O modo tão familiar que os dois, mutante e criatura, se entendiam era decerto incômodo. Estrenuamente, Vincent permanecia a acariciar One, o brilho em seus olhos ou movimento dos dedos jamais fraquejando, como se as consequências de uma premissa de ataque não existissem. Poucas vezes, ou em precisão, nunca, desde o pacto, que o virá agir com tamanha gentileza e submissão para com outras pessoas que não fossem o próprio Aris. Teria enfim a fidelidade de One sido transferida a outro? Não, era apenas uma hipótese formulada pelos ciúmes e exaustão mental e física. “Roxinho“ zombou o magrelo, balançando a cabeça negativamente. “Se você soubesse do que ele é capaz, não empregaria esses apelidos delicados.” Riu em asco, pigarreando violentamente em seguida. One afastou-se de Vincent, saltitando à Aris e, em um milésimo de segundo, seu corpo fora tomado por forma irregular e gasosa, assumindo em sequência a aparência de um beagle de manchas roxas. Nesse estado, One lambeu o rosto de Aris, que o afastou um pouco estressado com o gesto repentino de carinho. O modo tristonho, e puramente encenado, que a criatura grunhiu foi o ápice para que o mutante bufasse zangado e fizesse uma carícia no topo de sua cabeça. “Seu nome é One. E ele é meu amigo, ao menos acho.” Assentiu, mirando Vincent e seus bolinhos. “E ele gosta de você, e isso me incomoda. One não costuma ser tão gentil com outras pessoas, não dessa forma, tampouco se revelaria para alguém.”
Houve um silêncio entre os dois, antes do roçar dos jeans do magrelo se fazer enquanto ele tentava se colocar sobre os pés. One estava sentando como um cachorro, admirando Aris como os animais faziam enquanto esperavam alguma ordem de seus donos. Adorável. “Qual é a sua?” Inquiriu, o estômago roncou um pouco alto, fazendo-o corar, entretanto, rapidamente retomara sua atitude e feições burocráticas. “Sei que você é um mutante, todos são, mas o que você tem de especial, ou melhor, o que você fez de especial para que One gostasse de você?”
"Não me trate como idiota. Já tenho uma boa idéia 'do que ele é capaz', se o jeito que estava agindo agora a pouco é alguma indicação." Vincent revirou os olhos, bufando. O garoto achava que ele era o que, cego? Tinha visto o modo afobado com que o ruivo tentava manter os olhos na criatura. Uma pessoa não se desesperaria dessa forma se a criatura fosse inofensi-
Esses dois tinham que parar de surpreendê-lo desse jeito, mal conseguia completar um simples raciocínio! Dessa vez, o motivo da parada abrupta em seus pensamentos foi a imagem do gato virando gás, e depois virando cachorro. Os próprios olhos, agora arregalados, tinham um brilho curioso. Ele já esperava que a criatura fosse capaz de algo parecido (afinal, de que outra forma teria se materializado do nada, quando se aproximou?), mas ver a transformação ocorrendo na frente de seus olhos era incrível.
Vincent levantou-se de sua posição agachada, aproximando-se de onde o outro garoto estava sentado. Balançou a cabeça com as interações entre a criatura e o garoto, achando-as um tanto engraçadas - o gato (quer dizer, cachorro) parecia querer propositalmente irritar o mutante. Encostou o ombro na parede, levantando as sobrancelhas ao ouvir o nome da criatura. One não lhe parecia um nome muito comum. "Não se preocupe, magrelo, não vou roubar ele de você. Não tem necessidade alguma pra tanto ciúme."
Encarou o ruivo, um sorriso de canto nos lábios. Resolveu simplesmente observar enquanto ele tentava se levantar, ignorando as perguntas confusas do outro ao ouvir o roncar de seu estômago. Riu, provavelmente mais alto do que deveria, antes de jogar o pacote de cupcakes para cima do colo do ruivo, antes do mesmo se levantar. "Pode ficar com o resto, não vou mais comer. O roxinho também pode pegar, se quiser." Colocou as costas contra a parede, cruzando os braços, o olhar fixo na parede a sua frente. "Ainda não sei o seu nome."














