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@arfemos
“O problema é que queremos que as pessoas entendam como estamos nos sentindo, mas a verdade é que nem nós mesmos sabemos. O problema é que existem pessoas que se importam, mas não acreditamos em nenhuma delas. É uma espécie de paradoxo. Fugimos na intenção de que alguém nos procure. Vamos embora na intenção de que nos peçam pra ficar. Não dizemos, mas queremos que percebam. É confuso, é complicado. O problema é sermos humanos, o problema é termos sentimentos.”
— Querido John.
Sabe quando você conhece alguém, e esse alguém surpreende todas as suas expectativas? Sabe aquele alguém que ilumina os seus dias, que faz com que cada pequeno momento se torne único, cada qual do seu modo diferente? Aquele alguém que te faz a pessoa mais feliz, com um sorriso, ou uma simples palavra de amor? Aquele alguém que quando está longe deixa saudade, falta? Que faz com que você pense nele a cada segundo, sendo o dono não somente do seu pensamento, mas também do seu coração? E faz com que tenhamos necessidade de tê-lo a todo momento perto de nós? Aquele alguém que você ama com todas as suas forças, e que faz com que esse amor só aumente com o passar dos dias, das horas, dos minutos, dos segundos? Aquele alguém todo especial, que te ama, te aceita como você é? Aquele alguém que a cada dia se torna mais importante, e que faz parte da sua vida de tal forma que você já não consegue imaginá-la sem ele por perto? Aquele alguém que rouba o teu sorriso mais sincero, que faz com que os seus olhos brilhem, e que seu corpo se arrepie por apenas imaginar um toque? Aquele alguém que preenche qualquer tipo de vazio, que faz com que você se sinta a pessoa mais completa apenas por tê-lo ali, contigo? Aquele alguém que você passa horas escutando sua voz ao telefone, e você nunca se cansa? Aquele alguém que você confia, que te protege, que te cuida? Demorou. Mas eu o encontrei.
Plenitude
— O.k. — falei. — O.k. — ele disse. Eu ri e repeti: — O.k. Aí a linha ficou silenciosa, mas não completamente muda. Era quase como se ele estivesse ali no meu quarto comigo, mas de um jeito ainda melhor — como se eu não estivesse no meu quarto e ele, não no dele, mas, em vez disso, estivéssemos justos numa invisível tênue terceira dimensão até onde só podíamos ir pelo telefone. — O.k. — ele disse, depois do que pareceu ser uma eternidade. — Talvez o.k. venha ser o nosso sempre. — O.k. — falei.
A Culpa é das Estrela
Acho normal. Acho perfeitamente normal lembrar com carinho que você sempre dava um jeito de me mandar mensagens em datas festivas. Estivesse você casado ou namorando ou ilhado num templo budista, dava um jeito. Era como se dissesse, sem dizer “eu sei que já faz tempo, mas ainda amo você”
Tati Bernardi
Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas a vida que as pessoas levam ou não até a sua morte. Não reverenciam suas próprias vidas, mijam em suas vidas. Idiotas fodidos. Concentram-se demais em foder, dinheiro e família. Suas mentes estão cheias de algodão. Engolem tudo sem pensar. Esquecem logo como pensar, deixam que outros pensem por elas. Seus cérebros estão entupidos de algodão. Toque para elas a maior música de todos os tempos e elas não conseguem ouvi-la. A maioria das mortes das pessoas é uma empulhação. Não sobra nada para morrer.
Charles Bukowski
A verdadeira morte não diz quando chega, e quem morre, não existe luto pela alma que se vai, porque ela volta e retorna ao mesmo lugar de sempre, acorda e prossegue no seu corpo vazio esperando a próxima morte que certamente virá cedo, talvez no banho, talvez na fila da padaria, ou à caminho da escola. Algumas pessoas morrem diariamente e não se dão conta, parece loucura? parece absurdo? Sim, realmente parece, talvez você tenha morrido duas vezes até chegar nessa linha, por que não? O ser humano não morre apenas quando seu coração para, não morre apenas quando seus órgãos dão falência, não morre apenas quando para de respirar - o ser humano também morre quando sua vida depende de algo que não se pode ter, o ser humano morre quando é inutilizado, banalizado, esquecido, quando não tem um objetivo, um propósito, um motivo. Pergunto, quantas vezes você morreu na semana passada? dez? vinte? talvez mais, você morreu com um olhar de desprezo, com o celular na mão esperando uma ligação que não chegou, morreu com um sorriso que não foi devolvido, você morreu quando acordou sem estar grato por ter levantado com saúde, morreu quando se acomodou dentro de um quarto fechado esperando que o mundo acabasse, morreu quando pensou que não era tão bom quanto imaginava ser. Morreu ao vestir uma tristeza que sufocou demais. Morreu quando deixou de sonhar.
Sean Wilhelm
As pessoas que resolviam as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. Mas a maioria das pessoas não podia esperar a sorte, por isso desistia.
Charles Bukowski
Sei que algumas coisas simplesmente se vão, e ninguém vai perceber o quanto as partidas me fazem sofrer, também sei que depois de um tempo estarei sozinho outra vez, abraçado ao sentimento de tristeza que me tornará uma pessoa mais cansada e menos sentimental. Já não espero que voltem, porque ouvir alguém dizer com gestos que tudo o que eu fiz foi uma fase que será apagada, são palavras não ditas que agridem e me calam. Não espero que alguém me estenda a mão em uma tarde nublada, me puxe pra longe da sombra e diga que sentiu saudade. Não. Eu não espero. Apenas vivo acreditando que sou forte o suficiente pra viver normalmente apesar de todos esses finais inesperados. Mesmo que eu não seja.
Sean Wilhelm
Não vou pedir perdão, não vou dizer o quanto eu sinto muito. Não vou abrir meu coração pra alguém que me fará confessar a parte mais fraca de mim. Hoje eu não quero perdoar, e ser perdoado, não quero confessar minha tristeza, minha mágoa, meu fardo. Hoje só quero colocar a cabeça no travesseiro e torcer pra que as coisas se ajeitem no dia seguinte, mesmo sabendo que elas nunca se ajeitam, só quero um pouco menos de mim, e dos outros. Cansei de ser quem pede, quem acredita, quem sorri com o coração na mão querendo ir pra longe de tudo, levando apenas minha incompreensão. Sinta meu arrependimento, mas não espere me ouvir dizendo. Ouça o que eu digo quando ninguém mais puder me ouvir. Meu bem, as palavras me sobram, mas hoje estou em falta.
Sean Wilhelm
Acordou, bocejou e esticou as costelas. Nada funciona nessa vida, ela disse. Nada funciona. Não abriu as janelas. Não arrumou a cama. Tomou banho no banheiro escuro, só depois acendeu a luz para se enxugar. Olhou-se no espelho por longos nove minutos. Ajeitou a franja com os dedos, e pôs a velha maquiagem de sempre. Pó extremamente branco e lápis extremamente preto, acentuando ainda mais aquelas olheiras horríveis de quem ficara a noite inteira chorando, chorando, chorando porque nada nunca funciona. Senhor, nunca dava certo. E queria que todo mundo visse que não dava certo, e que era culpa deles. Ela era um fruto do sistema podre. Era gorda, feia, magra, esquisita, caladona, alta, baixa, cabisbaixa, infeliz, atéia, crente, bipolar, agressiva, chata, bonita demais, vagabunda. Ela era tão você, não era? Foi para o colégio, não falou com ninguém. Todos uns idiotas. Sorrisos falsos. Felicidade forçada. Idiotas. E por que diabos nenhum idiota veio falar comigo ainda? Ninguém liga pra mim, ela pensava. É porque eu sou gorda, feia, magra, esquisita, caladona, alta, baixa, uma grande porcaria. É só por isso. Só por isso, só esse preconceito ridículo, só porque eu sou diferente. Sociedade hipócrita. Só porque eu assisto filmes épicos, jogo videogame, gosto de bonés, falo palavrão e uso camisetas duas vezes maiores do que eu. Só porque eu pinto meu cabelo de rosa choque. É por isso que eu gosto mais de bicho do que de gente, ela pensava. Viu essa citação num livro da Clarice Lispector que não entendeu nada. Livro idiota. Mas Clarice é legal, ela dizia. Gostava mais de bicho do que de gente, é… Menos das vacas. E das piranhas. Bichos desgraçados. Ela também gostava de dizer que não amava ninguém, mas espremia a camiseta da banda de rock que ela mal conhecia toda vez que via aquele garoto bonito, que ela até que gostava, mas não, não podia dizer. Todo mundo gostava dele então ela não gostava, porque ele era idiota. E também não gostava dos cachorros pulguentos que passavam por ela na calçada quando ia embora pra casa, sem falar com ninguém. E sabe o que ela detestava mais do que gente? Funkeiro. É, porque funkeiro não é gente. O gosto musical dela era o máximo. O máximo. Pregava a paz e xingava o governo por toda essa maldita desigualdade social, porque ela era diferente e gostava de John Lennon, Gandhi e Bob Marley. Mas funkeiro, por favor, merece levar um tiro na cara. Gentinha idiota. E voltava pra casa. Batia a porta com força, sabe-se lá o motivo. Dormia, comia, ia para o computador, anotava as frases e as letras de música que gostava num caderninho cheio de caveira, porque ela era diferente. Eu sou um lixo. A vida não presta. Nada funciona. Mas quer saber, que se dane-se. Porque ela tinha muita atitude. E fechava a tela do notebook, chorava, chorava, chorava, chorava porque nada funcionava. Ou porque não tinha nada melhor pra fazer. Ninguém ligava pra ela. Nenhuma mensagem. Nada. Só porque ela era gorda, feia, magra, esquisita, caladona, alta, baixa… Ela era a grande porcaria, dentro de um quarto escuro, mofando feito um cavalo velho, esperando um dia mais legal pra morrer, porque aquele… Já era. Ela podia ser legal, só não gostava de admitir. Gostava de ser diferente. Acordou, bocejou e esticou as costelas. Uma grande porcaria.
Cinzentos