shadesofteddy:
O cenho de Teddy enrugou no instante que percebeu a mudança singela no timbre de Aiden ao mesmo tempo que seus lábios se abriram minimamente. Àquela altura que se encontravam, já deveria estar acostumado com as revelações de outras nuances sobre o ex-corvino, mas era justamente naqueles momentos em que via o quanto a pior versão dele continuava registrado em várias curvas do próprio cérebro. Concentrando-se em um núcleo bastante particular, que palpitava naquele instante, deixando-o assombrado. Como acontecera quando recebera pergaminhos em forma de mensagens de textos que os colocaram naquela situação de namorados. Outro ponto que não entrara no organismo e, por isso, suspirou profundamente. Fosse de cansaço que a ressaca causava. Fosse porque havia momentos que perdia completamente a paciência consigo mesmo. Poderia classificar sua situação como de uma profunda negação, mas, intimamente, sabia que não era. Desde que começaram a testar aquele território, o ex-lufano se encontrava mais alerta que o normal, como se aguardasse o instante que Cross mudasse de ideia. Logo, impedindo-o de cumprir sua afirmação de que, para seu próprio ego, sabia ser um ótimo namorado quando lhe era dada a oportunidade. Era um conflito forte, sem dúvidas, e igualmente exaustivo. Afinal, alerta poderia ser confundido precisamente com desconfiança, e Lupin sabia que ingressara naquela linha tênue assim que cedera ao posto que, para seu próprio estresse particular, sequer imaginara que daria trabalho emocional. Não havia cool Teddy que sustentasse a compostura, não é à toa que encheu a cara para se distanciar. Era melhor que partir para o chatão Teddy, inflexível. Dono de uma rigidez que, naquele instante, transparecia no seu olhar em efeito da contra-argumentação do auror. Alterando alguns fios de seu cabelo para um vermelho desbotado. - Mas você tá bravo? - perguntou Edward, em uma imitação distante da voz sonhadora de Scorpius Malfoy. Uma risadinha, que mais parecia um grasnido, lhe escapou, e ele se esforçou para continuar à vontade para não cair em uma discussão besta. - Tem coisas que eu também não consigo adivinhar, Cross. Qualquer pessoa normal acharia que atrapalha o momento de um pai com seu filho, então, parti pela lógica social comum. - ele rebateu, o tom arrastado em uma moleza que se espalhava em todos os músculos. - Se isso não o incomoda, tudo bem. Quando eu estiver minimamente inteiro, levo-o para tomar um sorvete. - concluiu, o grasnido em forma de risada lhe escapando um pouco mais alto. Apesar de ainda se ver chocado com alguns comportamentos do ex-corvino, como o súbito esquentar de ânimos sobre sua ideia de ir embora, não deixava de ser engraçado. Ainda mais quando capturava algum movimento que poderia expressar um nível de insegurança. Poderia ser o caso, não sabia, pois estava sem a menor condição de lê-lo. Mas o timbre da voz foi o suficiente para saber que acertara um nervo sem querer. Desequilíbrio não era a coisa de Cross, tinha noção disso desde o primeiro dia que se reencontraram. - Digamos que estou farto de repetir essa questão do inferno. Você já sabe disso. - ele ponderou, mais para si mesmo, já que era sua afirmação pessoal, e anterior, sobre qualquer coisa que Aiden pudesse fazer ou não. - É divertido vê-lo tatear, porque você fica meio confuso. Agora, se comentar sobre ir embora por conta do seu espaço pessoal com Jamie criou uma fissura na porta que você costuma ser, só posso imaginar que te jurei de morte ou transformá-lo em um lobisomem, ou algo assim, enquanto enchia a cara. - independentemente de qualquer pessoa, o fato de se tornar lobisomem era um medo pessoal de todas as pessoas do mundo bruxo. Ninguém queria a mancha sanguínea da licantropia. Não apenas porque, em seguida, era afirmado a exclusão da sociedade, mas também porque era um trabalho do caralho. Óbvio que ele não saía ameaçando todo mundo com aquele discurso, mas mencionar costumava ser o suficiente para qualquer um ficar mais esperto do seu lado. Não era o esperado com Cross, mas, considerando que bebera tudo que viu pela frente, perdendo sua ordem mental, por sorte em dias muito distantes da Lua Cheia, não duvidava que soltara tal argumento que considerava absurdamente grave. - Eu nem teria as informações extras, a não ser que elas queiram vir até mim quando eu voltar a ter um mínimo de consciência decente. A única coisa que me lembro com clareza, a propósito, é o lance da posse. Deve ser porque achei isso no mínimo engraçado, pois não faz o menor sentido. - ele voltou a rir, preguiçosamente. Cobriu a boca brevemente, porque, às vezes, ele se irritava com sua risada de cachorro. O som esmoreceu em seguida, diante da menção sobre as feridas profundas. O ex-lufano sugou o ar, meio resignado, porque não era um ponto novo sobre ele mesmo. Também não acarretava memórias bloqueadas, pois estava aí algo que acontecera meses atrás. Quando ele e Cross ficaram frente a frente depois do que pareceu séculos. Colocando-o em uma situação de constante desconforto e ranço todas as vezes que ele aparecia e se esticava nos mesmos espaços em que se encontrava. Uma espécie de provação que tensionava sempre o ar, como sentiu tensionar ao ponto de conseguir se virar sem ser abordado por uma zonzeira. Daquele novo ângulo era capaz de ter noção completa da presença do ex-corvino e também costumava ser chocante vê-lo sem as roupas de exame de fezes. Era como se ele tivesse um irmão gêmeo, ou algo parecido, afinando mais os nervos que continuavam a trabalhar dedicadamente para expeli-lo em um falso senso de proteção. Fora do âmbito emocional, Aiden não provocava nada preocupante. Somente os choques contínuos sobre comportamentos que não esperava. Não teve tempo para refletir sobre a pergunta seguinte, pois seus neurônios pareciam ter ido para os braços de Helga. Mas, quando os olhares se encontraram, Edward se sentiu minimamente relaxado. Era sinal de que, realmente, não queria escalar conflito. Não mais ao que já deveria ter escalado e escaldado na festa de Alice. - É muito cedo para falar sobre certezas, especialmente quando me dei conta, oficialmente, de que você é um problema para mim. Você move partes que ainda estão machucadas e isso ativa minha dualidade, sobre ok, eu posso tornar isso o mais aprazível possível até se assentar, sem grandes conflitos, porque é assim em praticamente todo início de relacionamento. Um início em que as pessoas só sabem que querem estar juntas. Quando elas ficam juntas, a história muda completamente, porque acaba a fase de lua de mel. Você fica mais próximo, assuntos incabados retornam, para alguns isso se chama trauma, e assim por diante. É quando se vê que determinados comportamentos, ou a falta deles, vêm de algo muito além da pessoa que está com você. E só se manifestam uma vez dentro da situação dita atípica. O meu caso com você. Por isso, fui tomado por paranoia e inseguranças… Há outra parte de mim que ainda carrega um cimento de rancor, que se ativa só a menor lembrança do pior da sua pessoa. E me avisa que estou em um problema sério e que não é seguro estar com você. Essa é a primeira vez que sinto isso e sequer sabia que me sentiria, pois, diante dos meus relacionamentos passados, nada disso reverberou. No entanto, a razão é simples: eu não tinha impasses anteriores com nenhum deles. Não como o nosso. - era engraçado pensar que nem tinha problemas sequer com Duncan, a quem revirou os olhos, porque só de lembrar o próprio papelão tinha vontade de se dar um soco. - Você continuará ressaltando o que me faz mal, querendo ou não, Cross. Em contrapartida, eu já tenho seus esclarecimentos e acredito neles. Essa ferida é minha. Ainda está aberta. Porém, eu a vejo agora e preciso tomar responsabilidade. Ou não conseguiremos ir adiante. Bizarro que parece situação de o primeiro amor da minha vida, mas isso coube a outro garoto em Hogwarts. Só que você foi o mais próximo de marco romântico na minha cabeça e adolescentes são emocionados demais. Comi Lupin, isso justifica muito o fato do quanto tolerei você aparecer bêbado, porque, no fundo, eu queria estar com você e queria que você me percebesse sem o álcool. - ele se calou por um momento, pois sentiu aquela ferida arder. Fitou as mãos, antes de esfregá-las uma na outra para aplacar o efeito negativo daquelas memórias. Mas bastou uma onda de incômodo para afrouxar sua língua e revelar o que ao menos sabia que Cross nunca ouvira. - Eu esperei. Te esperei no caso. Todo dia nascia a esperança da possibilidade de ficarmos juntos sem você estar alcoolizado e nunca acontecia. A princípio, ceder era uma questão de afeto. Eu queria aquilo. Até se tornar tortura. Uma meditação de que, em algum momento, você me notaria. - ele era capaz de ver seu eu adolescente empolgado transitando para uma enorme confusão sobre estar sendo usado ou não. Uma imagem que pulsou aquele núcleo mental. Deixando-o meio chateado. - Até quando se tornou frustrante e começou a machucar sem eu saber que machucava tanto. Até que um dia de pá virada me fez ir embora e o resto eu já te informei. Talvez, ver isso acontecer agora perturbou meu juízo, porque foi dar palpabilidade ao que um eu tão distante um dia quis. Mas sou o adulto que carregou a ferida e foi confuso entender que a espera de certo modo ainda existia e cessou quando você chegou na festa. - e parecia o único frame nítido daquela noite, que o descambou rumo ao álcool. Suspirou, realinhando seu raciocínio. Sabia que se sentiria estúpido com delay. - O tempo distrai, mas o corpo tem memória. O corpo sente e sou, feliz ou infelizmente, mais conectado com meu corpo que com a minha mente. É onde sinto tudo. - e dizer aquilo, sem saber se era pela milésima vez ou uma espécie de ineditismo, fez Teddy sentir os poros da sua pele dilatando. Aiden sempre soube entrar embaixo da sua pele, tirando-o do cerne por qualquer motivo. - É quando em circunstâncias assim não importa muito o que você passava na época, porque se tem uma coisa que é verdade é: uma pessoa nunca vai se esquecer como você a fez se sentir e você me fez sentir que era apenas um estepe de algo que eu não via. - ele prosseguiu, deslizando as mãos tranquilamente em cada braço. O efeito calmante devolveu a tonalização natural de seu cabelo e apaziguou um pouco a agitação no seu sistema nervoso. - Portanto, sim, há conflito. É quando preciso racicionar o dobro para lembrar que você não é aquela pessoa, mas é apenas o início. Eu desempacotei o presente e não sei ainda como estar na companhia dele. Eu não imaginei que isso aconteceria, mas, como disse, a parte rancorosa de mim ainda se recorda de como fui tratado e, desde então, vivo em alerta. Beber, acho, foi para tirar o alerta e tentar agir normalmente, mas fui longe demais. - e uma careta pontuou sua face cansada e, intimamente, ele agradeceu por não ter sido porre de tequila. - Não sei se você vai entender o que digo, pelos seus motivos com relacionamento, mas estou tentando ser o mais didático possível. Sei que você é sistemático, já quer o bolo pronto, mas, ao menos nessa categoria da vida, o bolo nunca vai ficar pronto. Ao menos, é o que tenho de lição para mim, pois se sua expectativa é ter o bolo para ficar em paz em seguida, bom, tenho péssimas notícias. E não me refiro somente ao fato de que me sinto confuso, como se você estivesse invadindo meu espaço de novo para me botar para baixo. É uma das praxes e o bolo pronto é apenas aquele breve extasiamento. Que lembra que as coisas estão ok de novo. Depois, se volta para a massa. - Teddy se moveu, porque parecia que seu corpo inteiro queria assassiná-lo de tanta falta de sustento da parte dos seus ossos. Era mais fácil jurar que estava na Lua Cheia em vez de uma fase pós-porre. - Saber que você se interessa pela ideia de se relacionar comigo é aquele tipo de validação que vou precisar. - ele não mentiria sobre aquilo, não quando, realmente, o lado ferido queria vencer. Não era meta e seu secreto inconformismo se expressou na forma como meneou a cabeça de um lado para o outro. - Porque me situa no mesmo lugar que você e sou teimoso, então, vou querer ficar até que um limite seja atingido, e isso está longe de ser uma praga. Relacionamentos fluem de jeitos esquisitos e desavisados. Hoje estamos aqui, conversando sobre um drama pós-festa, amanhã pode aparecer um ex querendo me seduzir, pois sou muito desejado. - rir foi inevitável, pois o raciocínio era o mesmo de conseguir um emprego e depois aparecer outros dez, simplesmente do nada, para a pessoa se sentir arrependida e culpada por uma suposta breve crise de desespero. Não queria dizer que se sentia relaxado e continuou a esfregar as mãos nos braços. Olhou-o atentamente e uma sobrancelha se arqueou sob o pretexto de expressar que sentia certa graça. - De qualquer modo, ainda mais porque agora penso em bolo para celebrar essa sua saída do personagem, fodendo meu juízo, escuta: eu também quero que dê certo. Não pelos motivos errados, que seria provar que sou capaz de te aguentar, de alcançar um nível superior que possa dar a breve sensação de que reverti uma situação do passado, mas porque todas as suas metas ditadas neste instante são recíprocas. Eu te curto pra cacete e mesmo dizendo isso não posso garantir o que vale a pena, porque, convenhamos, estamos no início disso. Você também pode cair no redemoinho de se perguntar se vale a pena. Como disse, fim da lua de mel. - ele anuiu, poupando-se de uma nova risada que o fez fechar os olhos por um momento e se arrepender pela escuridão que o engolfou em uma nova zonzeira. - Eu só quero viver isso como tem que ser. Essa é minha maldição, porque posso me acabar no processo. Mas tudo bem. Vou ter que resolver meus problemas sobre o passado. A bebedeira trouxe luz e eu não sou mais a Halsey. Embora eu sinta falta do meu cabelo azul. - tinha noção de que Aiden não entenderia a menção de uma cantora trouxa e nem muito menos suas fases de cabelos coloridos, além do azul que se tornara sua marca registrada. - Mas posso honrar os velhos dias de Halsey ao ir nessa posse com você. Como te disse, sou namorado material. Se tudo der errado entre nós, vou empreender nesse meu ponto forte para acompanhar gays carentes. - o tom assombrado e debochado na afirmação lhe arrancaram um novo revirar de olhos. No instante que percebeu a tentativa funesta de Aiden em tocá-lo, se aproveitou dos sentidos sempre exacerbados, adiantando-se em segurar a mão dele com extrema agilidade. - Para uma porta, você está ficando frouxa. E quero ficar até todos os trincos quebrarem para ter história para contar. Como Edward Lupin realmente derrubou todos os dentes de Aiden Cross. - ditou como se lesse una manchete. Sorriu, preguiçoso, indicando que estava prestes a um desmaio em função do seu estado de calamidade. - Espero que você esteja pronto para vários dias no Profeta Diário por ser um grande boiola que está com o boiola do Lupin que não continuará com o legado da família. Felizmente, temos o Patrick, conto com ele para isso. Mas saiba que o fato de eu ir é muita coisa, porque não suporto exposição. Pronto para meses de questionamentos de Harry Potter.- ele apertou a mão contra a do ex-corvino, percebendo que ainda era capaz de sentir algo de positivo sobre estar naquela relação. Era um sinal bom, com emoções afáveis lhe arrancando um suspiro mais sossegado. Um contraste, muito do bem-vindo, que aquietava o adolescente birrento de cabelo azul. - Aliás, essa posse, acho que não te dei os parabéns ou dei? Tirando todos os episódios de ódio com sua figura ministerial, constantemente invadindo a minha casa, isso é bem daora. Usarei meu melhor look de professor, sem pinta de descuidado. - o shade no próprio pai era uma piada interna, fazendo-o rir sempre com culpa. Afinal, entendia muito da vida do falecido, não somente por ser lobisomem, mas também por nunca ter sido uma primeira escolha. Piorava quando crescera entre outros herdeiros de guerra e não houvera nada a se fazer a não ser se afastar para construir a própria personalidade e identidade. - Agora, vou pedir um bolo, porque acho que estou falecendo com a falta de açúcar no sangue. Se você quiser dividir comigo, vai ficar querendo. - lentamente, Teddy soltou a mão de Aiden e se levantou. Percebeu que estava em situação de barril, mas não desistiria do seu propósito de comer um doce. - Aliás, por Merlin, por que diabos você tem uma elfa doméstica? Isso aqui, por um acaso, é cativeiro de purista? Porque se for, sinto muito, sou alternativo demais pra isso.
Existia um singelo conforto no ato de ter sua mão envolvida pela de Edward. Gesto simples, nada impactante, mas que naquele instante em que o ex-lufano discorria sobre as minúcias de se estar em um relacionamento trazia uma tranquilidade inesperada a Cross. Não que estivesse ainda excessivamente tenso. Se pudesse mensurar com exatidão suas emoções admitiria que estava muito mais consternado em perceber a extensão dos danos que causara anos antes. Vez ou outra, especialmente após Lupin retornar a sua convivência, se pegava refletindo sobre as nuances de um passado que por tempo demais esforçara-se para esquecer. As lembranças que envolviam Lupin eram sempre turvas, caóticas, imagens retidas em uma mente que constantemente encontrava-se encorajada pelo álcool. A época não tinha a compreensão da própria sexualidade que possuía na atualidade. Vindo de uma família tradicional até o último vestígio de mofo nas paredes descascadas Aiden crescera com a ideia de que se envolver com alguém do mesmo sexo não era correto e nem socialmente aceitável. Assim perceber-se sexualmente atraído pelo colega de quarto de cabelos azuis envolvera semanas e semanas de negação própria até que tomasse coragem através do álcool. E cada vez que o álcool entrava em seu sistema odiava-se um pouco mais por assimilar-se a figura de seu genitor e por sentir-se como um maldito covarde. Nunca considerara que usava Edward, afinal tinha consciência mesmo àquela época que não era apenas sexo que o movia para o álcool na sana de poder estar com o mais novo. Em algumas ocasiões nem estivera assim tão bêbado, especialmente quando a noite começava a transformar-se em dia e migrava para a própria cama mesmo que todo seu corpo pedisse para que não se movesse. Embora tivesse desculpas plausíveis para seu comportamento era óbvio que não o considerava facilmente perdoável e era por tal motivo que compreendia a mágoa de Lupin. Compreendia o porquê dele ter mudado de quarto sem uma palavra ser trocada entre ambos, era válido, assim como seria válido se tivesse o insight que insistir em um relacionamento com alguém que o ferira tão profundamente era um erro. Aiden engoliu em seco. A mão direita migrou para a nuca que apertou sem qualquer gentileza no mais incomodo de seus pontos de tensão. Toda aquela conversa o fazia ir e voltar no tempo acessando partes de si mesmo que sequer sabia que existiam. Como alguém totalmente inapto em relacionamentos realmente não entendia das nuances, dos altos e baixos, ainda que soubesse que nada era perfeito uma vez que relações interpessoais sempre tenderiam ao desacordo em um momento ou outro. Contudo, ainda mais consciente do quão mal fizera ao mais jovem no passado, se tornaria ainda mais cuidadoso para não repetir a dose. Se haviam duas coisas que poderiam se afirmar sobre Aiden Cross era que aprendia rápido e jamais cometia o mesmo erro. Obviamente erraria em outros campos, como qualquer outro ser humano, ao menos esperava que nada que pudesse fazer fosse mais grave do que a falha do passado que, aparentemente, seria sempre um peso em sua consciência. Norte de pensamento que inconscientemente o fez sutilmente intensificar o aperto de sua mão contra a de Lupin, como se pudesse garantir que não escaparia outra vez por entre seus dedos. - “Eu te curto pra cacete” é provavelmente a frase mais hétero top - o cenho franzido que fazia com que suas sobrancelhas se encontrassem tornava sua expressão até então consternada em quase divertida. Sentia-se fora de lugar usando o termo hétero top como se estivesse muito a parte da comunidade lgbt quando vira e mexe transitava por entre nos recantos do mundo trouxa. Além do que, para o próprio Lupin ele era um legítimo hétero top. - que já ouvi sair da sua boca. Fico satisfeito em saber. Infla o meu já enorme ego. E agora você já pode me mandar para o inferno. - concluiu com um sorriso singelo marcando o canto de seus lábios. Aiden mantinha a polidez na voz, mas dessa vez carregada de um sutil humor que infelizmente ainda não o havia contagiado por inteiro. - Contudo devo dizer que, do meu ponto de vista, já me manda para o inferno sempre que tenho a impressão de que sou uma divertida piada interna. O ego corvino é frágil. - murmurou com uma ligeira piscadela que deixava claro que não falava realmente sério. Aiden estava acostumado àquela dinâmica entre ambos, por vezes tinha dificuldade em compreender Edward e o mundo dele e em outra era quem surpreendia o ex-lufano por não ser tão rígido quanto imaginavam. - Esclarecendo, mesmo consciente da não seriedade na pergunta, não estou bravo. Não estive durante a festa. Não estou agora. E nem a respeito de Jamie. Ainda não sou o mais hábil em nomear minhas emoções quando sempre foi muito mais fácil ignorá-las, mas, nesse caso posso dizer que estive consternado. Não só pela ideia de que poderíamos seguir caminhos diferentes a partir desse ponto, mas, especialmente pelo receio de que tivéssemos chegado até aqui pelos motivos errados. - pontuou, mantendo o olhar firme, e mais tranquilo do que esperava, nos dele. Ouvi-lo trouxera à tona detalhes que não poderia ter de outra maneira. Dava a toda questão uma nova perspectiva. - Meu conhecimento nesse campo é limitado. Não faço ideia exatamente do que estamos fazendo e para alguém metódico e sistemático não ter a percepção completa do com que está lidando é frustrante, irritante. Algo que precisarei aprender a lidar. - e que seria seu inferno pessoal de certa maneira. Não que tivesse intenções de controlar o mais novo, longe disso, mas tatear no escuro não era algo que apreciava, ainda mais quando estava tão propenso a topar nas paredes. - Entendo que precisará de seu próprio tempo para compreender como se sente sempre que essa ferida aberta arder, mas, se possível, gostaria que pudesse me apontar essas ocasiões. Conhecendo-o logo menos terei percepção sem que diga uma palavra, porém verbalizar esclarece os pontos que são um mistério para quem ainda não possui grandes habilidades dentro de um relacionamento. - e em momentos como aquele se via se questionando se era material para aquele tipo de relação. Estava totalmente seguro que queria estar em um relacionamento com Edward Lupin, mas a insegurança, que ainda não nomeara corretamente, fazia surgir no fundo de sua mente a dúvida se o mais jovem não merecia alguém melhor, alguém que não tivesse deixado marcas tão profundas. - O receio era que estivesse insistindo para no fundo provar um ponto para si mesmo, mas se tem certeza que não é esse o caso, tudo bem. Acredito em você. Facilmente. Edward você me tem na palma da mão. Os trincos já estão frouxos o suficiente, por favor, pare de estraçalhar com minha reputação de uma porta emocional e um completo intransigente. - murmurou com um breve menear de cabeça para corroborar seu ponto antes de revirar os olhos tamanha era sua exasperação por realmente estar nas mãos do mais novo. Estar tão emocionalmente envolvido por outra pessoa ainda era uma novidade para Cross e por vezes se pegava se questionando como podia ser real quando sempre tomara excessivo cuidado para não permitir que pessoas se aproximassem demais. Cuidado que nada mais era que uma defensiva de quem crescera em um lar disfuncional e abusivo e por muito tempo não conseguira enxergar propósito algum em dividir partes de si com outro alguém. Pensamento do qual distanciou-se ao ouvi-lo mais uma vez. Uma risada abafada lhe escapou diante do comentário sobre Dipsy. - Agora que descobriu meu segredo serei obrigado a trancafiá-lo no porão. - encolheu de ombros como quem se desculpava mantendo no rosto o semblante de seriedade por alguns instantes, entretanto seu olhar carregava divertimento. - Dipsy era escrava dos Cross. Foi o mais próximo de companhia saudável que tive durante minha infância e parte da adolescência. Quando entrei para os aurores e consegui alugar minha primeira casa voltei a dos meus genitores, no que esperava que fosse uma última vez, para libertá-la. - contou recordando-se que tal fato ocorrera alguns meses após seu envolvimento com Edward, provavelmente o momento de sua vida onde esteve mais próximo do caos próprio. - A ideia era que ela estivesse liberta e seguisse com a própria vida, eu ajudaria até ela arrumar um emprego. Mas ela quis ficar comigo. Ela é mais dona dessa casa que eu, aliás. - disse com um breve sorriso moldando o canto de seus lábios. Dipsy passava muito mais tempo entre aquelas paredes do que ele e entendia muito mais sobre as necessidades da casa. - Mas tenho a impressão de que logo menos perderei minha roommate de longa data. Ao que parece ela está em um relacionamento, e está em um encontro nesse exato momento. - informou com certa preocupação porque de certa maneira enxergava a elfa como uma de suas protegidas. - Sorte sua porque ela tinha todo um discurso pronto sobre excesso de bebidas, que usou comigo algumas vezes, e que mesmo mal o conhecendo usaria como boas vindas. - riu de maneira abafada ao imaginar a cena. Riso que silenciou ao pressionar o indicador e o dedo médio nos lábios. - Não há nada que necessite de parabenizações, mas agradeço. Como disse, não precisa ir se não estiver a vontade com a ideia. De qualquer maneira seu padrinho também será empossado e algumas outras pessoas do seu círculo de conhecidos, se preferir pode agir como um convidado deles e não meu. - sugeriu embora no fundo não apreciasse a ideia. Sequer gostava da ideia daquela cerimônia que chamaria atenção desnecessária e colocaria gente demais em exposição. - Mas caso decida ir como meu acompanhante - disse, levantando-se da cama com menos dificuldade e sem necessidade do uso da bengala, mas ainda sentindo a fisgada fina que parecia atravessar toda sua coxa. Suspirou, resignado. - não me importo em virar manchete por este motivo. Mas confesso que aturar perguntas de Harry Potter é algo que dispenso e deixo totalmente por sua conta. - brincou lançando uma piscadela em direção a ele no momento em que se posicionou diretamente a sua frente. - Ó mo Dhia! Me preocupa se o futuro dos Lupin depender de Patrick. - um risinho contrafeito lhe escapou ao recordar do que sabia sobre a vida amorosa do outro em seu período no UK. Não que tivesse interesse na vida de Dickinson, mas a pessoa com quem se relacionara entrava em sua lista de protegidos. - Se ele não repetir os erros da última vez a linhagem talvez esteja salva. Caso contrário, sinto muito. - arqueou as sobrancelhas em um trejeito arteiro de quem sabia mais do que deveria. - Aye. Agora que expressou, creio que faça sentido que sinta falta do azul embora não faça ideia de quem seja Halsey. Quando você dorme acredito que não tenha controle sobre a metamorfomagia, então é comum que seus cabelos mudem de cor repetidamente, mas quase sempre predominantemente em um tom claro de azul. Acredito muito que depende do que sonha. É intrigante e sempre me deixa curioso. - deu de ombros porque era algo que fugia de sua compreensão embora tivesse refletido a respeito em suas muitas noites insones. - Muito bem, Halsey, não sei se você ainda está fora da realidade, mas já passa da uma da manhã e nenhum estabelecimento fará entrega nesse fim de mundo. Como você parece um homem de sorte sempre há bolo quando Jamie vem passar dias aqui. Hoje mesmo fizemos um brownie e modéstia à parte ficou excelente. - informou sem nenhuma modéstia e muito seguro de si como costumava ser em áreas que dominava. Por ter morado sozinho por algum tempo aprender a cozinhar fora uma questão de sobrevivência. - Longe de mim fazê-lo desfalecer por falta de açúcar e excesso de DR, ainda mais quando prometi a Andrômeda que o devolveria novo em folha. - meneou a cabeça brevemente para corroborar o que dizia. Sua relação com a avó de Lupin era bastante cordial, amistosa, e realmente se comprometera com ela em mantê-lo seguro. Diante do mais novo, e com o olhar preso ao dele, havia um breve ar de divertimento moldando a face de Aiden. - Caso não tenha ficado translúcido - disse com um leve arquear de sobrancelhas que apenas deixava sua expressão ainda mais relaxada. - Eu também te curto pra cacete. - concluiu, pressionando o queixo dele brevemente entre seu polegar e indicador para que pudesse puxá-lo em sua direção em um rápido selar de lábios antes de guiá-lo em direção a espaçosa e bem abastecida cozinha.











