Se tinha uma coisa que Enzo detestava, essa coisa eram plantões. Já perdera a conta de quantos cafés tomara e, não bastasse isso, cochilar com as lentes de contato nos olhos garantira o ressacamento destas e um incomodo na vista que foi incapaz de resolver, tendo que apelar para os benditos óculos - o que não seria qualquer problema, não fosse o tom rosa berrante dos mesmos, uma piada de seu irmão mais velho antes de mudar-se de Boston para Nova York. Resignado, partiu para mais uma ronda e, embora normalmente se limita-se a sessão pediátrica pela qual era responsável, o pedido de um colega em pior estado de sono que o seu garantiu que ele cobrisse mais outras duas áreas. O dito cujo não confiava nos novos internos para cuidarem de tudo sozinhos e, bem, Gallagher não o culpava tanto assim.
Por isso entrou de jaleco e tudo ali, o questionamento da garota que veio em voz tão fraca fazendo o sorriso em sua boca surgir pequeno e preocupado, as mãos nos bolsos enquanto sua postura mantinha-se altiva, como lhe era comum. “Hey, there miss… America?” Questionou em busca de confirmação após retirar seu prontuário do pé da cama, do suporte, analisando o caso alheio. “Olha, eu não posso falar pelo resto da equipe, porque eu não conheço todo mundo ainda, mas eu…? Eu sou estupidamente teimoso.” E no sorriso aberto, aproximou-se do suporte de soro através do qual ela recebia sua medicação e como ele caía, a voz soando suave antes de olhá-la. “Eu sou o Dr. Gallagher… E respondendo sua pergunta, depende, você está tendo dificuldades pra dormir ou sentindo muita dor?”
Desde pequena America sofria com sua saúde frágil. Diferente da maioria das crianças a garota quase nunca podia brincar fora de casa, porque quando o fazia sempre acabava pegando um resfriado ou uma inflamação na garganta. Ela tomava os melhores remédios para que de alguma forma seu sistema imunológico fosse fortalecido, mas nada nunca parecia funcionar. Se corria muito ou ficava nervosa tinha fortes crises de asmas, se fizesse isso ou aquilo ficava doente, sempre fora de certa forma privada da vida, presa em hospitais para se assegurar sua saúde. Então quando tudo parecia começar a melhorar as coisas ficaram confusas, a criança já não conseguia fazer coisas simples, era como se dia após dia ela houvesse desaprendido a viver. Encefalite. America não sabe ao certo se era de fato uma memoria ou se era apenas algo que sua mente havia criado. Porém em sua cabeça ela ouvia o choro desesperado de sua mãe quando ela fora diagnosticada com aquilo. Passara tempos internada, inválida, porém ela havia encontrado sua força para viver. E fora assim todas as vezes que caíra doente. Mas daquela vez era diferente, o câncer roubava seus sonhos e a pneumonia o seu fôlego, de uma forma que ela já não podia pensar no amanhã. Meri respirou fundo fitando o médico, prestando atenção no que ele dizia, como estava sempre sob o efeito de muitos remédios era realmente árduo se concentrar em algo.--- As vezes, por mais que não queiramos não podemos lutar contra a morte, ela sempre vai vencer.--- disse num tom calmo por mais que seu coração temesse aquilo.--- vocês não precisam desperdiçar tanto tempo em mim.--- por mais que não quisesse entregar os pontos ela sentia que simplesmente era o momento.--- Vocês são ótimos profissionais.--- completou, sabia que eles davam o sangue dia após dia para vê-la bem.--- É um prazer Dr. Gallagher. Eu não diria que tenho dificuldades, eu só não quero pegar no sono e acho que seus colegas desaprovam a ideia. E quanto a dor, bem, eu sinto todo o tempo. Sei que o remédio está caindo, e bem, não posso dizer que não alivia, mas certamente continuo sentindo muita dor. Principalmente aqui nos braços.--- ela falou tocando os ombros para sinalizar que era ali que doía.--- E no tórax. Sinto muita dor ao respirar e mesmo com as cânulas nasais o tempo todo sinto como se não tivesse muito ar, eu não sei explicar. Não sei se isso vem ao caso mas meu nariz deve ter sangrado umas duas vezes hoje.