a criminosos bonitos. Se a franquia ignorou o público feminino ao desprezar a aclamada personagem no mercado, ela passou a desrespeitá-lo ainda mais ao transformar uma heroína empoderada em um retrato da dominação masculina sobre as mulheres.
2- Ben Tennyson: de herói que não bate em mulher a mulherengo agressor de mulheres
A série original faz questão de mostrar que, para Ben Tennyson, sua família é o mais importante. O Omnitrix é apenas uma ferramenta. Isso fica claro em episódios como “De Volta Com Uma Vingança” e “A Visita”, e no filme Ben 10: O Segredo do Omnitrix. A história ensina que, mesmo que haja discordâncias entre os membros, a família é a maior fonte de amor. Ben aprende com seus erros e segue em frente. Ao contrário dos finais dos episódios da série original, que são educativos, os de Ultimate Alien Force e Omniverse insinuam que o protagonista sempre tem razão, promovendo o narcisismo do personagem, não seu suposto “amadurecimento”.
No episódio “A Aliança” da série original, Ben é enfático: “heróis não batem em mulheres”. Infelizmente, a produção de Ultimate Alien ignorou isso e o fez agredir Gwen em “Poder Absoluto - 1ª Parte”. Em momento algum da história Ben é repreendido por isso ou se desculpa com a prima. Pelo contrário, Max somente o repreende por planejar matar Kevin. O neto se justifica com um discurso moralista sobre como ele teve que “amadurecer” depois de pensar que havia perdido o avô (no episódio “Max Desligo” de Alien Force), como se isso justificasse a violência contra a mulher. O público-alvo do programa são crianças e pré-adolescentes, e estes estão em processo de aprendizagem. Eles entendem que algo é “errado” quando o personagem é repreendido e “certo” quando é recompensado. A partir do momento em que Ben não recebe nenhuma reprimenda por ter agredido Gwen, o público assimila a violência contra a mulher como algo “certo” ou, no mínimo, “normal”. Dessa forma, cria-se no subconsciente do público um “machismo aceitável”. Diferente de Kevin, Ben não é um psicopata, e várias histórias posteriores mostram que ele se preocupa com a prima. Um exemplo é “Garota Problema”, no qual - enquanto Kevin reclama e debocha de Gwen - Ben a ampara e a defende na luta contra a vilã Sunny. Embora Kevin demonstre mais violência e misoginia que Ben, a atenção com o herói precisa ser redobrada, pois, por ser o protagonista, as crianças e pré-adolescentes se identificam com ele e tendem a copiar suas atitudes. É por isso que finais educativos como os da série original são importantes para o aprendizado do público. Já os de Ultimate Alien Force são prejudiciais, pois normalizam a violência contra a mulher ao insinuarem que Ben tinha “boas intenções” quando deixou Gwen inconsciente.
Gwen não é a única personagem feminina que explicita a misoginia dos universos Ultimate Alien Force e Omniverse. O segundo maior exemplo é Julie, namorada de Ben em UAF. A relação de ambos começa de forma inocente - no episódio “Confusão no Cais”, de Alien Force - e não é muito desenvolvida na série. Em Ultimate Alien, ela ganha mais destaque. No entanto, Benlie era um casal fadado ao fracasso, pois nenhum dos dois tinha maturidade necessária para iniciar um relacionamento. Ben está aprendendo a lidar com a adolescência e os desafios mais perigosos na vida de herói. Julie se sente desconfortável com a rotina agitada de Ben, exige mais atenção e disponibilidade do que ele pode dar e se mostra incompreensiva com o namorado (visto em “Enganamos”, “Os Olhos De Quem Vê” e “Lembranças De Um Techadon”). Tal comportamento é obsessivo, e também retrata as mulheres negativamente: como seres ciumentos, egoístas e incompreensivos. Julie tem poderes para combater os inimigos (através de Chip, seu pet), mas isso é mal aproveitado em Alien Force (e ainda mais em Ultimate Alien), pois isso a empoderaria, e UAF quis torná-la o estereótipo de “namorada ciumenta”.
Além disso, a saga Ben 10 é muito concentrada na parte “heroica”, e criar um núcleo amoroso se revelou desnecessário. Os produtores quiseram colocar casais na história para fazer um apelo ao público pré-adolescente. Porém, não reconheceram que não sabem retratar relacionamentos saudáveis (Kevin e Ben até ridicularizam o sexo feminino enquanto criticam suas namoradas em “Os Olhos De Quem Vê”). Todos os relacionamentos de destaque em UAF mostram o homem como dominante e a mulher como inferior. Ao forçar uma trama amorosa em um enredo que não a exigia, a produção insinua que, para ter destaque, a mulher precisa de um homem, mesmo que este lhe proporcione um relacionamento tóxico. Gwen e Julie são os maiores exemplos, pois - além dos casos já citados - o episódio protagonizado por Gwen em Alien Force (“O Tempo Cura”) tem o enredo baseado em Kevin, e as aparições de Julie em Ultimate Alien reforçam estereótipos machistas.
Em Ultimate Alien, além de agressivo e misógino, Ben demonstra ser infiel. Ele quase beija Eunice e Elena nos episódios “A Transmogrificação de Eunice” e “A Vingança do Enxame”. No primeiro caso, ele flerta com Eunice, e embora diga que não esteja com Julie, Gwen indica que o primo ainda esteja namorando a moça. No segundo caso, ele se deixa seduzir por Elena. Tanto Eunice quanto Elena são representações negativas das mulheres: a primeira é, literalmente, um objeto (de tecnologia alienígena), e a segunda é obcecada por Ben, capaz até de cometer crimes para ficar com ele (como visto em “A Namorada Perfeita”). No entanto, o caso mais gritante de infidelidade de Ben ocorre em “Hora do Herói”, no qual ele aceita ser acompanhante de Jennifer Nocturne e até toma banho de hidromassagem com ela. Lógico que, por ser um desenho assistido por crianças, eles não vão mencionar a palavra “sexo”, mas o que um rapaz e uma garota fazem em uma hidromassagem? É claro que há segundas intenções, mesmo que ele diga a Julie que foi Jennifer quem o beijou. E por que um rapaz que tem namorada aceita ir para a hidromassagem com outra garota? Julie não gosta disso, mas - tal como Gwen - ela nutre um ódio pela amante dele em vez de terminar com o namorado. Ou seja, a série quer mostrar que é direito do homem ter quantas mulheres desejar, o defeito está nas mulheres, que são “ciumentas demais”. Embora Ultimate Alien Force alegue trazer um “amadurecimento” a Ben, não há nada “maduro” em agredir mulheres e ser mulherengo.
Ben traindo Julie com Eunice e Elena
Omniverse substitui Julie por Kai como a namorada de Ben. A personagem - introduzida na série original - também traz um estereótipo: o da mulher interesseira. Kai desde o começo mostra que se interessa pelos alienígenas de Ben, não por ele mesmo. Para convencer o público de que ela seria a namorada ideal para o protagonista, a série dá a ela um perfil de Lara Croft. Com o tempo, a relação entre Kai e Ben se assemelha a entre Ben e Gwen na série original (com uma rivalidade, mas admiração um pelo outro), que depois resulta em um namoro. Sem abrir mão de estereótipos, Omniverse dá a Kai o empoderamento da Gwen original porque considera que a heroína regrediu demais em UAF para ser recuperada. Nas sequels de Ben 10 - UAF e Omniverse - não há nenhuma personagem feminina jovem com quem as fãs meninas possam se identificar. Gwen, Julie, Eunice, Elena, Jennifer e Kai são todos estereótipos femininos, feitos para comprovar a “superioridade masculina” de Ben*. O episódio “O Programa Mais Perigoso”, de Omniverse, escancara o quanto os gerenciadores da franquia veem as mulheres como objetos, ao colocar várias delas para disputar Ben em um game show, como se a maior recompensa que uma mulher pudesse ter na vida fosse um homem.
(*Encantriz e Sunny (bem como as outras antagonistas) não são consideradas, pois além de representarem o estereótipo de “mulher traiçoeira”, como vilãs de uma série animada infantojuvenil, são propositalmente desenvolvidas para que o público não se identifique com elas.)
3- Kevin Levin: o misógino psicopata amado pelos fãs
A série original é bem clara ao descrever Kevin Levin como um psicopata. Ele é o vilão que engana o protagonista (“Kevin 11”), como a Raposa e o Gato de Pinóquio. Depois o culpa por seus problemas (“Acusado”) e procura matá-lo por vingança (“Luta de Revanche”, “De Volta Com Uma Vingança”), como o Capitão Gancho, de Peter Pan. Kevin não sente remorso por seus atos, e procura atingir o herói colocando a vida de terceiros em risco, seja a família do mesmo (“De Volta Com Uma Vingança”) ou cidadãos comuns (“Acusado”). No entanto, UAF sugere que a inclinação natural de Kevin ao crime seja fruto do abandono familiar (“Poder Absoluto - Parte 2”) e do vício em energia (“O Centro da Criação”). A idolatria de Gwen pelo namorado e as constantes menções à suposta “redenção” de Kevin ao longo de UAF levam o público a esquecer que ele é um psicopata e a acreditar que ele é bom, só toma decisões erradas. Como o público-alvo da franquia é infantojuvenil, não se espera que os espectadores saibam que psicopatia é uma condição que independe do meio em que a pessoa vive. Quem conhece o personagem pela série original sabe que ele não tem cura. Os fãs de UAF ficam mais propícios a normalizar a misoginia e a agressividade de Kevin. No entanto, seja a fonte de sua maldade um trauma ou uma condição psiquiátrica, nada lhe dá o direito de abusar fisicamente e psicologicamente de Gwen. Através da submissão da heroína (aspecto narrativo) e da beleza física de Kevin (aspecto visual), UAF infere que os homens têm autorização das próprias mulheres para agredi-las, criando mais um “machismo aceitável”.
Kevin traindo os sentimentos de Gwen em UAF com Encantriz, Jennifer e Sunny (nos dois últimos casos, ele estava namorando oficialmente com Gwen)
Ultimate Alien Force tenta fazer de Kevin uma versão animada de Han Solo (de Star Wars), já que ambos são debochados e dirigem os veículos. No entanto, UAF só consegue produzir um psicopata misógino. Ele é o personagem que se dispõe a:
· Matar inocentes por dinheiro: “Kevin 11” e “Acusado” (série original);
· Matar inocentes por prazer: “Acusado” e “Luta de Revanche” (série original);
· Matar por vingança: “De Volta Com Uma Vingança” (série original) e “Vingança” (Alien Force);
· Enganar: “Kevin 11”, “Luta de Revanche” (série original), “Uma Artimanha de Kevin”, “Simples”, “Questão de Ira” (Alien Force) e “Muitas Felicidades” (Omniverse);
· Contrabandear armas: “O Retorno de Ben 10 - Parte 1” e “Simples” (Alien Force);
· Fazer associações criminosas: “Uma Artimanha de Kevin”, “Simples”, “Questão de Ira”, “Diga-me Com Quem Andas” (Alien Force);
· Roubar: “O Retorno de Ben 10 - Parte 2” e “A Manopla” (Alien Force);
· Ferir os sentimentos de mulheres: “Os Encantos de Encantriz” (Alien Force), “Hora do Herói”, “Vídeo Games”, “Garota Problema” (Ultimate Alien) e “Muitas Felicidades” (Omniverse);
· Agredir mulheres: “De Volta Com Uma Vingança” (série original), “O Inimigo Do Meu Inimigo” e “Poder Absoluto” (Ultimate Alien).
Em Omniverse, no episódio “Muitas Felicidades”, Kevin aplica um golpe em uma família real alienígena, prometendo casar-se com a princesa em troca de peças valiosas para seu carro. Ele foge antes de cumprir sua parte, e sua noiva prefere culpar Gwen do que admitir que foi enganada por um criminoso. Os enredos de UAF e Omniverse fazem questão de colocar a culpa pelos problemas nas mulheres e isentar os homens de responsabilidade ou punição por seus atos.
Alguns dos crimes de Kevin em Alien Force
A misoginia impune de Ben e Kevin fez com que muitos fãs da franquia (em sua maioria crianças e pré-adolescentes na época da exibição original) defendessem ferrenhamente o comportamento dos personagens (incluindo as agressões a Gwen). Atualmente, Ben 10 possui um dos fandoms mais tóxicos na internet. Discussões saudáveis em sites como YouTube, Reddit e na própria Wikia da saga (Ben 10 Planet) são praticamente impossíveis. Qualquer pessoa que defenda Gwen ou aponte erros nas condutas de Ben ou Kevin é automaticamente alvo de verdadeiros linchamentos virtuais. Alguns casos chegam a apresentar violência racista, xenofóbica, misógina e LGBT-fóbica. É preocupante que Alien Force seja considerada por muitos fãs e youtubers como a melhor série da franquia - justamente pelo teor mais sombrio, que dá a falsa impressão de maturidade dos personagens - quando, na verdade, ela foi a porta de entrada para a misoginia e a decadência moral e artística da saga.
Os produtores da franquia também contribuem para o ambiente tóxico que se tornou o fandom. Eles simplesmente ignoram as críticas e demonstram total desprezo pelos fãs. Um exemplo é a imensa desaprovação de Omniverse em relação às suas predecessoras. Os fãs não aprovaram o design mais simples, o humor barato e as incoerências narrativas, mas suas reclamações foram ignoradas. Além de tornar Ben um protagonista mais arrogante e imaturo, Omniverse tentou consertar as falhas de UAF criando ainda mais buracos na história. Quiseram mostrar que Gwen se apaixonou por Kevin aos 11 anos (o que é cronologicamente impossível), mas se esqueceram de que, no primeiro reencontro dos primos Tennyson e Kevin em Alien Force, os heróis só se lembram que eram inimigos, não da suposta aliança em “De Hedorium Para A Eternidade”. Diante de seu desprezo a questões mais simples, não seria uma surpresa se os responsáveis por UAF e Omniverse ignorassem as denúncias de misoginia na franquia.
Crendo que o estereótipo e a misoginia sejam mais lucrativos do que a originalidade (esta que deu tanto sucesso à série original), a Cartoon Network destruiu o legado de Man of Action ao modificar totalmente a história e os personagens da saga Ben 10. Os fãs são induzidos a normalizar a violência contra a mulher e o machismo. Nos tempos atuais, em que mensagens discriminatórias em filmes e séries são denunciadas, Ben 10: Alien Force e Ben 10: Ultimate Alien não podem ficar de fora da lista. Principalmente porque ambas são um show de misoginia.
Violência contra a mulher não pode ser retratada como uma escolha pessoal da vítima, muito menos justificada como se os homens fossem naturalmente superiores e tivessem o direito de agredir mulheres. O combate à violência de gênero começa ensinando valores éticos às crianças, e programas que promovem estereótipos e mensagens de superioridade masculina como UAF e Omniverse são um verdadeiro desserviço. Apenas a série original merece nossa admiração. Uma saga destruída pela ganância e pela misoginia só merece o nosso repúdio e ojeriza.
O público-alvo de Ben 10: Ultimate Alien (crianças e pré-adolescentes) tem mais tendência a copiar Ben Tennyson do que o de X-Men: Apocalipse (adultos) a copiar Apocalipse. Combate à violência contra a mulher começa desde cedo, dando o exemplo certo à juventude.
Notas finais: A equipe de roteiristas de UAF é majoritariamente masculina. Matt Wayne é um dos principais roteiristas. Ele escreveu “Uma Artimanha de Kevin”, “De Que São Feitas As Garotinhas?” e “Mistério Incorpóreo”, os episódios misóginos mencionados. Além disso, ele volta e meia faz declarações machistas sobre Gwen e que supervalorizam Ben.