O triste fim do homem que nunca trabalhou, gastou tudo em festas e morreu pobre
A primeira vez que ouvi falar de Jorginho Guinle foi há uns 20 anos, lendo a matéria de uma revista. O playboy, herdeiro do Copacabana Palace, o mais luxuoso e famoso hotel do Rio de Janeiro, gabava-se de nunca ter trabalhado, e dizia ter torrado a sua fortuna em festas, viagens, mulheres, comida, bebida, tudo do bom e do melhor que o dinheiro poderia comprar. Porém, tinha errado a conta: achava que viveria 75 anos, mas continuava saudável depois disso, falido, sem um tostão furado no bolso (faleceu aos 88 anos, em 2004).
Lembro da reportagem ter causado uma sensação de repulsa – um sujeito assim era o oposto de tudo o que eu acreditava ser uma vida nobre, aquela de dedicação a um trabalho decente e honesto, de querer plantar sementes para outros colherem ao invés de apenas consumir todos os frutos para mim sem ter plantado nada.
A família Guinle era mais fabulosamente rica do que apenas o Copacabana Palace. O início foi com a fundação da Companhia Docas do Porto de Santos. O comércio internacional no início do século passado gerou uma fortuna imensa à família, que também investiu em uma série de outros negócios, envolvendo desde eletricidade até bancos.
Pertenciam à família Guinle, entre outros:
- O Palácio das Laranjeiras, em Botafogo, hoje residência oficial do governador do Rio de Janeiro
- A Granja Comari, em Teresópolis, que hoje é utilizada pela Seleção Brasileira de Futebol
- O Jóquei Clube do Rio de Janeiro
- O hotel Copacabana Palace
Essa foi a época das festas, viagens caríssimas à Europa, romances com atrizes de Hollywood (Rita Hayworth, Jayne Mansfield, Marilyn Monroe), casamentos, joias caras, restaurantes luxuosos.
A seguir ocorreu o declínio gradual dos negócios da família, a morte do pai, a venda de ativos para continuar a manter o alto padrão anterior.
Nesse ponto, notei algo. Essas frases de efeito de Jorge Guinle, de nunca ter trabalhado, o maior playboy do Brasil, etc, eram uma máscara. Chegou num ponto da vida em que ele interpretava um personagem de si mesmo. Talvez ele quisesse ser reconhecido pela versão ideal de playboy, não sei.
“Nenhum playboy de hoje pode ser meu sucessor. Todos têm um grave defeito: eles trabalham”
Pensando bem, eu acho extremamente mais honesto viver a vida de playboy e assumir isso, do que ser o hipócrita que posa de bom moço; do que fazer doações de mixaria só para suavizar a imagem; do que usar os chavões usuais de meio-ambiente e responsabilidade social apenas para a aparência. Jorginho Guinle continua não sendo um modelo a ser seguido, fique bem claro.
Jorginho Guinle foi um epicurista de intensidade máxima.
“O segredo do bem viver é morrer sem um centavo no bolso. Mas errei o cálculo e o dinheiro acabou antes da hora”.