Já era esperado que ARSEN RHAEGAL KACHALOV viesse para a Ilha de Treatan, afinal, ele é um GRÃO-DUQUE vindo da LETÔNIA. Não que seja elegante perguntar, mas sei que ele já conta com seus TRINTA E QUATRO anos, e não esconde a fama de EGOCÊNTRICO, mas é sabido que seu lado ASTUTO compensa. Se não tivesse sangue azul, eu diria que é um descendente direto de MATTHEW NOSZKA, porque não poderiam ser mais idênticos!
Ninguém nasce príncipe — alguns apenas aprendem a agir como um.
Arsen nasceu no silêncio úmido de um orfanato, esquecido antes mesmo de ser nomeado. Filho bastardo, rejeitado, aprendeu cedo que o mundo não dá abrigo aos que não sabem arrancá-lo à força. Teve fome, aprendeu a roubar com a mesma facilidade com que respirava, e ali, entre crianças vermelhas e mãos inquietas, moldou-se.
E talvez o destino — ou um tipo torpe de ironia — tenha sorrido para ele quando os Grão-Duques da Letônia, ainda em luto pelo herdeiro morto num acidente de carro, decidiram adotá-lo. Escolheram-no não por piedade, mas pela semelhança grotesca: olhos, queixo, uma inclinação familiar da cabeça… Um substituto. Vestiram-no com as roupas do falecido, impuseram-lhe os mesmos gostos, a mesma rotina, os mesmos sorrisos para fotos de família. Ele sobreviveu — como sempre. Engoliu a comida cara (descobrindo, quase tarde demais, que era alérgico a amêndoas), sorriu para as visitas, e fez o que sabia fazer melhor: fingiu.
Mas o menino que roubava maçãs no orfanato nunca morreu. Ele só aprendeu a roubar coisas maiores. Como vingança, como vício, como uma forma de lembrar a si mesmo que não era deles, nunca fora, nunca seria. Por trás do grão-duque impecável, dos discursos treinados e dos gestos ensaiados, esconde-se um homem que coleciona crimes silenciosos: joias, documentos, corações — tudo que possa carregar consigo e depois largar como quem diz: “Nada disso me possui”.
Arsen nunca foi afeiçoado ao sentimentalismo. Frio, insolente, dono de uma ironia afiada o bastante para cortar qualquer tentativa de aproximação, ele aprendeu que o distanciamento é o único escudo infalível. Raramente demonstra mais do que quer, e quando o faz, é para manipular ou provocar. Não há espaço para piedade em seus movimentos calculados, nem para arrependimentos em seus sorrisos enviesados.
Ele fala pouco, mas quando fala, a palavra é afiada, feita para desmontar, expor fraquezas. Não confia em ninguém — e despreza quem confia facilmente.
Ainda assim, há algo nele que sempre escapa ao controle: um desejo silencioso e mal disfarçado de ser visto de verdade, não como o substituto, não como a réplica, mas como o único Arsen que existe.
Na Althara, joga o jogo mais perigoso de todos: quer desmascarar a própria farsa. Revelar que não é o herdeiro biológico, expor os pais adotivos, e, acima de tudo, tomar o trono — não como usurpador, mas como um homem que jamais pediu permissão para existir. Não quer ser aceito. Quer ser temido. E, talvez, quando estiver no topo, consiga sentir algo que nunca sentiu: pertencimento.
Mas até lá, seguirá como sempre fez — roubando, enganando, seduzindo… e desaparecendo antes que possam detê-lo. Afinal, Arsen nunca foi de ficar onde não é desejado. Só onde pode causar o maior estrago.
O peso da raiva latejava nos punhos fechados, e o calor da arena subia pela pele como uma febre contida. Se sentia exposto demais com aquela fantasia de merda, ainda que em teoria ninguém soubesse que era ele. E talvez isso também fosse parte do problema, ainda que jamais fosse admitir. Havia encontrado aquele local por acaso, e era com asco que observava os pratos voando em arco e os bonecos encantados sendo destroçados. Aquilo não parecia o suficiente, e talvez não fosse para um garoto criado nas ruas. Ele não queria alívio fácil. Queria resistência. Queria o choque da dor devolvida. Afastou a multidão sem muita delicadeza, apropriando-se do centro da arena. Um meio sorriso lhe curvou os lábios, frio, quase provocativo. O gesto de mão foi simples, mas carregado de desafio: chamando alguém para o círculo. ❛ Venha. ❜ Disse, a voz grave e alta para chamar a atenção. ❛ Lute comigo. ❜
As ruínas não pareciam as mesmas de uma semana antes, não com aquela decoração espalhafatosa e, bem, tudo aquilo. Porra, o lugar também parecia mais quente, mesmo com os longos vitrais abertos e o ar fresco da noite entrando. Talvez fosse aquela maldita gola, e ele passou os dedos ao redor do colarinho como se pudesse afrouxar a roupa que o incomodava. Precisava de mais uma bebida, e por isso se movia entre os convidados para alcançar um local menos abarrotado. Foi quando ergueu o copo — um líquido rosado — que algo dentro dele estremeceu. Não por causa da bebida, não por causa das máscaras. Foi porque a viu.
Entre todas as fantasias extravagantes, entre os véus e as coroas improvisadas, ela era impossível de ignorar. Principalmente porque invés de uma máscara, ele era capaz de ver sua verdadeira face. Os olhos dele a reconheceram antes que a mente entendesse. Um puxão estranho, visceral, como se o corpo gritasse uma lembrança que não existia. O coração disparou, as mãos ficaram frias, e por um instante o fio que o prendia às cordas de boneco pareceu arrebentar.
Sofiya. O nome não escapou dos lábios, mas queimou na língua. Porra. Que merda era aquela? Era incapaz de reconhecer nas memórias algum momento que justificasse o reconhecer. Não havia nada que explicasse o arrepio que percorria a espinha, ou o nó que travava a garganta. Deu um passo na direção dela, cada músculo ensaiado na postura de lorde, mas por dentro era só confusão crua. Como se já tivesse segurado aquela cintura antes, como se já tivesse escutado aquela voz sussurrando para ele. ❛ Bela máscara, alteza Sofiya. ❜ E da forma mais banal que pôde, imprimiu o reconhecer.
Arsen recebeu em sua caixa, roupas nobres impecáveis, com uma camisa branca de gola alongada, colete bordado a mão e um fraque também bordado, dignos de uma realeza mais tradicional e até pomposa em excesso. Quase como se fosse uma piada. E o era. Bastou que se vestisse com as roupas para que surgissem fios em tom cru, presos aos braços e pernas do Kachalov, como se estivesse sendo manipulado por alguém acima. A maquiagem também surgiu depois, com traços descendo pelos cantos de seus lábios e o assemelhando a um boneco de ventríloquo. Foi quando percebeu o que era seu maior medo, sua sentença: continuar sendo um peão naquele jogo, nada mais.
Odiava admitir, mas reconheceria aquela voz em qualquer lugar. Não importava a máscara, a pose, o tom ensaiado, ele sabia a identificar de longe. Capitolina. Metida, intocável, sempre envolta em luxo como se o mundo fosse feito para os pés dela. E o pior de tudo? Ela o rejeitara. Não apenas a ele, o “grão-duque impostor”, mas ao garoto de rua que ainda residia em si. Rejeição não doía mais — ele tinha aprendido cedo a engolir o orgulho e seguir em frente. Mas dela, com aquele ar de superioridade, tinha se tornado uma ferida que latejava toda vez que ele a via sorrindo por trás do maldito véu.
O salão parecia congelar ao redor quando os olhos dele a encontraram outra vez. O tecido púrpura leve cobria o rosto, escondia o que devia ser perfeito. E por que escondia tanto? Medo? Vergonha? Ou só mais uma maneira de se manter inalcançável, intocada, como o tipo de coisa que nunca seria para gente como ele? Arsen sorriu. Aquele sorriso cheio de ironia, que não tinha nada de verdadeiro, mas que ele sabia usar. Os passos foram lentos, quase preguiçosos, como se não houvesse nada de errado em atravessar o salão inteiro com os olhos cravados na princesa angolana. A cada movimento, o coração batia um pouco mais rápido, não de ansiedade, mas de raiva. Porra, por que ela conseguia provocar aquilo nele?
A mão dele se ergueu sem pressa, dedos firmes, calejados da rua, agora enfeitados por um anel que não significava nada. Segurou a beira do véu, o tecido macio queimando entre os dedos. Por um instante, o mundo pareceu segurar a respiração com ele. ❛ Acabou o teatrinho, alteza. ❜ O murmurou foi baixo, apenas para ela ouvir. E então, ele puxou. Um gesto simples, mas carregado de toda a fúria de um garoto que se recusa a ser diminuído. O véu deslizou, leve como ar, caindo entre os dois. Arsen sentiu o coração socar contra o peito, o estômago virar de dentro pra fora. Um arrepio atravessou-lhe a espinha. E então... o rosto dela. Porra. Ele não estava preparado. Nem mesmo ele sabia o que ia encontrar — perfeição? cicatrizes? algo humano demais, ou divino demais?
O ar escapou de seus pulmões em um suspiro que continha todos os sentimentos jamais proferidos. Era a inquietação da saudade, a aflição de perdê-lo novamente, o desamparo de quem precisara observá-lo à distância e a paixão que jamais havia abandonado seu interior. Era tudo aquilo e muito mais do que Sofiya poderia assimilar. Seu toque tornou-se mais ávido, necessitado, ao passo que o corpo buscava fundir-se ao dele em um único. E aquele beijo era muito melhor do que qualquer memória que a herdeira poderia reproduzir na própria mente - ou mesmo do que as fantasias que preenchiam seus sonhos noite após noite. Era real. O cheiro - fresco como a brisa do campo - era ainda mais inebriante do que ela se recordava, o toque cálido continha a pressão exata para arrancar-lhe o ar e a firmeza de seus lábios ainda tinham o sabor das juras de amor que haviam trocado em uma outra vida. Uma vida em que eles poderiam ter sido felizes. Em que ela poderia ter sido feliz. Então, era assim tão errado que se visse presa àquilo? A ele? A água da fonte dos pecados ainda queimava em seu interior, respondendo um sonoro não ao lhe impelir a se entregar a tais desejos. "Senti sua falta." A verdade escapou em meio a um sussurro sobre a boca masculina, suas testas ainda coladas, como se Elena fosse incapaz de suportar a possibilidade de um novo distanciamento. Não agora.
Ele sentiu o sussurro dela se dissolver contra sua boca, tão quente quanto o beijo que o antecedera. “Senti sua falta.” Não eram palavras que faziam sentido para ele, mas era incapaz de empregar atenção naquele fato no momento. A mão dele, já firme em sua cintura, a puxou mais para perto, o corpo reclamando proximidade como se o espaço entre eles fosse uma ofensa. Os lábios se moveram contra os dela com a cadência de quem não sabia se queria devorá-la ou prolongar o momento até que o mundo acabasse. A pressão aumentou, quase faminta, e a língua encontrou a dela num encaixe quente, úmido, que carregava um desejo que não sabia possuir sobre a princesa. Ele sabia que havia câmeras, e talvez por isso, à contra gosto, afastou-se brevemente, mas não sem antes selar os lábios aos dela uma vez mais. Com a testa colada à dela, a respiração ligeiramente ofegante, ele permitia que o perfume adentrasse suas narinas, preenchendo-se de Sofyia. ❛ Sinto muito por isso, alteza. ❜ Comunicou finalmente, os dígitos agora estabelecidos nos braços femininos, afastando-a minimamente de si. Aquele beijo poderia manchar toda a reputação de Romanova, e estragar quaisquer que fossem os planos dela para a althara.
não era de todo incomum que capitolina se sentisse deslocada em eventos sociais. por mais extrovertida que fosse, o véu que cobria seu rosto, sempre que estava em público, criava uma barreira entre ela e os outros. enclausurando-a em um lugar quase que inatingível para outras pessoas. por mais que fosse uma parte constante de sua vida, desde que entrara no reality o véu vinha se tornando uma gaiola, amarras que privavam a princesa de encontrar um amor e se livrar de vez daquela prisão. — isso parece extremamente apetitoso. — comentou, em um tom animado, ao sentir alguém se aproximando escondendo com mestria seus reais sentimentos. — vou pedir que separem alguns para que eu possa experimentar depois.
Arsen não precisou de mais que dois segundos para reconhecê-la. Claro que o véu a denunciava e, para ele, reforçava a postura de princesa intocável. Ele já tinha visto fotos demais dela nas redes para saber o tipo. Vestidos caros, joias pesadas, um cenário diferente a cada semana… como se a vida fosse um catálogo interminável de luxo. E o mais engraçado? Ela achava que isso era normal. ❛ Aposto que você fala isso de tudo que vem servido numa bandeja de prata, alteza. ❜ Ele se aproximou o suficiente para que a diferença entre eles fosse quase palpável, um sorriso enviesado reforçando o ligeiro deboche. Ele, com o perfume mais barato que sabia usar bem, e ela, com aquele aroma que provavelmente custava mais do que o aluguel de um mês inteiro no bairro onde ele cresceu. Não que qualquer pessoa ali soubesse que ele vinha do cortiço. ❛ Posso adivinhar… vai provar só depois que alguém experimentar antes, né? ❜ Provocou, o olhar fixo, como se conseguisse ver através do véu — mas não conseguia.
O mundo mergulhou em escuridão tão logo a água da fonte passou por sua garganta. E, presa às suas memórias, a herdeira ouviu a risada melódica mesclar-se ao quebrar das ondas, tão calorosa quanto a tarde do verão espanhol. Seus dígitos entrelaçaram-se aos de Arsen, calejados porém com a firmeza que havia se tornado sinônimo de lar. E seus olhos... Ah, a tonalidade verde azulada capaz de tirar-lhe o fôlego. Ela morreria por apenas mais um segundo daquela troca. E foi essa a última imagem a ocupar sua mente antes de Sofiya fixar a atenção sobre a fonte dos pecados novamente. A respiração descompassada preencheu o ambiente em uma sinfonia de inquietação e a temperatura febril de sua pele foi a responsável pela urgência em suas passadas. A princesa não sabia ao certo o que fazia, tampouco compreendeu como fora capaz de encontrá-lo com tamanha facilidade, porém, antes que se desse conta de seus atos, a morena se viu puxando o duque para perto, agarrando-se a ele como se pudesse evitar que seu futuro escapasse por entre os dedos. E a familiaridade de seu cheiro foi o que bastou para que a Romanov se entregasse à intensidade de seus desejos, tomando-o no mesmo beijo apaixonado que costumava preencher as noites ao seu lado.
Foi como se o ar tivesse mudado antes mesmo que ele a visse. Um calor súbito subiu pela pele, acendendo cada nervo com uma familiaridade desconfortável, como se o corpo tivesse memorizado algo que a mente não era capaz de alcançar. Arsen não teve tempo de processar; no instante seguinte, ela estava ali — próxima demais, intensa demais. O puxão veio rápido, e ele cedeu no mesmo ritmo, o corpo respondendo antes do pensamento. A mão dele encontrou o contorno da cintura como se já conhecesse o caminho, firme o bastante para prendê-la, suave o bastante para convidar. Havia algo errado ali — errado porque era certo demais para ser coincidência. O beijo o pegou de surpresa, mas ele não era o tipo que recuava de um presente desses, independente de estarem em um holofote pelo ato ousado. A princípio, foi instinto; depois, técnica. Arsen aprofundou o contato com a naturalidade, os dedos afundando contra a pele macia de sua cintura, para que pudesse mantê-la perto. Sentia o gosto dela, a respiração que acelerava contra a sua. E, no fundo, ele sabia que não eram só eles dois. Câmeras. Testemunhas. O mundo assistia a futura rainha de Belarus se agarrar a um duque como se fossem dois amantes reencontrados. O lado racional dizia que aquilo era um risco — político, pessoal, tudo junto. Mas havia também um certo gosto de perigo no fundo da língua, um orgulho silencioso que sussurrava: ela escolheu fazer isso, sabendo que todos veriam.
gaspar era muito paciente. depois de todo o seu passado, ele tinha que ser. aceitava as loucuras do althara da melhor maneira que podia. ele tinha um objetivo e um objetivo apenas. ele agora estava com um copo em mãos, bebida um tom meio roxo, meio azul, conforme olhava para o palco. ele sabia que sua vez chegaria e não estava nem um pouco animado para isso. a pergunta que pairava em sua mente era: 'quem vai querer pagar por alguém como eu?'. fora as poucas pessoas que achavam ele bonito e isso lhes bastavam, a maioria sabia quem ele era. de que país vinha. então duvidava que seria uma opção interessante. e, acima de tudo, aquela ideia era estúpida no geral. escutou o comentário do outro e concordou com a cabeça, sua expressão fechada. “eu também queria... mas quando que é piada com essa gente?” ele bebeu mais um pouco. não estava bebendo muito, visto que seu foco não era em perder tudo e passar vergonha, mas até ele precisava de um leve impulso alcoólico para aguentar ser leiloado. “eu me sinto um pedaço de carne e olha que se tem algo que eu entendo é leilão de gado.” suspirou, derrotado.
Arsen ergueu uma sobrancelha, inclinando-se levemente contra a mesa ao lado de Gaspar, girando a própria taça entre os dedos como se o líquido ali fosse mais interessante do que realmente era. O tom roxo-azulado refletia na íris dele, e um sorriso enviesado cortou o rosto. ❛ Ah, mas não se menospreze assim. ❜ Disse, como quem oferece um elogio, mas com uma ponta de deboche. ❛ Você é mais do que um pedaço de carne… é carne de qualidade. ❜ Deu um gole lento, analisando o palco com o mesmo tédio que já estampava desde que chegara naquele baile. Não fazia a menor lógia em sua cabeça, o que acontecia ali. ❛ Ouvi dizer que nos farão desfilar, e apresentar algum talento oculto. Você sabe se isso pe verdade? ❜
ᘛ featuring : @arsenicohumano
ᘛ scenary : jardim das luminárias
❛ you scared me! ❜ em um momento normal, essa frase viria acompanhada de uma carranca —— ou, sendo mais honesta, jamais sairia de seus lábios. a princesa italiana, afinal, é atenta demais, orgulhosa demais, para se deixar ser surpreendida por alguém que surge entre os arbustos como um fantasma de filme decadente. ao invés disso, ela se pega rindo —— um riso solto, leve, tolo até, e denotado de uma sensação de paz inexplicável que se instala como se sempre tivesse pertencido ali.
Se era difícil manter a farsa sobre quem era normalmente, em um lugar como althara parecia dez vezes pior, e ocasionalmente ele sentia a cabeça latejar, como naquele momento. Quando isso acontecia, precisava respirar ar fresco e ver-se longe daqueles nobres nojentos. Também sentia a mão coçar, suspeitando que um pequeno furto fosse capaz de fazer seu coração desacelerar, mas com tantas câmeras posicionadas, acreditava não ser o momento mais oportuno. Quando chutou o cascalho, com as mãos enfiadas no bolso e a brisa da noite finalmente preenchendo seus pulmões, assustar a italiana não fazia parte do plano. ❛ Foi mal. ❜ A resposta informal seria reprovada pela mãe adotiva, se é que podia chamá-la assim invés de sequestradora, e por puro reflexo ele abaixou a cabeça ligeiramente, como se desviasse de um tapa que não aconteceu. ❛ O que faz aqui fora, sozinha? ❜ Não era de sua conta, evidentemente. Mas era educado puxar assunto. Mesmo quando a beleza alheia o deixava mais... retraído.
O Choi estava muito bem sentado em cima de uma rocha enorme, não foi fácil subir ali, mas dava uma boa visão e ele queria também ver novos jeitos de perturbar os outros caçadores enquanto não achava um medalhão para chamar de seu. Depois de dar uma direção completamente errada e ver o outro cair com o pé em um buraco de uma armadilha que o Choi viu um vermelho fazer mais cedo, ele apenas riu e não moveu um músculo para sair de onde estava e ajudar. ❝Cara, pior que vou te falar que não? Que que é? É de comer? Faz bem pra pele?❞
Era um idiota por ter confiado, agora ele sabia. Mas existia algo no Choi, uma aura quase inocente, que não o fez desconfiar de suas intenções. E agora se dava mal por isso. ❛ Tsc. Claro que não. Você deve ter pulado essa parte quando aprendeu a andar em linha reta sem tropeçar no próprio ego. ❜ A resposta veio entre dentes, enquanto ele puxava o tornozelo com força pra livrá-lo da armadilha, ignorando o rasgo na barra da calça e o sangue que começava a escorrer. Pouco, mas incômodo. Baek era exatamente o tipo de gente que ele não suportava — bonitinho demais pra ter sido espancado por um guarda com o cinto de couro, ou deixado num porão mofado por “desobedecer ordens”. Um príncipe importante para seu reino. O tipo que brincava com o sistema porque nunca precisou se esforçar pra existir dentro dele. Arsen se ergueu, apoiando o peso numa perna só, mas com um sorrisinho no canto da boca. ❛ Não se preocupa. Eu vou lembrar disso quando for minha vez de te empurrar numa vala. Prometo que vou rir igualzinho. ❜ Bateu nas roupas para remover a poeira, o sorriso ácido ainda presente nos lábios.
Não era o melhor momento pra reencontros — e Arsen sabia bem disso, considerando que estava, tecnicamente, no meio de uma caçada mágica, no meio de uma floresta maldita, no meio de uma ilha. Mas bastou ver a silhueta conhecida à distância pra esquecer do mapa nas mãos, do medalhão ilusório, da estratégia. Melinda estava fugindo, pelo que sabia, depois de algum parente ter dado o golpe em seu país. E agora achava cômico que fosse ela a única que ele teve a audácia de roubar... e a infelicidade de ser pego. O acordo entre eles ainda ardia feito uma ferida recém-costurada. Ele não confiava nela — e duvidava que ela confiasse nele também. Mas, de alguma forma torta, havia uma trégua. Uma corda bamba onde ambos pisavam. Arsen a observou por um segundo longo demais antes de abrir caminho entre os galhos, sem pressa. E quando finalmente se fez notar, o sorriso veio antes da voz — aquele sorriso irritantemente displicente que ele usava como armadura. ❛ Se estiver preocupada com seu medalhão, posso garantir: eu sei esconder muito bem coisas, então posso te dar dicas de onde procurar. ❜ O olhar fixo nela, brincando, mas com algo mais por trás. Medo, talvez. Ou só o maldito desconforto de dever uma dívida a alguém que tinha menos a perder do que ele.
* Ostentosa. De queixo erguido e postura perfeitamente ereta, Florence não demostrava uma emoção sequer — exceto o frágil vislumbre de ressentimento e surpresa no olhar — quando se deparou com a figura do rapaz em meio à sua busca. Permaneceria naquele silêncio inquietante por quanto tempo fosse necessário, se este se provasse efetivo em afastá-lo dali sem que nenhuma troca de palavras se fizesse necessária. Não seria ela a recuar, fosse por orgulho ou por estar empenhada em continuar com os planos guiados pelo mapa carregado em mão. Ora, aquela era a região que havia mapeado para dar seguimento à caçada por um medalhão! Arsen que a deixasse em paz e procurasse por outro espaço para invadir. O som do pigarro, inesperado, interferiu no ritmo de sua respiração. O ar que invadia os pulmões agora trazia com ele a inevitável cólera. Não, ele não se atreveria a dizer algo. Era um covarde, afinal. Sem a oportunidade de reprimir o peso que se alojava no peito, o olhar ferino da princesa encontrou o dele, milésimos após o cumprimento patético tocar o ar. “ ── Oi?! ” Sibilou a indignação. “ ── Vejo que tive sorte em te conhecer no seu auge, porque, se o melhor que me pode oferecer agora é um "oi"... Uau! ” Despejava seu ressentido sarcasmo, mas sem alterar o tom de voz ou perturbar a serenidade do cenário que os rodeava. “ ── Não se atreva a interferir na minha caçada. Quem sabe a sorte não me sorri, e eu encontro o medalhão de alguém que saiba valorizar melhor o meu tempo. ”
Ela podia estar com raiva. Podia cuspir veneno em cada palavra. Mas, pelo menos, estava falando com ele. E isso, por mais fodido que fosse, ainda era melhor do que o vazio que ele teve que engolir todo esse tempo. Arsen não se moveu. Não recuou. Fingiu que o veneno não queimava. A verdade? Queimava pra caralho. Mas, no meio daquela floresta mágica, onde tudo era disfarce, armadilha, ilusão… Florence ainda era a única coisa que parecia de verdade. E mesmo que a cada palavra dela, se sentisse vinte centímetros mais abaixo da terra, porque ela estava certa, ele ainda se mantinha ali. Ah, Florence. Ela era boa nisso: tornar ele pequeno sem sequer levantar a voz. Mas o idiota ali era ele, não? Que voltou a olhar pra ela como se fosse algo que ainda podia alcançar. Que ainda valia a pena tocar. Ele respirou fundo — teatral, também. Como tudo que fazia agora. O Arsen de verdade, o moleque de rua, estava engasgado por trás do pescoço ereto e das roupas de marca. Queria dizer que sentia falta. Queria dizer que a tinha deixado pra protegê-la. Queria, queria, queria — mas foda-se querer, aquilo não era segurança. ❛ Uau! ❜ Repetiu ele, quase com gosto. ❛ Então ainda sabe falar com classe mesmo quando quer me degolar. Isso é… reconfortante. ❜ O sorriso não tocava os olhos. Ele não deixou. ❛ É, você tem razão. Meu "oi" foi uma merda. Mas… pelo menos foi sincero. ❜ Deu uma pequena escorregada no papel que interpretava, de grão-duque, deixando o menino de rua tomar a dianteira. Mas logo se conteve, enfiando as mãos no bolso em garrote, como se pudesse se controlar. ❛ Alguém que valorize seu tempo? Você já foi mais ousada, Florece... ❜ Provocou, apenas porque era covarde pra enfrentar o que sentia, mas ainda mais covarde pra deixá-la ali sem mais nada. E se ela quisesse gritar, insultar, mandar ele ir pro inferno — que mandasse. Ele aceitaria. Pelo menos, ela ainda estaria olhando pra ele.
❛ Ah, não... ❜ O suspiro saiu antes que ele pudesse controlar. Teatral, mas não tanto. Só o bastante pra parecer sincero. ❛ Justo você, alteza? ❜ Arsen deixou os ombros caírem um pouco, como se realmente lamentasse. Como se não fosse exatamente o tipo de ironia que ele colecionava. Lá estava ela: Lucrezia, herdeira do trono italiano, rainha não-corada e ladra de paz alheia. Ela também havia sido sorteada como Caçadora. ❛ Esperava, com alguma esperança tola, que você fosse uma 'coração.' Teria sido… poético. ❜ Ele girou o mapa cerimonial nas mãos, distraído. Os dedos longos e habilidosos passando pela borda como quem folheia um segredo. Os olhos, no entanto, estavam nela. ❛ Que tal um acordo diplomático, hein, Vossa Alteza? ❜ Disse, arqueando uma sobrancelha. ❛ A floresta é traiçoeira. Inconstante. Talvez nossos mapas tenham pontos diferentes. Podemos trocar. Só por curiosidade… cultural. ❜
O mapa tremia levemente entre os dedos — não por medo, mas por irritação. O maldito traçado parecia mudar cada vez que piscava. Uma trilha surgia, outra sumia. Arsen bufou, irritado. A floresta de Treatan era um teatro mal montado, com cenário vivo demais e lógica de menos. E ele? Um figurante desgraçado tentando não tropeçar. Estava tão concentrado no maldito papel, tentando decifrar o sussurro que dizia "procurar um coração", que não viu. O corpo. A presença. Só sentiu o impacto. O ombro encontrou outro com força — firme, inesperado. Um baque seco no meio do caminho. Arsen deu um passo pra trás, a mão instintivamente indo à cintura, mas daquela vez não tinha uma adaga consigo, diziam que não precisaria de armas ali. Porra, a rainha viúva. ❛ Majestade. ❜ O tom saiu liso, cortês. Ensaiado até o osso. Mas o olhar… o olhar estudava. ❛ Perdoe minha falta de visão. A floresta decidiu esconder o caminho, ou talvez o mapa tenha ficado envergonhado. ❜ Os olhos deslizaram por ela, avaliando com a precisão de quem conta moedas roubadas. Não havia fraqueza visível. Nada de tremores. Nada de culpa. A mulher era feita de aço e perfume caro. E, caralho, isso só o deixava mais curioso. ❛ Espero não ter causado nenhum arranhão. Seria um desperdício… ❜
Os dedos estavam quase rasgando a casca da árvore. Galho, tronco, galho, espinho. A porra da madeira arranhava o braço como se tivesse prazer nisso. Mas o medalhão brilhava no topo, feito isca dourada pra um idiota faminto. E Arsen era o rato da vez. Subia como quem nasceu em telhado de zinco, cada movimento ensaiado — só que o sangue fervia, a respiração queimava a garganta e o orgulho… bom, esse já tinha ido pro caralho há três metros. Mais dois galhos, e estava lá. O medalhão. Suspenso por uma corrente. Leve, oscilando na brisa como se zombasse. Ele esticou o braço. Pegou. Nada. A porra do medalhão virou poeira nos dedos. Uma ilusão. Uma ilusão, caralho. Fechou os olhos. Engoliu o palavrão com gosto de sangue. Quase riu. Quase quebrou um galho só pra ver a árvore desabar com ele junto. Quase. Mas então viu. De cima, entre os ramos e a névoa, o vulto de alguém. A futura rainha. A lembrança de algo que ele nunca viveu — e que mesmo assim apertava o peito com força de saudade. Ela não estava olhando pra ele. Não ainda. Mas ali, cercada de bruma, parecia… certa. Conhecida. E ele odiava isso. Odiava porque lhe causava sensações esquisitas. Por que porra doía olhar pra ela? Por que, quando ela passava, o corpo dele queria ficar e fugir ao mesmo tempo? Desceu um galho. Outro. Ela ainda estava lá embaixo, provavelmente procurando por um medalhão também. ❛ Não se assuste, alteza, mas irei pular. ❜ Anunciou por educação, antes de realmente pular os centímetros faltantes, encontrando-se, finalmente, ao lado dela. ❛ Já encontrou o que procurava? ❜