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TEU RISO Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, porém nunca me tires o teu riso. Não me tires a rosa, a lança que debulhas, a água que de repente em tua alegria estala, essa onda repentina de prata que te nasce. De áspera luta volto com olhos fatigados por vezes de ter visto a terra que não muda, mas ao chegar teu riso sobe ao céu me buscando, e abre para mim todas as portas desta vida. Amor meu, no momento mais escuros desata o teu riso, e se acaso vês que meu sangue mancha as pedras do caminho, ri, porque teu riso será, em minhas mãos, como uma espada fresca. Junto ao mar, no outono, teu riso deve erguer sua cascata de espuma, e em primavera, amor, quero teu riso como a flor que eu esperava, a flor azul, a rosa da minha pátria sonora. Que te rias da noite, ri do dia, da lua, das ruas tortas da ilha, ri do desajeitado rapaz que te quer tanto, porém quando mal abro os olhos, quando os fecho, quando os meus passos vão, quando os meus passos voltam, nega-me o pão, o ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu riso, senão, amor, eu morro.
Pablo Neruda
sobre o amor, exageros e a vontade de ficar, eternizar.
eu sempre me perdi nas entrelinhas. mas tu me ilumina e precede as minhas opiniões — tão sublime quanto o sol e a lua. talvez até num tom mais escuro, mas mesmo assim, ainda continua a ser admirável, enlouquecente, memorável.
há de se lembrar da cor do céu ao meio da noite. aquele azul escuro que te pinto nos meus sonhos. já te contastes que tu és meu céu? — na maioria das vezes estrelado, outros acinzentados, quem sabe até multicor, ou aquele céu que traz calor, mas também tem aquele tom frio, que transcende tudo que já imaginei.
não se engane quando eu digo que você é lindo. em você habita tanta história. tanta poesia. seu sorriso é magia. teu abraço é alegria. e teu beijo seria aquele que pulsa a minha artéria e recarrega a bateria.
teu toque é certeiro. aquele que fica gravado em minha pele e mente.
o céu que há em você me salva. seu amor e carinho são meus paraquedas.
e um dia eu “ouvi dizer que existe paraíso na terra.”
é
tu és a prova viva disso.
(o azul no preto e branco.)
e.c
Cartas para além do muro
Olha, estou escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não achei que ia conseguir dizer, quero dizer, dizer tudo aquilo que escondo desde a primeira vez que vi você, não me lembro quando, não me lembro onde. Hoje havia calma, entende? Eu acho que as coisas que ficam fora da gente, essas coisas como o tempo e o lugar, essas coisas influem muito no que a gente vai dizer, entende? Pois por fora, hoje, havia chuva e um pouco de frio: essa chuva e esse frio parecem que empurram a gente mais pra dentro da gente mesmo, então as pessoas ficam mais lentas, mais verdadeiras, mais bonitas. Hoje eu estava assim: mais lento, mais verdadeiro, mais bonito até. Hoje eu diria qualquer coisa se você telefonasse. Por dentro também eu estava preparado para dizer, um pouco porque eu não agüento mais ficar esperando toda hora você telefonar ou aparecer, e quando você telefona ou aparece com aquelas maçãs eu preciso me cuidar para não assustar você e quando você me pergunta como estou, mordo devagar uma das maçãs que você me traz e cuido meus olhos para não me traírem e não te assustarem e não ficarem querendo entrar demais no de dentro dos teus olhos, então eu cuido devagar tudo o que digo e todo movimento, porque eu quero que você venha outras vezes e eles dizem que se eu mostrar como realmente sou você vai ficar apavorado e nunca mais vai aparecer nem telefonar – eu não agüento mais não me mostrar como sou. Hoje de manhã eu acordei bem cedo, e depois de conversar com eles consegui permissão para caminhar sozinho no jardim, eu disfarcei muito conversando com eles porque queria muito caminhar sozinho no jardim. Àquela hora ainda não estava chovendo, ou estava, não me lembro, ou havia chovido ontem à noite, não, acho que não estava chovendo não, porque eu lembro que as folhas estavam limpas e molhadas e a aterra tinha um cheiro de terra molhada: comecei a lembrar, lembrar, lembrar e o meu pensamento parecia um parafuso sem fim, afundando na memória, eu não suportava mais lembrar de tudo o que se perdeu, tudo o que perdi, não fui e não fiz, mas não conseguia parar. Então comecei a gritar no meio do jardim molhado com as duas mãos segurando a minha cabeça para que não estourasse. Aí eles vieram e disseram que não tinha jeito e que estavam arrependidos por terem me deixado sair sozinho e que aquela era a última vez e que eu disfarçava muito bem mas não conseguiria mais enganá-los. Eu disse que não tinha culpa do meu pensamento disparar daquele jeito, mas acho que eles não acreditaram, eles não acreditaram que eu não consigo controlar pensamento. Então me deram uma daquelas injeções e eu afundei num sono pesado e sem saída como este espaço dentro desses quatro muros brancos. Foi depois que acordei, não sei se hoje ou amanhã ou ontem, eu te escrevo dizendo hoje só para tornar as coisas mais fáceis, foi depois de acordar que perguntei se você não tinha vindo nem telefonado, e eles disseram que você não viera nem telefonara. É provável que estivessem mentindo, eles dizem que eu preciso aceitar mais a realidade das coisas, a dureza das coisas, e às vezes penso que tornam de propósito as coisas mais duras do que realmente são, só pra ver se eu reajo, se eu enfrento. Mas não reajo nem enfrento. A cada dia viver me esmaga com mais força. Não sei se eles escondem de mim a sua visita, se não me chamam quando você telefona, se dizem que já fui embora, que já estou curado, não sei se você não vem mesmo e não telefona mais, não sei nada de ninguém que viva atrás daqueles muros brancos, você era a única pessoa lá de fora que entrava aqui de vez em quando. É verdade que eles todos moram lá fora, mas é diferente, eles vivem tanto aqui dentro que não consigo acreditar que sejam iguais os lá de fora, como você. Você, sim, era completamente lá de fora. Digo era porque faz muito tempo que você não vem porque guardei no meio das minhas roupas um pedaço daquela maçã que você trouxe da última vez, e aquele pedaço escureceu, ficou com cheiro ruim, encheu de bichos, até que eles me obrigaram a jogar fora. Acho que os pedaços de maçã só se enchem de bichos depois de muito tempo, não sei. Parei um pouco de escrever, roí as unhas, preciso roer as unhas porque eles não me deixam fumar, reli o começo da carta, mas não consegui entender direito o que eu pretendia dizer, sei que pretendia dizer uma coisa muito especial a você, alguma coisa que faria você largar tudo e vir correndo me ver ou telefonar e, se fosse preciso, trazer a polícia aqui para obrigá-los a deixarem você me ver. Eu sei que você quer me ver. Eu sei que você fica os dias inteiros caminhando atrás daqueles muros brancos esperando eu aparecer. Eles não deixam, acho que você sabe que eles não deixam. Não vão deixar nem esta carta chegar às suas mãos, ou vão escrever outra dizendo que eu não gosto de você, que eu não preciso de você. Mas é mentira, você tem que saber que é mentira, acho que era isso que eu queria dizer preciso escrever depressa antes que eu me esqueça do que eu queria dizer era isso eu preciso muito muito de você eu quero muito muito você aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando você nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor você não precisa trazer nada só você mesmo você nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro ou do outro lado.
- Caio Fernando Abreu
[daí-me sorte] trevo
depois de noites e madrugadas insones, no último sopro do vento meu coração tão pequeno pediu por um abraço seu. apenas um. seu pulsar era breve e fraco. parecia cansado de estar trabalhando, mas eu compreendia o seu pedido. ele sentia saudade da chama que o fazia borbulhar como um vulcão prestes a entrar em erupção. eu tentei recriar essa sensação, mas não era a mesma coisa. tudo não passava de uma ilusão. eu não passava de um vulcão extinto. chega um tempo que a gente cansa, não é? a exaustidão passa a nos encontrar todos os dias. e foi assim. tornou-se desgastante amor, mas sigo firme. perdi a cor, as palavras. nem sei como estou aqui escrevendo agora. folheei tantas páginas de livros procurando palavras que formassem um texto bom e bonito, singelo. me diz, o que é bom pra você? porque eu sempre gostei do simples. mas de certa forma eu não entendia que tinha que vim de mim. que a essência deveria ser minha. não foi fácil descobrir isso. eu já não era mais constelação. num piscar de olhos perdi o brilho e me tornei um floco de gelo. carregava o mundo nas costas cambaleando. forte. oh menina forte. até hoje não sei de onde vem essa força. eu tenho dificuldade de entender o que acontece comigo, não ri. eu não tenho mais tido medo da tempestade. mesmo que muitas vezes ela me faça desistir. mas é como você diz “não tenha pressa”. e eu tô tentando, juro. eu tenho fechado os olhos e caminhado com ela. e hoje eu compreendo a tempestade. sei que ela tem que acontecer. e eu já me questionei várias vezes se eu deveria continuar. e olha onde estou agora. aqui. e depois de noites e madrugadas insones, no último sopro do vento meu coração tão pequeno pediu por um abraço seu. e tu aceitou o meu pedido. naquela noite de fevereiro, tu me abraçastes e me carregastes, rodopiates no meio daquela despedida sem cair, pois nosso amor nos equilibra e nos liga, unindo-nos com linha cor azul com um nó que não solta. [somos céu. hora cinzento, hora laranjado, azulado. somos céu um d'outro. corda que puxa do fundo do poço. somos um d'outro. somos um em dois. somos o amor. que salva e enlaça. não desata.] história de menininha apaixonada que acredita em conto de fadas. mas veja bem: daí-me sorte trevo, pois te desenharei na palma da minha mão para que quando eu segure a dele eu tenha a sorte de não precisar a soltar mais.
e.c
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“Meu psicólogo diz que o amor tem que ser algo recíproco, se não for, não é amor. Não existe término pelo bem do outro, não existe pela tristeza do outro… Amor é algo complicado, e colhemos o que plantamos. A dor é algo que não há quem explique, cada um tem sua dor. A dor sufoca, a dor emocional ainda mais, mata você por dentro. O amor te mata por dentro, a falta de você me mata ainda mais.”
— Nem a distância vai nos separar.
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