Entre a Guerra e a Manhã
Hoje eu me assustei com o eco dos meus próprios passos,
com a sombra dos pensamentos atravessando a sala
como quem conhece a casa melhor do que eu.
Vi o cansaço sentado ao meu lado,
quieto, pesado, antigo,
como alguém que ficou tempo demais
e esqueceu de ir embora.
Há dias em que viver parece guerra:
armadura rachada, mãos cansadas,
batalhas acontecendo dentro do peito
sem que ninguém escute o barulho.
E a mente fala alto, alto demais,
faz tempestades de coisas pequenas,
faz noites dentro do dia,
faz o coração correr sem estrada.
Mas existe uma verdade difícil de enxergar
quando tudo pesa:
o cansaço sabe imitar o fim,
mesmo quando ainda é só cansaço.
E talvez eu não precise vencer a vida inteira hoje.
Talvez exista apenas este instante:
o próximo suspiro,
a próxima luz atravessando a janela,
a próxima manhã insistindo em nascer.
Porque até estrelas desaparecem do céu por algumas horas,
e ainda assim voltam.









