#1. Melhora da Morte
Esse texto vem de um daqueles momentos em que eu me sinto inspirado e animado pra fazer algo novo, algo que eu nunca tinha feito antes, que vai de algum modo mudar a minha perspectiva de vida e me transformar naquela pessoa que eu sempre quis ser.
Eu sofro com a depressão desde os 16 anos de idade, e se eu pudesse resumir todos esses anos em algumas palavras, eu poderia dizer que existem dois lugares muito familiares pra mim: o estado depressivo e o pico de energia.
Nesses picos de energia eu já fui dezenas de versões de mim mesmo. Um estudante assíduo, um leitor, um grande apreciador da música ou cinema... caramba, eu já fui até um desbravador curioso, viajei sozinho pro estado vizinho na tentativa de superar o término de um relacionamento.
Eu diria que todas essas experiências foram muito catárticas pra mim, me ajudaram a ser a pessoa que eu sou hoje, mas não é um pouco frustrante quando esse surto de dopamina acaba e você percebe que continua sendo a mesma pessoa de antes?
Agora é exatamente um desses momentos. Hoje eu acordei 11 da manhã, comi o resto do lanche da noite anterior e, já entediado do celular, decidi retomar uma das dezenas de leituras que eu abandonei depois que esse exato momento de grande revelação e mudança finalmente acabou. Li quase 60 páginas daquele livro, pretendo terminar ele dessa vez. Peguei o meu computador e comecei a escrever esse texto.
Fiz uma pesquisa preguiçosa sobre esse assunto na internet. Não achei nada de interessante, nenhuma nomenclatura culta, apesar de eu ter quase certeza que a psicologia já nomeou esse pequeno fenômeno em algum lugar por aí.
Então eu, uma pessoa de inteligência humilde, vou tentar descrever isso comparando a situação com um fenômeno no qual eu tenho conhecimento.
"Melhora da morte". Um paciente terminal repentinamente apresenta um quadro de melhora, se torna lúcido dias, horas ou minutos antes de partir dessa pra melhor (Quão louco é um idoso com Alzheimer retomar toda a memória momentos antes de morrer? Parece que é uma maneira que a nossa mente encontra de se despedir do mundo).
Eu me sinto assim às vezes. É como se eu vagasse por aí sem um destino final, é uma apatia maldosa que te deixa entorpecido e ao mesmo tempo te lembra constantemente que você continua vivo, e por isso deveria sentir uma parcela de culpa...
Até que um dia você acorda e decide mudar de vida! Vou terminar aquele projeto incompleto, vou ler um livro, passar a tarde no parque, colocar mais proteínas no meu prato! Que grande momento, você finalmente acordou do coma, sua vida nunca mais vai ser a mesma. Você finalmente tira a bagunça da cama, dobra os lençóis, abre a janela do quarto. Eu geralmente respiro menos ansioso, meus passos pela casa são mais cuidadosos e gentis, eu faço tudo com menos pressa, afinal, o que tem lá fora que não pode esperar um pouco? Esses segundos a mais dedicados a fazer tudo com mais gentileza são tão bonitos, sinceramente...
E então a gente morre de novo. Não sei como acontece com vocês, mas geralmente o que acaba com as minhas esperanças são memórias importunas de alguém que não vai mais voltar, um estresse familiar inevitável, ou o fracasso em uma dessas tarefas que eu tinha tanta vontade de fazer. Acabou. Eu vou passar as próximas duas semanas ou o mês inteiro emburrado. As roupas vão voltar a se acumular misteriosamente no canto da minha cama. Sem mais cafés da manhã ou visitas ao parque, pode ser que eu esqueça de escovar os dentes, e o livro que eu comecei vai voltar pra estante.
Esse é um ciclo que parece não ter fim e eu sinceramente não tenho uma perspectiva de como isso vai mudar algum dia. Mas o que eu quero trazer aqui é o seguinte: por mais frustrante que seja, esses momentos são muito importantes.
Uma coisa que eu aprendi com todas as experiências da minha vida é que não tem nada que aconteça com a gente que não sirva de lição pra um momento posterior. Absolutamente TUDO que você viveu até agora te deixou mais forte, mais tolerante, mais sábio. Por mais piegas que isso possa parecer, essa é a verdade mais bonita e incrível na nossa jornada nesse mundo.
Se eu puder dar uma dica pra quem chegou até aqui, é o seguinte: Aproveite esses momentos de melhora. Se é frustrante saber que você vai voltar pra estaca zero assim que esse momento acabar, quem liga? Comece aquele livro que você SABE que não vai terminar, ou recomece aquele que você nem lembra mais o que aconteceu! Tome aquele banho demorado, saia um pouco de casa, faça uma refeição reforçada... Acostume o seu cérebro com o fato de que há muitas coisas na qual você é capaz porque, mesmo que você não consiga ser constante, mesmo que isso dure poucos dias ou poucas horas, esse lugar de conforto que você criou nesses breves momentos vão estar sempre ali, e eu garanto que eles sempre vão voltar pra você.











