Há muito me questiono sobre a inclusão. Mas não são simples devaneios influenciados pela onda gigante de movimentos sobre ser especial e incluir. Vem de observações, de uma prática e de vivências próprias.
Fui uma criança criativa, empolgada, cheia de boas idéias e sonhos surreais para a inesquecível década de 80. Era inquieta, queria dançar, ler, ver filmes/séries/desenhos, brincar... tudo ao mesmo tempo. Isso mesmo, minha cabeça estava alagada pelas tempestades de idéias que eu tinha.
E quem naquela época falava em TDAH? Ah... o mais próximo que chegávamos era dizer que eu tinha um "bicho carpinteiro" dentro de mim.
Eu tirava boas notas, me sobressaía, inclusive, por ser comunicativa, extrovertida e criativa.
Mas já naquela época eu precisava de ajuda, pois com tanta coisa na cabeça e sem ser compreendida da forma correta eu acabava por passar a imagem de menina prodígio que poderia assumir responsabilidades e tarefas próprias dos adultos. Sobrevivi com marcas e lacunas a serem preenchidas.
E me dando ao luxo de pular alguns acontecimentos, agora já falo da mulher que virou fono e por um curto período de tempo se aventurou a ser mediadora escolar. Em uma das mediações que realizei, quem mais me chamou a atenção não foi a criança a qual eu estava mediando, mas um menino que falou algo que nunca mais esqueci. Antes de contar o que ele disse, preciso informar que esse menino era uma das ditas crianças normais, sem nenhum tipo de acometimento.
Me partiu o coração escutar esse menino dizendo "quando eu crescer eu não quero trabalhar, porque se eu trabalhar terei que deixar meus filhos sozinhos em casa e não terei tempo pra eles." Ah... saí da minha função e fui conversar com essa criança. Ele me relatou que os pais saiam pra trabalhar e o deixavam em casa com o irmão mais velho e a empregada. Esse menino era bom aluno, educado, solicito. Não "fazia barulho", não era "especial". Pra que lhe direcionar uma atenção "extra"?
E agora falando em prática clínica: quantas crianças chegaram ao meu consultório munidas de laudos e diagnósticos e, após avaliações e conversas, tudo que se conseguia ver eram crianças sedentas por atenção e carinho? Não tenho um número a te oferecer, tristemente perdi as contas.
Três relatos em diferentes segmentos da minha vida que me levaram aos questionamentos:
quem são os incluídos e quem são os excluídos? Será que estamos dando a devida atenção às crianças? Ou elas precisam para isso ter alguma patologia que justifique as olhar com mais cuidado e atenção?
Para ser especial tem que ser "doente"?
As crianças e adolescentes já perceberam essa necessidade de um diagnóstico para terem a devida atenção e os olhares voltados para elas, ainda que inconscientemente. Acabam por somatizar as características de que necessitam para serem "especiais", pois seus responsáveis irão angustiados atrás de laudos que justifiquem o seu "insucesso" e se nada for constatado ela torna a ser deixada de lado, porque ela é normal e pode dar conta sozinha.
Precisamos repensar nossos olhares e atitudes com relação à infância e aos protagonistas dessa fase tão linda e importante da vida. As crianças estão perdidas, cercadas de manifestos e leis que acolhem apenas àquelas que receberam um papel onde diz que ela precisa de uma atenção especial.
Estamos mesmo no caminho certo para a inclusão ou apenas levantamos uma bandeira que está "na moda"?
Fica aqui a reflexão.
Ah... e quanto a mim? Envelheci sem um diagnóstico, sobrevivi, mas agora a terapêuta tenta "consertar" minhas lacunas.












