Sob ordens diretas do comando da ASTRA, declara-se que MADELINE PARAIYAR, natural de LONDRES, atualmente atuando como HISTORIADORA DA ARTE, compromete-se a servir à ARCANUM enquanto permanecer no território sob domínio das BRUXAS. Aos CENTO E VINTE E SETE anos, aparentando TRINTA, jura manter sigilo absoluto e lealdade à liderança que o acolhe. Conhecido por POSSESSIVA e ENXERIDA, mas dotado de AMOROSA e CARIDOSA, desempenha suas funções como CURADORA, sob a confiança que lhe foi concedida.
“Eles pensam que são nossos salvadores, mas não são, nunca foram. Eles te quebraram, minha filha.”
Com essas palavras, Lakshmi destruiu todas as ilusões de Madeline. Por um momento, ela duvidou das palavras da mãe, sem compreender como eles poderiam representar a destruição depois de tê-las dado tudo. Se Lakshmi estava viva, foi graças à bondade deles que a levaram para a Inglaterra, lhe deram um emprego, comida, um teto para morar. E tratavam Madeline como se fosse da família, praticamente a adotaram desde o seu nascimento, a ensinavam a agir e falar como eles, pagavam seus estudos, a presenteavam com os mais belos vestidos, mesmo que fossem descartes de Emma Salisbury, a levavam para tantos e tantos bailes, onde ela era exibida como se fosse uma joia rara e, para a surpresa de Madeline, todos eles a adoravam, a elogiavam, diziam o quão exótica ela era. Claro, seu pai foi um dos mortos em um massacre, mas ainda assim… Ela custava a acredita que sua mãe estava certa.
Tudo fez sentido ao ver a chama bruxuleante surgir na mão de Priya. O coração de Madeline apertou ao não entender aquilo que saía da boca de sua mãe, ao não entender a língua que era sua por direito, ao notar a tristeza, mágoa e raiva no olhar da outra. “Você precisa senti-lo dentro de si, minha filha. Precisa sentir o Fogo, o Raio, o Sol. Precisa abrir espaço para Agni.”, ela disse em inglês enquanto apontava para o coração de Madeline. E assim a mais nova o fez.
Aos quatorze anos, Madeline consagrou-se a Agni, a divindade hindu do fogo. De dia, enquanto ajudava a mãe nas tarefas domésticas, esforçava-se para aparentar ser tão inglesa quanto os Salisbury desejavam. À noite, trancada no quarto apertado onde cresceu, aprendia com dedicação e amor a reconectar-se com o seu lado que permaneceu abafado por tantos anos. Sob o olhar inflexível da mãe, descobriu a dualidade do fogo, desenvolveu a habilidade de manipular o fogo e de se comunicar com outros planos, assim como a dedicar-se a Agni, que a recebeu de braços abertos no seu séquito de servos. Um dos presentes que o deus ofertou foi a longevidade, assim como foi oferecido a sua mãe, uma vez que elas representavam uma centelha do fogo perpétuo.
Muito além da devoção cega, Agni exigia que suas seguidoras representassem a força purificadora do mundo, o que, muitas vezes, significa destruição total. Sempre que se sentiam impelidas pelo poder do deus de destruir as Trevas, Priya e Madeline a incendiavam, seja lá o que a representasse — uma casa, uma pessoa, um objeto —, com a esperança que dali renascesse algo melhor, puro. Como resultado do ritual, sentiam-se totalmente esgotadas física, emocional e magicamente, como se toda a energia vital fosse sugada. Com o passar dos anos, Madeline viu a mãe perder a sanidade depois de se expor tanto ao poder tão vital e primordial quanto ao de Agni a ponto de incendiar-se aos 97 anos, e soube que em breve seu destino seria o mesmo mais cedo ou mais tarde.
Ao mesmo tempo em que se dedicava de corpo e alma a Agni, Madeline seguiu a vocação que foi semeada em seu coração tanto pelos Salisbury quanto por sua mãe: a de ser estudiosa. Desde a infância, tornou-se notável o quão inteligente ela era, por isso que os Salisbury se ofereceram a pagar todos os estudos da menina, que aprendeu inglês, francês, um pouco de grego e de latim, assim como filosofia, matemática e história, sua maior paixão. Aos vinte anos, conseguiu uma bolsa de estudos na Universidade de Londres, onde cursou e especializou-se em História da Arte. (Justamente por isso Madaline nunca nutriu nenhum pouco de rancor pelos Salisbury, mesmo sabendo da mágoa sentida por sua mãe. Não acreditava que eles a salvaram, mas permitiram que ela tivesse um outro propósito, e por isso era grata a eles.)
E quando se é historiadora da arte, uma organização como Arcanum chama a atenção assim como o incêndio em uma floresta. Na época, já era perigoso demais para Madeline permanecer rondando o Reino Unido, logo poderiam desconfiar da sua jovialidade ou pior, associá-la a alguns dos incêndios que aconteciam por lá (o que era praticamente improvável, mas nunca impossível). Chegou em Nova Iorque em 1996, logo após recuperar-se do luto depois da morte da mãe, e logo procurou aquilo que tanto atraía sua atenção e curiosidade.
Ao descobrir quem estava por trás de Arcanum, soube que estava trilhando o caminho certo. Depois de décadas acompanhada apenas pela mãe, finalmente encontrou mais pessoas como ela e, o melhor de tudo, trabalharia com aquilo que mais amava. Claro, precisaria sujar as mãos, mas Madeline já havia vivido o suficiente a ponto de não se importar com aquilo.
Ainda quando era apenas uma Semente, seus supervisores logo notaram que ela sabia o que fazia e dedicava-se para cumprir o que era requisitado. Não demorou muito para subir de cargo, nem para ganhar certo respeito dentro do coven. Há praticamente duas décadas, trabalha como curadora, e está confortável na posição: faz o que precisa ser feito, purifica quando deve purificar, entra em contato com os artefatos mais raros do mundo e segue assim, a espera da insanidade que a consumirá a qualquer instante.
cnns









