Descontrole arquitetado
rebuscada e torta
Exsudo lexemas feito quem expurga sangue, não por vaidade, mas por ínfima e imperiosa necessidade de purgação. Sangro — porém retenho a lâmina até a derradeira vértice, sangro com premeditação, que cada corte esteja coreografado, ainda que caótico. Não compilo arte — ergo ritos de expurgação com métrica disforme, um clamor engendrado, doloroso, consciente da própria tormenta.
Minhas locuções não imploram aclamações, não almejam proferidas em altares nem púlpitos, simplesmente tombam — pesadas, imersas em melancolia, deploráveis. Descargas. Descuidados. Catástrofes verbais, escritas para mitigar a existência.
Excedo-me, escrevo com rigor clínico o desvario. Cada crise convulsiona no papel, em poses renascentistas, preservando a beleza do caos. A ira veste saltos vertiginosos, o desejo exala fragrâncias de hecatombe e flor. O rancor trafega em companhia de vírgulas. O amor — quando visita — é autocontrole despido, foge, desnorteado, por janelas escancaradas.
Deixo ser. Não escrevo para conservar, escrevo para obliterar, para incinerar, para desinfetar o tecido necrosado da alma.
Isto não é poesia. É a única metodologia que adotei para não morrer em silêncio.
Amanda Lua - On in Instagram @amluua @aliberdadeepraquempensa
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