Você nunca gostou de mim. Jamais poderia gostar de mim como eu gostei de você. Não poderia adorar do mesmo jeito, nem seria capaz de perceber os mínimos detalhes. Você estava num estado de carência absurda e pescou a primeira pessoa que apareceu, e eu, infelizmente fui a vítima. Você nunca conheceu o verdadeiro sabor do meu beijo, a verdadeira cor dos meus olhos. Nem a pulseirinha que usava dia sim e dia não. Nenhuma mulher poderia ver o que eu vi em você, eu enxerguei além da alma. Nem você mesmo se entende. Quem dirá uma guriazinha qualquer. Você me viu numa figura tosca, inútil, material. Incapaz de me amar. Desejando apenas o meu corpo. Incapaz de me ver de verdade. Não apreciou meus doces caprichos, as unhas roídas, o cheiro do meu perfume. Eu queria dizer como naquelas frases de peruas que acabaram de levar toco: "Ele pensou mesmo que eu gostava dele? Coitado." Não que isso fosse mentira, mas não está dando pra fingir que não é nada. Você começou elogiando a roupa que eu estava vestindo e até a cor do esmalte. Meio que a gente começou alguma coisa com algum blá blá blá e acabou abraçado debaixo de um cobertor no apartamento número 77 de algum número esquecido da Ouro Branco. Me ligava todo dia para marcar um piquenique qualquer e sempre levava sanduíches com queijo holandês, mesmo sabendo que odiava. Não é justo que tudo aquilo a que me refiro se apague da sua cabeça com a mesma facilidade que o meu cigarro se apagou. Eu realmente não sei em que mundo eu estava quando pedi para que me amasse, para que ficasse comigo. Eu estava inconsciente? Bêbada? Só se fosse de amor. Eu estava perdidamente apaixonada, cega, doida mas tudo bem, todo mundo passa por isso algum dia, não é? Não, não quando é amor verdadeiro, quando você sabe que é pra sempre. Ouvi dizer que teve um rapaz que fez de tudo para ter tal moça, ele comprou roupa de marca até o carro mais caro da loja e ela nunca deu valor a ele, realmente, quando não é pra ser simplesmente, não é. E assim acaba. Você ama por dois, se ilude, cria esperança enquanto a pessoa só te usa quando precisa. E foi o que você fez, me deixou em um estado completamente fora do normal, me fazendo pedir mais vinho porque já estava de tomar cerveja ao seu lado, me fez sentar no carro e pensar em tudo o que passamos, no primeiro encontro, nas saídas, nos domingos em que passávamos deitados. Como você teve coragem? É tão absurdo que eu chego a pensar na cabeça de um ser humano de ter que aturar uma pessoa como eu só por carência, por prazer. Eu não entendo você e nem quero, não quero saber o que passa aí por dentro da tua cabeça. Eu nunca me entreguei à uma pessoa como me entreguei à você. Nunca fui tão tola em me aproximar de alguém como fui com você. E eu percebo isso cada vez mais enquanto o barman me traz mais uma taça de vinho, tudo isso para tentar esquecer, e acaba por fazer lembrar cada vez mais. Eu sei do que eu sinto falta, sinto falta de você, mesmo sabendo que tudo que me disse eram mentiras, eu não sabia que o amor era tão cruel, ainda mais amor verdadeiro, não seria mais uma mentira esse rombo no meu peito, essa falta que eu sinto todas as manhãs, todas as tardes e se perpetua pela noite. E eu enlouqueço com a musica alta no carro, o mais alto possível para não ouvir meus pensamentos, para não ouvir minhas culpas, para não querer questionar pela milésima quarta vez o porquê de você se fazer tão especial, e me deixar assim, me acabando na sarjeta da vida. E eu ainda espero que em algum desses copos eu encontre a explicação do porquê eu te amar tanto e não te ter aqui comigo.
“Eu bebi pra ver se o mundo rodopiava na minha frente e me deixava de frente pra alguma versão de você que me quisesse.” Karine + Fernanda + Paula = Ancoradas



