- Ah, vai dizer que não sou uma namoradinha muito preciosa? Sempre muito disposta em poupar sua energia, para o nosso divertimento, mas, com a consciência de que é necessário mantê-la bem alimentada. De todas as maneiras possíveis, a propósito. – um sorriso charmoso curvou os cantos dos lábios de uma Charlie que se sentia muito à vontade em bancar a engraçadinha, até mesmo na utilização de uma definição que anteriormente jamais daria a relação das duas. Embora nunca tivessem de fato nomeado o que tinham, lhe parecia muito correto considerar as coisas daquela forma. – Homens possuem um talento nato de falhar no único propósito que dispensamos aos mesmos, sorte nossa que não precisamos realmente de incentivos masculinos para deixar a noite interessante. – brincou, subindo e descendo as sobrancelhas em um gesto sapeca. – Bom, fico aliviada em saber que minha lingerie está muito bem guardada. Mais aliviada ainda em saber que a senhorita não a emprestou a ninguém, caso contrário, eu teria que cometer um crime de ódio em nome de minha possessividade discreta. – piscou, charmosamente, brincando com uma verdade que era muito mascarada de sua parte. Charlie era realmente muito apegada as pessoas mais próximas de si, e embora nunca tivesse demonstrado tal faceta, a convivência naquele relacionamento com Olivia tornava certos aspectos mais pronunciados. Vinha se descobrindo ciumenta, mas nada que pudesse considerar como não saudável. E era um dos motivos pelo qual se esforçava para respeitar o espaço da mais velha, a individualidade dela, evitando o máximo possível fazer cobranças que ela mesma não gostaria de receber. Aquela era uma das vantagens de ser filha do ar. Era excelente apaziguadora, embora soubesse muito bem como sustentar seus argumentos uma vez que se encontrava em um viés de discussão. Principalmente quando acreditava no que, ou quem, defendia. Norte de pensamento do qual se distanciou ao liberar um suspiro baixo, em reflexo da eletricidade que sentia perpassar seu corpo, como uma resposta natural a sensação dos lábios de Olivia em sua nuca. Um gesto que parecia o suficiente para deixá-la ainda mais ligada a ex-corvina. Tanto que mal reparara no movimento dela em guardar o material de trabalho. A jovem apoiou a cabeça no encosto do sofá e colocou as mãos cruzadas sobre seu estômago. Embora não sentisse qualquer resquício de constrangimento em ter introduzido aquela possibilidade de ambas morarem juntas, começava a sentir um ligeiro nervosismo. Sensação essa que se justificava no fato que, embora não tivesse anteriormente ponderado exaustivamente àquele respeito, a ideia caíra-lhe como uma maldita luva. Querer dar aquele passo à frente na relação de ambas dizia o bastante sobre como se sentia em relação a Popovich, e o quanto se distanciava ainda mais de uma versão sua que parecia realmente morar no passado. Para um alguém que prezara desde cedo em ter o próprio espaço, sem qualquer intromissão familiar, era uma mudança gigantesca a de voluntariamente se propor a querer viver com uma outra pessoa. Era uma demonstração um tanto crua de como suas prioridades alteraram-se com o decorrer dos anos e, em como mesmo que não tivesse prestado a devida atenção, Olivia vencera barreiras que se impusera desde a adolescência. A ex-lufana sempre soubera que possuía propensão a se doar demais para o outro, como fizera por Nicholas durante anos, e era por tal motivo que se segurava o máximo possível. Com Olivia agira de tal forma logo no início, quando parecia prever que se cedesse a atração imensa que sentia por ela entraria em um caminho sem volta. Tentara se afastar inúmeras vezes, e quando percebera que o sentimento era muito maior que sua força de vontade, apenas se aproveitara do fato de que não possuíam amarras. Agora, era tudo muito diferente. Mudança que começara a se construir na conversa esclarecedora que tiveram em seu apartamento, onde acreditava que as últimas máscaras de Popovich haviam sido despidas. Assim como as suas. Embora não possuísse verdades estarrecedoras escondidas embaixo do tapete, fora ali, ao experimentar a sensação de perdê-la, que tornara-se realmente consciente da intensidade do que sentia. Tal consciência a levara a uma repetição de padrão que beirava a infantilidade, mas que era a única forma que, até então, conhecia para lidar com um coração partido. No entanto, reaproximar-se trouxera novas perspectivas, e abrira espaço para aquela parte de si que sempre escolhera conter. Pela primeira vez realmente queria compartilhar cada mínimo aspecto de sua vida com alguém. Já fazia bastante tempo que sabia que estava apaixonada por Olivia Popovich, mas fora somente nos últimos meses que entendera que era muito mais que uma paixão física. Era o tal do amor romântico e piegas que faria Nicholas rir, daquela maneira que odiava, até passar mal. E era esse mesmo sentimento que alimentava a ansiedade por uma resposta. Tyler moveu-se sobre o pequeno sofá, abrindo espaço para a mais velha. Mudou de posição, sentando-se sobre as pernas longas ao colocar-se de lado. Manteve-se em silêncio enquanto a ouvia esmiuçar os seus prós e contras a ideia de viverem juntas, e compreendia boa parte dos argumentos. Nada que a chateasse porque acreditava que conhecia o bastante de Popovich para entender de onde vinham seus receios. Ao contrário de Tyler, que fora criada cercada por todo o tipo de suporte, ao menos até que saísse do armário, Popovich sempre fora a única por si mesma. Independência e força pareciam suas principais características. Algo que admirava bastante, embora nunca tivesse tecido comentários a respeito. A ex-lufana pendeu ligeiramente a cabeça para o lado, para fitá-la melhor. – Bom, vamos por partes. – disse, com a habitual suavidade marcando o seu timbre, dando a ideia de que estava calma, quando não o estava. – Não me parece muito cedo para isso, mas talvez pudesse parecer pra você. Ainda que eu acredite, e sinta, que temos uma excelente sintonia, não sei, talvez o seu tempo para dar determinados passos seja diferente do meu. – continuou, naquele mesmo ritmo calmo, enquanto acompanhava os movimentos do polegar dela no dorso de sua mão. Movimento suave que, de certa forma, realmente a acalmava. Senti-la causava sempre uma espécie estranha de alivio. – Graças a deusa eu sei que não faz parte da sua personalidade dizer qualquer coisa apenas para agradar os outros, eu realmente prezo por sermos honestas, especialmente nesse ponto. – meneou a cabeça de um lado para o outro, corroborando o que dizia. Em seguida, voltou a encarar a mais velha. Olivia era sempre muito segura, firme, mas, ali, parecia ter encontrado uma brecha interessante a se explorar. – Tempos atrás eu disse a você que teria que viver em uma caverna se não quisesse me machucar, acredito que valha tanto figurativa quanto literalmente. E, duh, bae, esse pensamento vale para esse momento também. Não é uma novidade pra mim ter um alvo na minha testa, e acho que já provei algumas vezes que consigo me defender muito bem. Essa expressão de brisada que carrego é apenas uma forma de fazer com que os possíveis algozes me subestimem demais. – brincou, como uma maneira de amenizar o clima, embora quisesse manter seriedade ao que dizia. – Olivia, eu não sei se você percebeu, mas eu já pulei desse muro, no qual nós duas nos equilibrávamos, faz um tempo. Você, meu bem, está com as pernas penduradas para o lado em que eu te espero no chão. Eu sei que você tem uma mente que te impulsiona a pensar em todos os cenários catastróficos possíveis, que a impulsiona a ser mais racional que emocional, mas há certos aspectos da vida que simplesmente não há uma forma de prever. E nós não podemos nos privar de viver só porque não sabemos qual será o desdobramento seguinte. – enquanto falava, a ex-lufana correspondia ao aperto da mais velha em sua mão, com a intenção de dar a ela o conforto que parecia buscar. Norteada por tal pensamento, curvou-se um tantinho para baixo, para que pudesse depositar um beijo suave no dorso da mão dela. Ao liberá-la daquele contato Tyler estendeu a mão em direção ao rosto dela e deslizou a ponta do indicador pela pele suave de sua maçã. Parou no exato ponto onde sabia que uma covinha surgia sempre que ela sorria, um de seus detalhes favoritos a respeito da ex-corvina. Novamente, apenas a ouviu ditar o que tinha em mente, pescando sinais de insegurança que jamais vira na mais velha em qualquer outra oportunidade. Era estranho como parecia que naquele ponto trocavam de papéis porque se sentia bastante segura em dar prosseguimento àquela ideia, mas, claramente, sem intentar pressionar a ex-corvina. Algo que realmente acreditava que não era possível. – Eu não tenho muita experiência em relacionamentos, ao menos, não no víeis de sentimento recíproco … – riu-se, baixinho, com os seus famigerados ronquinhos, ao se utilizar das palavras anteriormente proferidas pela mais velha. - … mas acredito que sentir o receio de estragar tudo é um tanto natural. Eu também tenho. Nem sempre vou acertar com relação a você, a nós, e penso que o mesmo se aplicará a você. O que podemos fazer é apelar para a honestidade no diálogo, e tentar resolver qualquer que seja a situação antes de irmos pra cama. – encolheu os ombros, como quem se desculpava, porque naquele ponto realmente não possuía experiência o suficiente para cravar qualquer opinião. O que sabia, dentro da vivência de ambas, era que ser honesta havia facilitado imensamente a relação. – Não é muito justo usar nossa primeira experiência como roommates como exemplo. Nós não nos conhecíamos, e eu achava que estava fazendo um favor para a peguete fave do mala do meu irmão. – revirou os olhos, exasperada, só de recordar que chegara a acreditar que Jamie podia ser filho de Jonathan. Voltou a respirar fundo. – Quanto a Jamie, poxa, eu o amo como se fosse meu filho. Você e Mr. Ranzinza estão sempre soterrados de trabalho, ele super me adora, e cuidar dele não é um problema pra mim. Seria bastante funcional, inclusive. – disse, com honestidade, e em seguida deu de ombros. Para a ex-lufana fora muito fácil se apegar a Jamie, parecia que simplesmente havia transferido todo o afeto que não pudera dar a uma criança sua, para aquele garoto. Sempre que se distanciava de Olivia sofria em dobro pela ausência dele. Algo que chegara a comentar com a ex-corvina. Distraída por aquele viés de pensamento, demorou até a ex-lufana notar que Popovich havia se levantado, e, quando o fez, apenas observou a movimentação dela pelo ambiente, em silêncio, enquanto reorganizava seus próprios pensamentos. Havia muito mais que gostaria de dizer, mas, ainda era um tanto complicado colocar em palavras como se sentia. Levantou-se, e caminhou em direção ao balcão da cozinha, de onde tirou o arame enrolado em plástico que fechava a sacola com doces que trouxera junto a pizza. Era uma artista, e seu talento não se dava apenas com os pincéis, mas para transformar, literalmente, qualquer coisa em algo que poderia ser usado no dia-a-dia. Sua mente e mãos trabalhavam de forma harmônica e rápida, e uma vez que tinha o que queria, caminhou em direção a mais velha. Posicionou-se atrás dela, e a abraçou, utilizando-se da diferença de altura entre ambas para curvar-se um pouquinho para apoiar o queixo no ombro dela. Com suavidade depositou um beijo tenro na curva de seu pescoço, deixando-se inebriar pelo cheiro que desprendia daquela pele por alguns instantes. – Eu prometo que pararemos com sentimentalismos antes que dê pane no seu sistema operacional… – novamente se utilizava de uma pitada de humor para amenizar o clima. - … mas preciso dizer mais umas coisinhas, então aguente mais um instantinho. – disse, e em seguida beijou o exato ponto em que sabia que uma veia pulsava. – Eu mesma não estou acostumada a ser muito romantiquinha, mas creio que valha a tentativa. Primeiro, você não é um maldito robô, embora se esforce para acreditar nisso devido a tudo que viveu até aqui. Você pode não ter uma real dimensão dos seus sentimentos, mas sempre está disposta a dar apoio a quem te importa, tendo ou não proximidade. – e ali se referia em especial a noite em que levaram Georgia e William ao hospital. À época, Tyler não fazia ideia de que eles possuíam um grau de parentesco, e parecera-lhe bastante incomum o quanto ambos afetaram a ex-corvina. Além desse caso em especial havia o excesso de zelo dela para consigo. – Em segundo lugar, eu acredito que vi e vivi com você o suficiente para saber no que estou me metendo. Todos nós temos partes que não apreciamos de nós mesmo, e embora você tenha receio de mostrá-las para mim, eu acredito que elas não irão me assustar. Além disso, eu não quero estar com você apenas nos bons e suaves momentos. Quero o pacote completo, Olivia. – disse, com firmeza, antes de se desprender dela para se colocar à sua frente. Um breve suspiro lhe escapou enquanto permitia-se contemplar a beleza da mais velha. Era estranho pensar que conhecia cada pequeno detalhe daquele rosto, e que já o havia reproduzido inúmeras vezes. – Eu sei que haverão ausências da sua parte por conta do trabalho. Morar ou não juntas não vai mudar o fato de que sempre ficarei preocupada com a sua segurança. Ao menos, espero que a chance de me encontrar na sua cama a torne mais focada em voltar inteira para mim. – disse, enquanto mantinha seu olhar preso ao dela, tentando não distrair-se do que tinha em mente. Na ponta da língua havia algo que queria dizer a séculos, mas que protelava por uma série de motivos, porém, naquele instante, queria deixar tudo o mais claro possível. Voltou a respirar fundo. – Acredito que é meio óbvio, embora não tenha verbalizado até o momento, mas eu amo você, Olivia. – declarou, de uma maneira tão natural que parecia que não era uma primeira vez. Ainda assim, permitiu-se saborear o alivio de se fazer clara. Acreditava na reciprocidade de sentimentos, embora soubesse que não seria tão fácil para a ex-corvina verbalizá-los. Um dia, talvez, pensou. Um sorriso largo e bonito moldou o canto dos seus lábios. Abriu a mão direita, onde guardava o arame dos doces moldado em uma tentativa muito digna de aliança. O sorriso em seus lábios alargou-se, dando vez a uma gargalhada com ronquinhos que disfarçava bem seu nervosismo. Mais uma vez respirou fundo, e a risada deu lugar a uma expressão que transparecia tudo o que sentia. – Eu quero que você veja essa aliança simbólica, criativa, muito original, e que obviamente será substituída por algo melhor, como prova do meu compromisso com você, com nós duas, e com a ideia de compartilharmos uma vida juntas. – pediu, com uma seriedade incomum a si, norteada por aquele sentimento que só crescia desde que cruzaram o caminho uma da outra. – Nós daremos um passo de cada vez, tudo ao seu tempo, mas quero que saiba, que ao contrário do que imaginei ser possível um dia, eu desejo uma vida inteira ao seu lado, Olivia.
Era sempre muito mais fácil para Olivia tirar o que pudesse de outras pessoas. Confissões. Segredos. Hábitos. Às vezes, pressionava para ter aquele tipo de informação. Outras tinha que ser ou se disfarçar de outra pessoa. Em várias situações, já se vira usando a força para obter o que precisava ou para chegar onde queria. Situações que lhe ocorriam frequentemente e sempre lhe exigiram as mais diferentes atitudes, totalmente contrárias ao que transcorria naquele momento. Por nunca ter sido uma constante, buscar isso dentro de si vinha sendo trabalhoso visto que havia o objetivo de ser um tanto melhor para Charlie Tyler. Sentimento que nascera a partir do momento que voltaram a se envolver e achava que estava até que indo bem, sendo presente, comunicativa e menos imprudente. Sem dúvidas, mentir e omitir rendia um mix muito mais fácil para lidar e enfrentar o mundo. As pessoas. Popovich jamais existira de outra forma a não ser aquela e nem mesmo o nascimento de Jamie trouxera mudanças. Ouvira que a maternidade daria esse jeito, mas não foi o que ocorrera. Não se tornara uma pessoa mais suave, centrada e responsável. Parecia até que seu filho fizera unicamente o favor de ressaltar essas suas características que, do modo inverso, via como qualidades. Gostava de ser imprudente, irresponsável e nem um pouco suave, pois era assim que atingia algum objetivo. Era assim que interagia. De quebra, perdia outras coisas que nunca sequer se dera conta. Ao menos, não até a ex-lufana entrar na sua vida e mexer com suas sempre tão distantes emoções. O mesmo o filho, a quem se distanciara nos últimos meses devido à descoberta de suas reais origens e vira o quanto estava sendo totalmente negligente - algo que Aiden fizera questão de pontuar. Nunca sucumbira, mas sucumbiu assim que se viu de frente com a verdade de onde vinha e, male male, reconhecia que tal verdade lhe fazia muito jus. Afinal, seu DNA era marcado por um casal dissimulado e assassino - e não era nada menos que uma dissimulada e assassina. Não era uma verdade a se orgulhar, nem muito menos diante de várias circunstâncias que passara a acompanhar graças a um sistema do qual fora enxotada antes mesmo de dizer sua primeira palavra, mas, de certa forma, se relacionava com aquelas nuances paterna e materna. Não negava que estivera muito próxima de se tornar um monstro e o que a salvara, e que a ex-lufana mencionara, apertando os seus botões mais sensíveis, é que tinha empatia o suficiente para não deixar outros desamparados serem fodidos como ela foi fodida. Tinha uma sede de vingança incontestável que conflitava com seu senso de justiça. Por essas e outras que não conseguia ser uma constante, sendo um completo trem desgovernado - e que levava junto quem ousasse a se meter ou atrapalhar. A ex-corvina era pura turbulência e dizer ao menos boa parte dos contras de morarem juntas lhe trouxera certo conformismo. As duas poderiam ter vivenciado aquele clima de lua de mel desde que o ano se iniciara, mas a coisa era totalmente diferente em tê-la por perto 24 horas por dia. Admirou-se por ser honesta sobre o assunto e se sentiu grata por receber uma resposta sensata de Charlie. Conseguira ser bastante clara, mesmo não dominando ainda os mandamentos completos de viver em um relacionamento com outra pessoa a quem carregava sentimentos além do amigável. Olivia estava um tanto comportada, mas tinha ressalvas. Como tinha para basicamente tudo e que, por vezes, soaria como sabotagem - mas não para ela. Como ter aquela ínfima consciência de que aquele chamego todo não duraria muito, pois imaginava que logo menos se sentiria sufocada. Quando se sentia sufocada, precisava desaparecer, como fizera assim que cravara a última conversa com a ex-lufana, no apartamento dela, antes das festas de fim de ano. Uma conversa que servira de um novo reflexo sobre si mesma, uma nova leva de verdades, e que, antes mesmo de imaginar que a reencontraria em algum novo momento da sua vida, reforçara aquele extremo conformismo de sou assim e é impossível me mudar. Era aquela pessoa. Meio pesada, desconfiada e pragmática. Por outro lado, o que sentia pela mais nova confrontava tudo aquilo e vira e mexe tentava encontrar um espaço completo entre a sombra de si que parecia sempre muito mais dominante por estar incrustada anos suficientes em sua pele para não desgrudar. Era um querer não querendo ou não querendo, querendo que Olivia se via, pois dissera a verdade sobre Tyler cobrir alguns vazios da sua vida e eram muitos vazios. Além disso, com Charlie conseguia se achar, mesmo que não soubesse explicar como isso acontecia e o que significava para si mesma. Com ela, conseguia ser mais despojada, menos rígida. Mais tranquila. Tê-la de novo inspirara um novo ritmo em seu cotidiano tão quanto um senso emocional que era bom sentir, muito embora fosse igualmente assustador porque não a fazia se sentir segura. Pertencer a alguém deveria ser o que veria em algum espelho de Ojesed da vida, porque não parecia de verdade. Não quando tudo em si e em torno de si se criara em cima de um terreno de mentiras e de muito sangue. Nem Hogwarts lhe fizera se sentir de tal maneira, pertencente, embora não deixasse de reconhecer os esforços de Minerva em amenizar sua orfandade e em inspirá-la a lutar pelo que nascera para ser - uma bruxa e abrira mão disso sem um pingo de arrependimento. Devia muito àquela senhora, a quem brigara pelos últimos dois anos. Se mantinha o nome Olivia Popovich era por causa daquela figura que sempre lhe inspirou resistência e era bem capaz que tivesse absorvido tal característica indiretamente. Ser resistente, e não vulnerável, era basicamente seu motto. Dado que aumentava sua complexidade, ao ponto de render aquela impressão de que não era capaz de morar com Charlie. Não lhe parecia funcional - e poderia ser muito bem caraminholas da sua mente que seguia extremamente aturdida com o baque daquela proposta. Conhecia-a o suficiente para saber que ela trabalhava com expectativas. Que era absurdamente otimista. Que se machucava fácil. Poderia dizer que ela era a parte emocional que lhe faltava, o que não era uma mentira e também não via como negatividade. Afinal, era um prato raso emocional e lhe era interessante ver como algumas nuances daquilo funcionavam no modo como a mais nova se expressava. A intensidade da vida, sem seus compromissos e burocracias, pertencia àquela mulher que a tirava perfeitamente do comando alerta. Em contrapartida, Olivia não sabia viver sem aquele modo alerta. Era uma de suas principais defensivas e um dos seus meios de se manter no cerne que alguns diriam que não era saudável - e para ela era totalmente normal. Sem aquelas muralhas, tinha a impressão de que seria uma completa bunda mole e estava aí algo que não estava nem um pouco disposta a se tornar - o que revelava seu quase inexistente tato para compreender suas próprias emoções. A ex-corvina só compreendia o que era do outro, pois o que era do outro não durava para sempre em sua vida. Sem contar que era uma pessoa para cada outra pessoa, reforçando seu senso de temporalidade. Não sabia quem realmente era naquele redemoinho cheio de personas e Charlie incitava essa busca que também ressaltava inseguranças jamais observadas. Não gostava de se sentir daquele jeito, pois parecia que todo mundo teria acesso a si. Um acesso oco, mas ainda seria um acesso. Um pesadelo, sabia, e não pensou duas vezes em manter sua posição e matar sua cerveja. A cada golada, sinalizava um tipo de reação de que ainda estava atenta ao papo. Deixou-se espiar, curiosamente, a movimentação de Charlie por cima do ombro e o vislumbre da sua silhueta parecia fortalecer suas defesas em vez de dissipá-las. Tinha um tanto de noção de que declarara o que ela não gostaria de ouvir e, por algum motivo, aguardava um briga tremenda da qual não estava disposta porque precisava voltar a trabalhar, seja qual fosse o horário. Parecia que a ex-lufana lera seus pensamentos ao se postar atrás de si, ainda em aparente trégua, no instante que largou a garrafa no umbral da janela. Manteve sua atenção focada na imensidão de prédios vigiados pelo céu cinza do inverno, o que não durou muito tempo, pois se viu reagindo ao beijo que Tyler depositara na curva de seu pescoço. A familiar eletricidade atravessou sua espinha, como um raio, despertando-a para a realidade. Inclinou a cabeça, apoiando-a assim que apurou o queixo dela repousado em seu ombro. Curvou-se um pouquinho mais para acertar um beijo suave no canto da testa da mais nova ao mesmo tempo em que seus braços cobriam os dela. Ali estava. A segurança. O pertencimento. Era bom, não dava para negar. Tão bom que sempre lhe roubava uma respiração profunda de alívio. Fechou os olhos, mais para acertar o ritmo do seu coração. Poderia ficar naquele silêncio, apenas escutando os ruídos naturais ao redor delas e acompanhando o ritmo da respiração de Charlie. Com o passar dos anos, nunca tivera tempo para analisar o quanto de espaço existia em sua vida e a ex-lufana se encaixava perfeitamente, ocupando praticamente todos. E temia, não negava, porque, de novo, era esperado que estragasse tudo. Não queria, mas aquelas sombras ao seu redor pareciam sempre mais fortes que sua vontade de aceitar que, finalmente, tinha alguém fixo a quem contar. Que não fora esquecida. Que poderia quebrar aquela maldição de temporalidade das coisas. O muro mais forte que a ex-lufana seguia socando e deixando um grande efeito reconfortante dentro de si. - Eu já sinto essa pane e confesso que não é muito gostoso. - confessou, assumindo seu desconforto. Não sentia vergonha de ter dito aquelas coisas. Só preferia que ninguém a visse em um estado mais vulnerável, pois era onde sempre era atingida. Explorar o emocional das pessoas era uma coisa. Explorar o seu era um caminho que não estava a fim de cruzar. Não ainda. Principalmente porque a sua vulnerabilidade era estopim para medidas escandalosas e precisava aprender a controlar aquele traço inconstante da sua personalidade. - Por Rowena, você não desiste. - brincou, liberando um risinho contido. Deixou-se levar pelo novo espasmo na espinha, assim que os lábios da ex-lufana encontraram sua pele de novo, e se viu com vontade de se virar para beijá-la. Não o fez quando ficar de costas parecia um meio seguro de ouvi-la e não interpelá-la. Situação que costumava rolar entre ambas, pois Popovich tinha sua pose de “sargenta” e sempre queria que sua altivez não fosse desrespeitada. - É aí que está, Charlie. Eu consigo lidar um pouco melhor com as pessoas que não pertencem ao meu cotidiano. Se você notar o padrão, eu não faço parte da vida de ninguém e fico bem com isso. Ao menos, eu costumava achar que sim. - explicou laconicamente. Não visitava a mesma vítima duas vezes, o que era contraditório, pois prestara muitas visitas à Georgia Triggs. A vontade de proteger aquela garota era igual ou superior à sua vontade de impedir que alguém mais desse uma rasteira mortal em William Fraser. Essa era sua linha tênue pessoal e Charlie era o oposto disso. Ela passou a representar o elo da permanência que quebrava até sua preferência pelo famoso booty call. Reconhecia que gostava de estar com ela e de tê-la por perto, porém, não entendia porque estava sendo relutante quando tudo era simples. E obviamente claro. - Não ter a real noção dos meus sentimentos é o que normalmente machuca as pessoas. O que normalmente me coloca em apuros. - ou a faz assassinar alguém, pensou, engolindo em seco. Sentiu a tensão envergar cada nervo do seu corpo, porque, ao pensar no assassinato, percebeu que as coisas começavam a não ornar como supostamente deveriam. Afinal, Charlie mencionara segundos atrás sobre honestidade e tinha aquele segredo malfadado que era uma nova ponta de iceberg que poderia fazer o navio delas afundar. - Claramente, você não sabe onde está se metendo. - murmurou em um tom de angústia urgente, que a fez alisar a testa em sinal de nervosismo. Tyler era um ser de outro mundo com aquele otimismo todo e Olivia começou a se sentir ainda mais incomodada. Sentiu vontade de calá-la, mas se conteve, tentando tomar conta do turbilhão que ganhava intensidade dentro de si. Tinha receio de onde tudo aquilo chegaria e ficou sem palavras quando a mais nova tomou seu campo de visão. O olhar da ex-corvina era tão urgente quanto o fervor na sua língua para contradizer tudo que a ex-lufana lhe dizia com tamanha tranquilidade e plenitude. Viu-se sorrindo em um acanho que bombeava mais insegurança dentro do seu ser. - Eu não posso pensar em você nua na cama quando estou no trabalho. Justamente porque me dá vontade de largar tudo para trepar com você. Ou, na pior das hipóteses, posso acarretar acidentes. - comentou, ainda sentindo aquele desejo de tocá-la. De tomá-la em seus braços. Mas a sua rigidez também ganhava pungência e não conseguiria minimizá-la diante da revelação que deixou seu rosto totalmente sem cor e seus olhos injetados de choque. - Você o quê? - escapuliu quase como se tivesse acabado de descobrir o início de uma calamidade. Sua cabeça se inclinou um pouco para o lado como se não tivesse escutado o que ela disse direito. Mas escutara. Seu coração escutara ao ponto de bater no centro da sua garganta. Massageou o centro do peito com o punho fechado, se perguntando o que diabos era aquilo, pois, subitamente, até sua pele estava quente e sentiu uma súbita dificuldade de respirar. - Óbvio? - indagou, com a voz fraca e pigarreou para tentar retomar ao menos 20% da sua dignidade. Sua cara de tacho era tamanha ao ponto de cobrir a boca em estado de choque. - Charlie, isso não é coisa que se diz para alguém como eu. Não assim tão fácil. Você é maluca! - o nervosismo era perceptível em sua rouquidão. Sua voz falhava. Seu corpo tremia. Precisava fazer alguma coisa, pensou, talvez, para barrar tudo aquilo, mas estava estranhamente congelada no mesmo ponto. Tudo ao seu redor parecia ter entrado em câmera lenta e seus pensamentos pareciam ter sido surrupiados por um Obliviate. Só despertou ao ouvir a gargalhada e foi quando notou o que havia na mão direita dela. Um arame. Fechado em um círculo. Ficou confusa e a fitou. - Puta que pariu! - praguejou e levou as mãos para os lados da testa. - Puta que pariu você é maluca mesmo! - se assegurou daquilo, como se estivesse falando consigo mesma. Sua cabeça balançava em uma afirmativa frenética enquanto tentava acompanhar o resto do discurso da mais nova. - Não, isso está meio errado. Espera aí! - em um impulso, fechou a mão de Charlie com a sua. Aquele fluxo de emoção e de pensamento queria dar pane em seu sistema nervoso. - Escuta. - encurtou a distância, resfolegando. Ao olhá-la, fixamente, seu tom esverdeado faiscando de claro desespero interno, percebeu que estava diante do que sabia ser a última bala de uma roleta russa. - Ok. Vamos rebobinar. Charlie. - chamou-a, depois de roubar um pouco de oxigênio do ambiente. Precisava do seu raciocínio. Não daquela pilha de emoções. - Você comentou sobre honestidade, então, vamos ser honestas. - por algum motivo, não conseguiu liberar a mão dela. Parecia uma âncora e focou naquilo para não se acovardar diante do que estava prestes a relatar à mais nova. - Eu não posso ficar alimentando qualquer ilusão de que não sou assustadora o bastante, porque, acredite, o que estou prestes a contar, fará cair por terra essa aliança criativa, artística e muito ridiculamente adorável. - e Olivia temeu, porque chegara a hora em que estragaria tudo. - Você acha que estou te repelindo ao dizer tais coisas e pode ser que sim. Contudo, há muita verdade no que acabei de dizer, antes de você me jogar dois baldes de água fria. Tudo bem, você é maluca, e me convenci disso. Sua loucura me tirou do sério tantas vezes que eu mesma queria amarrá-la na cadeira para que deixasse de ser irresponsável. Mas, olha só, não é esse o assunto, pois eu tenho um puta segredo pessoal do qual você não sentirá orgulho. Nem engolirá com facilidade, porque, antes de tudo, você é lufana e os lufanos gostam das coisas certas. Ao menos, é o que ouvi dizer. - respirou fundo e buscou a firmeza do olhar de Charlie. Jurara a si mesma que não contaria nada daquilo para ninguém, mas, depois do caminho final daquela conversa, notou que não podia ficar calada sobre algo que era sério, independentemente de não ser mais afetada por todos seus aspectos. Sabia dos riscos, ao menos achava que sim. Sua revelação poderia mudar aquele momento de ter uma vida juntas e, apesar de tudo, esperava que não. Conclusão que não lhe ajudou muito a apaziguar o desespero interno que a inspirava a fazer uma nova coisa certa por gostar demais de Tyler. Gostar tanto que ainda podia se sentir tremer. - Você lembra do meu stalker, não lembra? - perguntou, ainda segurando a mão dela. Seu maxilar endureceu, pois tal memória parecia o canal mais acessível para ser irresponsável quando precisava ser. O que não era o caso naquele momento. - De qualquer forma, você deve ter notado que as coisas se tornaram meio esquisitas no último semestre de dois anos atrás. Mais pelo meu comportamento e minha necessidade de sair do seu apartamento. Bem, eu não ando com um revólver à toa, ainda mais depois que eu descobri quem era esse stalker e é aí que essa história se torna mais perturbadora. - lembrar da noite em que o reconhecera tinha seus espinhos. Não por finalmente ganhar a chance de extirpá-lo do planeta, mas a circunstância em que se dera o reencontro. O timing poderia ter custado muito mais a Georgia, pois gastara segundos que ainda considerava significativos para ter certeza de que aquele homem era o mesmo homem que a deixara paranoica. Ao ponto de dormir com o revólver embaixo do travesseiro. Ao ponto de ainda sentir o peso de suas mãos em seu corpo quando estava grávida. Lá, viu a ira daquilo tudo retornar e aquele desejo de vingança tomar conta de cada poro da sua pele. Uma ira que a fizera jurar que ele não faria mais aquele tipo de coisa. Prisão era pouco, embora o sensato, mas Popovich perdera a compostura pela justiça com as próprias mãos. Algo que desprezava, mas suas emoções, as famosas emoções que não tinha conhecimento e controle, a cegaram e a fizeram puxar certeiramente o gatilho. - Foi na noite em que encontrei Georgia nos jardins de Hogwarts na companhia de Margaret Fraser. Há muito nessa noite que ninguém sabe, Charlie, mas eu o reconheci. Ele ajudava aquelas outras pessoas. Não me custou muito para descobrir que o filho da puta era um Mackenzie e foi aí que eu soube como encerrar meu pesadelo. Eu o matei. - revelou, percebendo que a culpa sobre aquilo realmente não existia. - Um tiro e um enterro em uma vala na Escócia. Se alguém encontrou o corpo, bem, a bala ao menos não está mais no centro da testa dele porque eu a tirei antes de finalizar meu trabalho sujo. - concluiu com frieza. Notou que ainda sentia prazer em ter feito aquilo e não pensaria duas vezes em fazê-lo de novo. - Charlie, matar uma pessoa, por mais que seja um filho da puta, muda você completamente. Saber que sou capaz de fazer isso, sem pestanejar, especialmente quando paro para pensar sobre a fonte do meu nascimento, bem, contesta a parte de que sou incapaz de assustá-la. Eu não sei mais qual limite posso alcançar se me tirarem do sério. - liberou a mão dela, percebendo que a apertara demais. Pediu desculpa, sem desviar a atenção da aliança de arame. Tomou um tempo antes de prosseguir e notou que parecia sensato dizer aquilo logo de uma vez antes que se perdesse em tudo que Tyler poderia lhe trazer de bom. - É a primeira vez que confesso isso. Nem Aiden sabe, embora ele seja inteligente o suficiente para saber as circunstâncias da minha saída do mundo bruxo. Então, se alguém descobrir, sei quem foi. - e não dizia aquilo em tom de ameaça, embora sua mente fomentada ao trabalho de agente tivesse criado uma nota mental. - Eu quero que veja que sempre dá para piorar, porque eu preciso fazer coisas que podem comprometê-la no processo. Na hora do vamos ver, não há muito raciocínio. E, antes que me pergunte, não sinto culpa de nada. - cruzou os braços e liberou uma respiração profunda. - Antes de deixá-la dar o veredito, eu preciso dizer minhas palavras finais. - e parecia mesmo que estava prontíssima para discursar sobre algo importantíssimo. - Eu quero que saiba que tive dias maravilhosos ao seu lado. Que, apesar do trágico momento em que nos tornamos roommates, você me mostrou indiretamente que é possível ter um lugar para retornar no fim do dia e que alguém estará à sua espera. Que nem tudo é simplesmente vazio. Com cheiro de abandono. Você me ajudou a me preocupar menos em andar com o revólver o tempo todo, algo que eu fiz no seu apartamento e sinto muito por aquilo. Eu ainda era perseguida, o que me faz finalmente contar que minha presença em Hogwarts, naquela época, foi exclusivamente por asilo. Jonathan me ajudou a anular meus rastros e Minerva me deu esse nome que assumi. Tudo isso me moveu até você, um porto seguro que nunca tive e eu tenho que agradecer por isso. Inclusive, por tudo que fez a Jamie. Como pode perceber, eu não sou boa com emoções, um dia eu espero ser. Mas... Rebobinando outra vez, acho que levar balões no Dia dos Namorados para alguém diz muita coisa, não diz? - sorriu de modo contido que não disfarçou a ínfima sombra de tristeza em seu olhar. - Seja como for, é bom que saiba que, apesar de tudo isso, seu discurso foi muito convincente. E que, se eu tivesse omitido ou não essa minha grande revelação, minha afirmação sobre morarmos juntas seria positiva. Você é confiante e isso me contagia, mas eu acabaria induzindo a escolha de um lugar novo. Um lugar que escolhêssemos juntas, porque acredito que, se queremos um capítulo novo, bem, meu apartamento não cabe três pessoas e um cachorro. E o seu tem sombras demais para mim, embora sua companhia tenha sempre feito valer a pena estar lá. - concluiu e pensou em se afastar de novo, mas não era tão covarde para fugir do seu veredito. - Eu realmente nunca pensei em compartilhar minha vida, minha parca vida, até você chegar. Eu não tenho muito o que compartilhar a não ser esse monte de merda, mas não existe uma pessoa no momento com quem eu queira continuar fazendo isso. Sendo, como disse, sua namoradinha. - Olivia desacreditou ao dizer namoradinha. Outro choque patrocinado por Charlie Tyler. - Agora é sabido que eu mataria por você e, não nego, o teria feito incontáveis vezes. - e foi automático recordar do que Nicholas Mackenzie fizera contra a ex-lufana e seu sangue fervilhou por alguns segundos. - É o máximo de romantismo que consigo chegar e acho que é doentio o suficiente. - tentou brincar, mas era mais uma tentativa de Olivia em afundar o que realmente sentia. Naquele momento, ela foi plenamente capaz de identificar a tristeza da obviedade que era um poço sem fundo de irresponsabilidades que seriam difíceis demais de abrir mão tão quanto difíceis de serem aceitas para uma pessoa como Charlie. Ao menos, era o que seu racional julgava enquanto tentava camuflar aquele receio de perda iminente. Muito mais latente em comparação a última vez que passaram por aquilo.