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@apocalipoteses
“Risperidona”
By Bruno A morte nunca apareceu pessoalmente pra mim, ela só sussurra e tem seus ataques histéricos de risos às vezes. Mas eu sei como ela é. Ou é uma garota mimada e revoltada, com olhos pintados e calças rasgadas, ou é um homem de terno bonitão e simpático. Isso mesmo, como nas revistas e filmes. Essa é a morte, nada sobrenatural, nada invisível. Sabendo como ela é eu não tenho medo, e sem medo é impossível morrer. Ela já tentou me buscar várias e várias vezes, mas sempre acaba se decepcionando. Espera por uns 15 minutos e vai embora, com as flores murchas, o cigarro pelametade. Passei a me preocupar quando meu antigo amigo imaginário apareceu de novo, um corvo branco que nunca disse nada e nem olha pra mim. Ele só fica la, parado olhando pra longe. A última vez que o vi foi quando meu mundo acabou, há uns 12 anos atrás. Acabou porque a empresa que fazia meu tipo preferido de biscoito declarou falência. Pode rir, mas pense que você nunca mais vai poder comer sua comida favorita, e a culpa nem é sua, é da vida, de deus, zeus, ou algo que o valha. O mundo das pessoas acaba por bem menos que isso. Agora o maldito corvo apareceu de novo, e eu não sou mais criança e nem tenho meus biscoitos, algo de ruim vai acontecer, e ele provavelmente sabe o que é. A forma mais digna da civilização acabar era com um vírus zumbi, seria a lei do mais forte misturada com a sorte. Todos se matando por instintos básicos, ao invés de inventarem motivos bestas como o petróleo. Realmente, se me dessem um tiro só porque tiveram vontade eu ficaria mais feliz do que se dissessem que foi por vingança, ou porque nunca sentava na mesa nos jantares de família. Mas a civilização não acabou com um vírus zumbi, eles se suicidaram, todos juntos. Ninguém sabe o porque, e nem vai saber também, pois sou o único que sobrou e não tenho saco nem pra pensar que tipo de doença é essa que me faz ver um corvo branco. Fico pensando se a qualquer momento os criadores de tudo virão limpar essa bagunça toda e colocar pessoas novas, macacos novos, invertebrados novos, vocês entenderam... ou se nada disso de criadores existir e essa droga vai ficar aqui até se decompor e alguma espécie resolver evoluir de novo. Não quero morrer porque fede, e fede muito. Toda cidade que visito procuro uma profissão. Nunca parei pra pensar que existia alguém acordando todos os dias e pintando Bem Vindo em tapetes. Outros separavam as bolinhas de rosários. Me sinto útil, é como se tudo fosse meu agora, uma grande sala de estar, mas eu teria que sofrer de Alzheimer nessa analogia, pra esquecer tudo que tem na minha sala e descobrir coisas novas. Como uma fazenda de nudistas no meio de uma plantação de maçãs. E algum tio se matou na minha sala, um tio gordo, deu um tiro na cabeça e na sua carta dizia "foda-se." E os vermes, ah os vermes, vocês ficariam surpresos com a quantidade. Algumas ruas preciso atravessar pelo alto dos prédios, e lá de cima as coisas ficam mais bonitas, da vontade de pular. Deviam inventar um nome pra sensação de queda livre, aquela que mistura a morte iminente com a liberdade e a falta de controle. Mas agora ninguém mais vai inventar palavra alguma, talvez se algum dia se eu arrumar um emprego disso eu invente. Encontro vilarejos engraçados com casas de uma cor só, árvores de maracujá que aparentemente cresceram em gavetas e circos de pulgas. O que é um problema, já que elas infestaram tudo em volta. Procuro por livros e pedaços de papel, quero as últimas histórias das pessoas, será que elas escreveram algo triste, algo feliz, algo esperançoso. A maioria pede misericórdia, perdão e um lugar no céu. Aprendi que nada disso existe, era meio óbvio, afinal depois do apocalipse o que diabos o diabo iria fazer? Hoje acordei e estava tudo escuro. Dormi numa cama e agora estava num chão de pedra, com aquele corvo branco maldito olhando pro lado. Então ele vira a cabeça e diz que isso tudo é um sonho. Acordei de novo e estava na cama, o corvo não disse mais nada. Sonhar é estúpido agora, desnecessário. Sei com certeza que nada vai se realizar porque não tem como as coisas se realizarem aqui. Então crio realidades, essa história ai atrás não faz sentido algum, você acreditou mesmo que todo mundo iria se suicidar? Idiota. É simples acabar com um mundo. É simples acabar com uma idéia. É só se distrair com outra coisa mais brilhante. Freqüento shows pequenos de bandas horríveis na esperança de que um dia elas façam sucesso e eu diga pra prostituta qualquer vestindo as botas que eu era uma das 250 pessoas que estava ali. Ela fez sexo com uma das 250 pessoas que estavam ali naquele dia, nunca mais algo assim iria acontecer. Então ela pede o dinheiro e sai. Eu grito da janela do hotel qual o nome dela, ela diz qualquer coisa que começa com M e quase é atropelada por um amigo que sabe fazer as pessoas desmaiarem com aquele golpe que seguranças usam, ele pede 30 dólares pra me fazer desmaiar na frente de qualquer casa e tocar a campainha. No outro dia eu acordo em algum hospital longe dali, com uns 10 dólares no bolso, um bilhete escrito "Cuide-se" e sem meu canivete. Até nisso as pessoas são previsíveis. Hoje é sábado, dia de tomar remédios com efeitos colaterais variados mas que incluam esquizofrenia. Quero ouvir vozes, quero saber o que vou ouvir, quem vou ouvir. Quero que meu corvo branco diga alguma coisa. Mas até agora nada. Acordo com uma puta dor de cabeça, cheiro de vômito e sem minha televisão. Tem um viciado em crack no 5º andar que insiste em roubar ela todo fim de semana e me vender no dia seguinte. Pego o calendário e faço um círculo um dia aleatório do ano que vem, é algo para esperar ansiosamente. Algo para chamar os amigos (e o maldito corvo branco), se vestir com as antigas roupas de domingo e usar talheres empoeirados. Só não sei ainda o que estou esperando, mas quem se importa. Quarta é dia de comprar um gato e deixar preso no apartamento de velhinhos com doenças terminais. Sem motivo em especial, me sinto mais humano fazendo isso. Vou dormir e acordar com minha mãe gritando que meus ovos estão prontos, quando chegar ela vai escrever "foda-se." em um bilhete e dar um tiro na cabeça. Todo mundo vai fazer isso, e a morte vai bater na porta, vou gritar que já estou saindo, só preciso procurar um par de tênis, então ela acende um cigarro e assopra a fumaça nas flores que trouxe pra mim. Meu mundo começa de novo. Viu só, e você se distraiu. Acabei com seu mundo por alguns segundos. Por alguns segundos fui a pessoa mais importante da sua vida, a que mais te influenciou, e você nem se tocou disso. Você é frágil, inocente e olha pro chão. Você é o seu próprio apocalipse, sem os cavaleiros e trombetas.
“Crônica de um apocalipse familiar”
By Eletricman
Estou me contradizendo, mas ao final de tudo os senhores verão que a verdade é uma realidade circular, é preciso dar muitas voltas em torno de uma coisa para realmente conseguirmos capturá-la. Estou sendo muito obscuro, eu sei. Pois bem, quando se tem uma sonda neurovibratória captando seus movimentos peristálticos e transformando cada piscar de olhos em gráficos em planilhas de projeção psicológica fica difícil manter o cérebro parado no mesmo lugar. Quando se tem braços pernas, e talvez um dos rins seja muito mais fácil escapar do tédio e do desespero, mas não é o meu caso.
Sou capaz de ver, mas vocês não, um corvo branco no canto da sala que faz o favor de anunciar meu fim, não um fim imediato, um alívio, não uma morte, e sim o fim de minha consciência que aos poucos vai sendo retirada como uma mancha de ketchup em uma camiseta velha. A cabeça de um homem dentro de uma garrafa jogada ao mar. Estou muito contente de ter me urinado cinco minutos atrás.
Se prometerem não dar mais choques elétricos no meu rabo (ou no que sobrou dele) prometo contar-lhes um relato interessante. Ou não.
Muito antes de tudo isso acontecer (por favor, não durmam) meu velho tio contou de como a cidade havia sido invadida inúmeras vezes, de modo selvagem e anarquista, por bárbaros cowboys fanáticos das montanhas vermelhas, isso quando a cidade na verdade ainda era uma aldeiazinha, menos que uma verruga no mapa...
“Eles usavam capuzes iguais da Klu-Klux-Klan, só que eram capuzes negros, o que dava uma aparência de ninjas assassinos. Embaixo dos olhos do capuz havia o emblema vermelho de uma cimitarra, por isso dizia-se que tinham ”sangue no zóio”. Tomavam as ruas de assalto, derrubavam as barracas dos judeus, exterminavam as plantas com seus borrifadores envenenados, corriam como loucos, estupravam as mulas e mijavam nas igrejas, nos sacerdotes e tinham acara de pau de deixar um dízimo aos pés do dos santos para que sua campanha obtivesse sucesso. Não poupavam ninguém, exceto as grávidas, os bêbados e os míopes.
Depois de roubar, pilhar e mijar faziam uma grande fogueira com os eletrodomésticos e dançavam ula-ula durante horas seguidas, as vezes sapateando em cima dos telhados, distribuindo pés de cabra aos ladrões, oferecendo pés de frango aos mendigos e outras coisas mais indecorosas. Todos os anos era a mesma coisa, a aldeia já se acostumara a invasão. Sempre parecia que ia ser o fim de tudo. As matronas empapavam seus véus de sangue, lágrima, esterco. E o seguro não cobriu nada.
Um dia os homens mais sábios da cidade (não passavam de 30 se reuniram e passaram quatro dias a base de chá verde e cana de açúcar meditando sobre o que fazer para impedir as constantes invasões. Depois de várias hipóteses que não caberiam no orçamento da prefeitura (que na ultima invasão havia sido dinamitada) eles terminaram dando ouvidos a solução mais estapafúrdia sugerida pelo sapateiro Hans. Como todos na cidade preferiam usar chinelos esportivos feitos de bagaço da cana, o Sr. Hans tinha muito tempo para ler e se inteirar das coisas do mundo, chegando inclusive a ter a assinatura de diversos jornais e revistas. Foi dele a idéia de contratar um psicanalista e introduzi-lo no “seio da matilha” (palavras do próprio sapateiro) para que descobrisse a motivação desses bárbaros chauvinistas e os sabotasse. Dito e feito!
Na invasão subquente, utilizando a consagrada técnica do cavalo de tróia (só que em vez de um cavalo de madeira eles usaram um enorme barril de aguardente) os agentes da aldeia conseguiram introduzir o psicanalista na horda de invasores vermelhos. Uma vez lá dentro o Doutor Finnegan, devidamente disfarçado com um capuz sobre o paletó, iniciou uma série de análises sobre o comportamento do bando, que comportava na maior parte do tempo como macacos hiperativos. Quebravam tudo, das cadeiras aos espelhos, rasgavam tudo também, até as toalhas de rosto. Depois de aprender a linguagem deles (que consistia de num alfabeto de oito letras, aproximadamente doze palavras, sendo que cinco delas eram adjetivos para “corrida”) o doutor analisou as evidências e os sinais do caráter e chegou a conclusão de que toda aquela fúria sem tamanho era resultado de uma veemente negação de impulsos homoeróticos latentes naqueles homens. Era verdade que não existia nem uma mulher no meio deles, com exceção talvez da arrumadeira que vinha duas vezes por semana.
Nos meses que deveriam anteceder aproxima invasão houve todo um trabalho de aceitação pessoal, mediação de conflitos arraigados, descoberta da feminilidade, eu interior, etc. Ao final, o doutor ficou fascinado com os detalhes do caso e mandou uma matéria pra uma revista de psicanálise russa. Aí começa outra lenda. Invasões não ocorreriam mais, em compensação falava-se a boca pequena que todos os bárbaros tinham se aboiolado e riam-se disto, até que o Dr. Finnegan em pessoa resolveu aparecer para receber os honorários da missão. O prefeito contava que ele nunca mais fosse voltar e já tinha gasto o dinheiro em roupas no shopping. O pobre homem ainda teve de ouvir diversos gracejos da ingrata população, justo aquela que ele salvara com sua técnica e argúcia. Pois bem, eles iam ver o que é bom pra tosse. Saiu jurando vingança caso não fosse pago até a meia noite.
E de noite todos se trancaram dentro de casa, temendo uma terrível invasão. De algum modo as pessoas achavam que agora que os bárbaros sabiam ler a invasão seria ainda pior. Alguns inclusive se enterraram em seus próprios quintais e outros tomaram cartelas inteiras de sonífero.
Não se sabe ao certo como chegaram só que foram bastante silenciosos. Ao invés de gritos e cambalhotas ameaçadoras, houve o rumor do vento. No final da madrugada uma senhora saiu gritando pelo filho, seus berros foram ecoando pelas ruas desertas. O garoto havia desaparecido como que por mágica. Ele e todos os outros varões da aldeia. Os mais belos, mais viris, os primogênitos, o filho do prefeito, o filho do sapateiro. Um pouco antes do primeiro raio de sol despontar os pais reunidos em pânico na praça central julgaram ter ouvido uma risada indecente, um riso de deboche ecoando na noite profunda. De lá para cá a história ganhou vários adendos e apêndices misteriosos. O mais fantasioso de todo diz que naquela noite houve a passagem de uma revoada de homossexuais voadores que teriam jogado um pó mágico no telhado das casas, despertando e trazendo os mais belos rapazes até eles. “
Como podem ver esse relato não nos levou a lugar nenhum. Eu só me contradigo e diluo um pouco a verdade, mas é preciso dar muitas voltas em torno de uma coisa para poder obtê-la, exatamente como eles fizeram, se colocando no jogo de forma muito discreta, através de muito trabalho, virtude, de fé e testemunho, sem falar em alguns subornos. Os detalhes de como todos foram sistematicamente cativados e dominados eu não preciso repetir, foi uma sucessão de nocautes na velha moral decadente. Não vi nada por que na hora estava jogando videogame, quando percebi os malditos já haviam tirado meu mundo da tomada.
Na verdade dei voltas em torno da minha língua. E sinto que foi isso que meu tio fez naquele dia tentando explicar o porquê seu irmão gêmeo havia desaparecido muitos anos atrás, no dia em que foram vistos os homossexuais voadores. Eu não contei dos meus tios gêmeos? Bem, só conheci um, o outro morreu ainda criança.
Pois bem, meu tio Ovgen, o gêmeo que restou, criava maracujás em gavetas. Eram belas gavetas de mogno e pinho, forradas de prateado onde os maracujás dormiam feito bebês enrugadinhos. O mistério número 1 da minha vida é para onde iam aqueles maracujás. Além disso, ele também criava a mim e a meu irmão.
Pedi muito a meu tio que explicasse como é que os chineses haviam dominado o mundo com seu capitalismo satânico e seu satanismo burocrático. Em resposta ele me preparou uma sopa de letrinhas. Não entendi nada, e a sopa estava em chinês. Esse foi meu mistério número 2. Era sempre assim, perguntava por que o céu era azul e ele me mandava pintar a parede da sala.
Eu tinha uma coleção de mistérios, guardava todos dentro de um pote, junto com meus dentes de leite, umas conchas, um pirulito meio chupado e uma foto do Justin Bieber. A foto do Justin é meu mistério número 3. Não é minha, mas um dia encontrei em cima do cadáver de Rocco, meu antigo cão de estimação. No verso da foto estava escrito “Rosebud”. Perguntei ao meu tio o significado daquela palavra. Ele me levou no parquinho e não explicou nada. Só me balançou durante quatro horas.
Não sei exatamente quando os chineses chegaram aqui, eu digo os chineses maus, pois havia os bonzinhos e subversivos que estavam há cinqüenta anos na solitária. Havia os trabalhadores decentes que fabricavam nossos pula-pulas, mas que tinham que trabalhar dezoito horas seguidas sem parar pra trocar de meia. Não perguntei isso a meu tio com medo de que ele me pintasse a unha do dedo mindinho.
Na escola chegaram a me dar vários exemplares do diário azul chinês. Mas eu não entendia nada lá. Tem gente que nasce entendendo essas coisas, como meu primo de quarto grau, Ospel, que lê e escreve em chinês desde os oito meses de idade, freqüenta as reuniões do partido e atravessa os ceguinhos na rua. Eu no máximo leio gibis em russo.
Sei que para cada aspecto do dia havia um versículo, uma parábola, uma receita de bolo. Todos ficavam empolgados em me mostrar como era fácil trocar a correi de uma bicicleta sob a influência do livro azul.
Acabei ganhando o apelido de “Sem alma”. Esse é meu mistério número 4. Ou será o cinco. Alguém sabe onde estava a contagem?
Meu melhor amigo Azpen mudou seu nome para Cheng e todo dia tinha que mijar três vezes em direção a Pequim, sempre o via com um copo d’água na mão. Íamos com freqüência ao drive-in assistir as rinhas de travesti, depois de um tempo Cheng dizia que ter colocar falsos era contra-revolucionário. Eu achava que o silicone estava para o peito assim como o ketchup estava para o molho de tomate.
Meu vizinho Lizt parou de usar o uniforme da escola e só andava de pijama azul. Passou a só falar chinês. Nos corredores do colégio eu era tratado como um altista anti-revolucionário, não sabia sobre séries de TV comunistas. Comprei uma camiseta do Dalai Lama e levei um ovo podre na testa.
Não sei se contei meu avô era uma morsa que vivia dentro de uma banheira vinte e quatro horas por dia. Sempre se lavando e cantando trechos de óperas. Isso desde que apostou todas as economias na mega sena e perdeu. Ele costumava procurar garotas mais novas na internet e levá-las pra tomar sorvete. Quando eu e meu irmão éramos menorzinhos brincávamos de barco pirata naquela banheira, que pra nós era o Atlântico, uma escova era nosso bote salva-vidas e ocasionalmente o membro ereto do vovô servia como tubarão.
E a vovó? Vivia no jardim caçando vietcongues. Tínhamos um problema no bairro, os jovens satanistas chineses costumavam invadir o quintal atrás de rosas azuis ou fios de cobre. Eu meu tio gritávamos saiam daqui seus satanistas de uma figa!
Minha avó era meio surda e parcialmente sifilítica e sempre entendia que estávamos sendo invadidos por nudistas. “Nudistas no meu jardim? Venham, venham, temos bolachas!”
Antigamente, quando ainda existiam meus pais, recebíamos diversas visitas em casa. Homens de casaco, escafandro, burca, saia rodada, belas damas que vinham conversar sobre lavagem intestinal e outros temas da moda. Nesses dias, a maior diversão, o que fazia lotar a sala, erma os chamados “Jogos mentais.” Pessoas impassíveis, sem dizer palavra, durante horas seguidas.
Meu irmão e eu ficávamos fascinados por aquela festa de estátuas. Um dia meu irmão chegou junto de um desembargador e deu uma bela urinada nas costas dele. Mas nada faria um jogador perder a concentração. Nem xixi. Naquela noite mamãe castigou Sanya cozinhando caramelos em seu reto.
Mamãe e papai trabalhavam para o governo, dia e noite sem refresco, de modo que aos poucos foram se desgastando, suas peles foram desbotando, ficando transparentes. Até a vez em que a empregada chegou mais cedo e viu a mancha de meu pai numa parede e limpou com Brilhol. Mamã deve ter descido pelo ralo.
Meu irmão compensou o trauma pelo vídeo game, judô, kung fu, karatê, boxe, axé. Uma vez teve um acesso de raiva e espancou uma couve flor. Ele pegou tétano de tanto puxar ferro em academia e não sobreviveu. Menos um na mesa de jantar. Perguntei a meu tio por que esse tipo de coisa acontece e em respostas ele torceu meu braço e fez um chá.
Vou ter de interromper este nostálgico relato para poder coçar meu nariz. Por um momento esqueci que não tenho braços!
Outro dia peguei meu pote de mistérios e esvaziei no quintal, eles ameaçaram voar, mas logo desceram e entram num buraco que, eu desconfio, deve ir parar na China.
Então meu tio Ovgen não conseguia mais dormir. Nenhum especialista do sono encontrou explicação pro seu caso. Era deprimente vê-lo perambulando pela casa com um cobertor na mão. Uma casa que ia se tornando enormemente grande, dilatada pelo calor do inferno. A solução aconselhada por um veterinário amigo nosso foi um colchão novo (tinha dado certo com bichos-preguiça e ursos polares), macio e firme ao mesmo tempo. Funcionou durante uns dias e aí meu tio comprou um king size que durou uma semana, depois um emperor size, um giant size e por fim um colchão ômega size, tão grande que só coube no jardim da vovó.
Quando estouraram as primeiras bombas meu tio não ouviu nada, pois dormia um sono hiperbárico. Sem ele acordado o microcosmo da casa desalinhou-se e minha avó resolveu entrar na banheira de meu avô e achou que a água não estava boa. Sob protestos do velho ela abriu a torneira até que transbordasse tudo, a água chegasse à cozinha, na sala, no meu quarto, vazasse pro jardim e transformasse o parquinho num parque aquático. Passei a morar no sótão, todos os dias tentava decifrar os ideogramas do livro azul chinês.
Um dia ficamos sabendo que outras nações estavam preocupadas com o avanço irrefreável dos tentáculos mandarins. Em meu país pessoas abriam mão de direitos por emprego garantido e diziam que devíamos copiar o modelo chinês de prosperidade onde todos se sacrificavam pelo progresso da pátria. O livro azul prometia paz e tecnologia se todos concordassem em “unificar suas mentes”. Pior, quando alguém sorria na rua era um sorriso azul. Quando já era um rapaz eu recusava as garotas que tivessem a língua azul. E quanto mais dizia não, mais elas avançavam, seus sutiãs se abrindo em franco desafio.
Passei a freqüentar os bares vermelhos. As garçonetes tinham uma queda por mim, acho que por causa do perfume de maracujá, herança do meu tio. Bebia grandes doses de enxofre por conta da casa, comecei a jogar, trapacear no jogo de arroz e te aprendi a sapatear com os veados e a tricotar com os ciganos. Em pouco tempo arranjei emprego numa fábrica de cadarços de sapato. Nunca mais voltei pra minha casa inundada, soube tempos depois que o bairro tinha virado um lago, ganhou o apelido de “Pequena Veneza”.
Mas a barra estava cada vez mais funda, meus amigos vermelhos foram sumindo, se obscurecendo, se tornando clandestinos. Havia resistência sim, mas o presidente já jurava fidelidade aos “mandamentos azuis e “chamava a família ao poder”. Éramos um feliz território azul.
Por essa época os “grandes irmãos da China” começaram a distribuir pílulas azuis, ofereciam principalmente aos rebeldes para que estes dormissem. Não havia luta, havia o amortecimento dos sentidos. Ás vezes voltava praça casa e topava com uma praça, um quarteirão inteiro em profundo sono. Mendigos, estudantes, homossexuais, imigrantes, todos dormindo.
Então houve uma rebelião dentro do próprio estado chinês, desencadeada por pessoas que queriam mudar. Houve pouca negociação por parte dos manda-chuvas mandarins. Houve um banho de sangue que foi abafado pela mídia. Outros países quiseram se aproveitar da situação e desencadearam um conflito em nível continental. Os Verdes contra os azuis.
Vi as cenas na televisão do ultimo boteco vermelho. Nuvens cinzentas pairavam sobre meu café da manhã. Não conseguia ler o horóscopo. Minha revista em quadrinhos favorita agora vinha escrita em chinês.
Larguei a fábrica no meio do expediente e fui a busca de uma messalina pra desestressar. Para minha surpresa a zona vermelha foi tomada pelos camaradas azuis. Levei um susto ao me deparar com um dos soldados que estendeu sua mão onde se podia ver uma brilhante pílula. Ele me ofereceu aquilo, pois já sabia pelo meu estilo que eu nunca toparia me alistar. Peguei uma coca-cola e engoli o dito cujo barbitúrico do mal. Via s putas passarem em fila indiana, meu Deus com esse povo adorava filas! E serem uma a uma colocadas dentro de um saco preto. E lembro-me do barman virar um macaco, da terra se abrindo e brotando uma escada rolante, um apresentador de auditório famoso narrar a minha vida e a visão perturbadora do meu irmão preso dentro de um enorme cubo de gelatina, sem falar no meu tio andando de camisola em cima do fogo. Tentei me levantar da cadeira e vi um tamanduá ficar de pé na minha frente, um tamanduá de calça jeans com um baita volume na virilha.
Acordei suado, berrando “Afastem esse tamanduá de mim!” e percebi que estava dentro de uma cratera ou uma trincheira, não sei ao certo. Escalei até a superfície e dei de cara com uma porção de corpos mutilados. A uns cem metros era possível ver uns soldados que pareciam paralisados, em transe. Percebi que o delírio tinha passado por que minha cabeça doía demais, o corpo todo latejava como se eu tivesse dormido mil anos na mesma posição. Depois de muita argumentação convenci minhas pernas a andarem. Percorri alguns metros cheios de soldados estáticos, pareciam estar brincando de “jogos mentais”. Demorou par dar de cara com algum civil, no caso uma moça de vestido azul com uma rosa na mão, bem clichê. Nem se mexia. Passei por um carro com retrovisor e me vi com uma barba de séculos. Devia ter passado muito tempo mesmo. Finalmente passei em frente a uma banca de jornal que era quase que um museu do “ultimo dia”. Um jornal dizia “Bomba de crack chinesa faz milhões de vítimas” e tinha uma foto mostrando hordas de zumbis com cachimbos na mão. A maioria dos bairros da capital foram isolados e declarados zonas de anomalia. A qualquer momento eu poderia cruzar com um zumbi do crack, um viciado radioativo e isso me gelou a espinha. Outro jornal anunciava a vitória do sonho chinês, com algumas pequenas baixas e quase sem nenhum dano a população.
Depois de horas cheguei num prédio onde o elevador misteriosamente funcionava. Do alto pude contemplar uma paisagem digna dos maiores games de guerra. Desci pelas escadas e topei com um homem cataléptico que segurava um maço de cigarros. Peguei um e fumei. Andei um pouco mais e achei uma máquina de refrigerantes, peguei uma moeda emprestada de um outro cidadão estático e tomei um guaraná diet. Achei um apartamento que tinha um chuveiro e tomei uma longa ducha, um banho que era pura obsessão, me esfregando como se tivesse com sarna, lepra e catapora.
Então a água caiu sem parar durante horas, não me lembro como, mas em determinado momento eu estava encolhido sobre meus próprios joelhos, maldizendo os azulejos, esperando que tudo aquilo inundasse imediatamente, que aparecessem meus avós numa banheira flutuante e me levassem de volta pra casa.
Ao invés disso, vi surgirem um a um soldados de uniforme azul, dizendo coisas em chinês, alguns deles vindo me pegar pelos braços e me levando pelos corredores do hotel. Por onde passávamos ia ficando o rastro negro daminha sujeira. Finalmente chegamos ao lado de fora e um médico de olhos puxados me examinou, concluiu que não era um zumbi do crack e me enfiou dentro de um furgão com outras pessoas assustadíssimas, entre elas um anão barrigudo, um a transformista e um rabino caolho. Rodamos por aí durante uma eternidade.
Em dado momento a transformista, uma senhora ou senhor, uma diva loira com colar de pérolas (algumas faltando) começou a cantar baixinho, como se fosse só pra ela. Depois foi aumentando a voz aos poucos e de repente ficou tão alta que não consegui focar meu pensamento em mais nada. Aquela canora loira de seios de plástico inundou o furgão com sua canção, quase um nascer do sol para nossos ouvidos. Quando dei por mim estava cantando junto e as outras pessoas também:
Meu mundo caiu E me fez ficar assim Você conseguiu E agora diz que tem pena de mim
Não sei se me explico bem Eu nada pedi Nem a você nem a ninguém Não fui eu que caí
Sei que você me entendeu Sei também que não vai se importar Se meu mundo caiu Eu que aprenda a levantar
Me liguei então de quem era aquela música, era da Maysa! No momento em que me ocorreu isso o furgão deu um baita solavanco e a nossa cantora que estava em pé e de braços abertos com aquele vozeirão caiu com tudo e bateu a cabeça. Pude ver sangue em seu rosto. Alguém lá na frente deu risada.
Fui para em outra fábrica, uma fábrica de pipas. Cada uma delas vinha com uma mensagem de coragem e estímulo aos fiéis seguidores do livro azul. Nós, os filhos da novíssima era não podíamos esmorecer, tínhamos um mundo a reconstruir! Pensei seriamente nisso, agora que mais da metade do planeta havia se transformado em zumbi, cabia aos sobreviventes limpar e reerguer a civilização, de acordo é claro com o modelo dos vencedores. Ao meu lado pessoas trabalhavam dias seguidos movidos a comprimidos azuis, os mesmos que eu fingia engolir e depois jogava fora.Essa idéias me trouxeram grandes sessões de enjôo estomacal. E num momento de maior fraqueza, disfarçando pra que os outros operários não percebessem, eu rezei. Rezei pra que Deus me enviasse um sinal, um milagre, qualquer coisa que me tirasse desse poço. E o milagre veio. Um dia me enrosquei sem querer numa engrenagem defeituosa da fábrica e tive meus braços amputados instantaneamente, minhas pernas ficaram inutilizadas e boa parte do meu corpo retorcido. Mas consegui ser liberado da fábrica.
Recebi uma pensão do Regime e pude ficar acoplado a um computador especial que me ajudava a realizar as tarefas domésticas e também me comunicar com as pessoas lá fora. E é claro, na primeira oportunidade usei isso para semear dúvidas e calúnias ao novo sistema. Descobri que ainda havia uma tênue camada vermelha no horizonte azul. Soube de grandes levantes em terras mais difíceis de dominar. O silêncio e a paz de onde estava na verdade eram falsos, haviam jogado panos sobre os rumores e as manifestações. Me senti uma peça nesse grande tabuleiro. Mas vocês me pegaram.
Faltavam alguns minutos pra certas coisas acontecerem, certos elos se romperem. É preciso dar um certo número de voltas pra alcançar o topo de uma montanha, uma grande escalada que na verdade é só um círculo. Aprendi isso lendo o Tao de vocês, ao invés do livrinho azul. Vejam só, seu ciclo já se completou, deu uma volta inteira, nosso ciclo está apenas começando.
Morrer é fechar roda, voltar ao princípio do nada, então os senhores fiquem a vontade em me desligar. Já dei as voltas que necessitava, sem sair do lugar. Passei abola e agora outros estão fazendo o jogo. Quando me dei conta das coisas, já era tarde demais pra mim. Felizmente vivi o suficiente para ver esse momento, ver em seus olhos, o quanto é tarde demais pra vocês.
Trinta segundos de respiração é o que tenho. Meu ultimo pedido é que, quando saírem, por favor apaguem a luz, eu detesto desperdício.