(kaleabok):
Antes de se aproximar, Kale concentrou uma boa quantidade de tempo analisando o corpo da amiga na pista de dança. Como seu rosto delicado parecia sereno quando deixava o controle de lado e apenas se rendia a música. —– Não era algo que ele via com frequência. Na maior parte das vezes que Kale tinha a oportunidade de observá-la ela era o estereotipo de garota certinha, boas notas, bons amigos, e um bom futuro. Mas não ali. Era desenvolta, e sabia muito bem o que fazia enquanto se movimentava, como passava as mãos nos cabelos sedosos e quando descia até o chão. Apesar dos flertes que ocorriam entre eles, por algum motivo que ainda lhe escapava a compreensão, eles nunca tinham atravessado a tênue linha da amizade. Quando alguém passou em sua frente, o tirando de seu transe, ele percebeu que já estava a observando por tempo demais e então terminou de uma só vez o liquido em sua garrafa, largando-a em alguma mesa, junto com outras garrafas igualmente vazias, e então se aproximou, porém ele não esperava os dedos fortes em seu braço, deixando claro que ele tinha ido rápido demais. A expressão confusa não durou muito tempo em seu rosto já que Astrae tinha uma certa facilidade em distrair o homem. “Chibatadas? Oh man, Astie… Você sabe bem como atiçar minha imaginação, não é?” Ele mordeu os lábios, a diferença de altura facilitando que ele pudesse lançar seu belo par de olhos azuis e fitar mais de perto a morena que ele observava há minutos atrás, mas por fim, quebrando o seu transe ele retirou os dedos do corpo dela em uma lentidão exagerada. “Mas mesmo que a punição seja muito, muito atraente, eu não sou um abusador. Prefiro quando elas imploram.” O sorriso prepotente era irritante, ele sabia, embora combinasse até demais com o hibrido. Tal sorriso apenas se alargou quando Astrae indicou um lugar menos barulhento, e sem disfarçar sua crescente animação, deixou que ela guiasse o caminho chegando até o balcão, local que a morena se apoiou e atraiu olhares para seu corpo, fazendo com que Kale se aproximasse ainda mais dela. “Assim você me magoa… Mas eu posso te mostrar a casa se quiser, nem todo o lugar é assim… Meu quarto, por exemplo, é bem limpinho.” Ele disse como quem não queria nada, mas seu sorriso o entregou, fazendo o rir, e os dentes certinhos, um tanto infantis do moreno contratava com a malícia e suas segundas intenções. Ele virou o rosto, apenas o suficiente para que o assobio que ele manejara com os dedos fosse direcionado para o balcão, mas ele nunca perdera a amiga de vista, e quando Bob lhe entregou duas garrafas de cerveja ele entregou uma para a morena, usando isso como desculpa para encurtar ainda mais a distancia entre eles. “Fiquei curioso… Você disse que gostava demais das festas daqui, tem algo mais na Pathos que você goste?” Dessa vez, os olhos de Kale não tinham nada de inocentes. Sentia algo crescendo dentro de si, um sentimento quente e lascivo que ele não sabia bem explicar como direito, mas que surgia com frequência perto dela e quando acontecia, as coisas tendiam a sair do controle, e não podia negar que tal fato lhe agradava bastante.
------------ Poucos sabiam da procedência de Astrae, e Kale não era um dentre esse grupo seleto de pessoas, mas nem por isso ele deixava de ser de certa forma especial para a estelionatária. Desde que se conheceram, a morena parecia intrigada com todos os trejeitos do outro e, especialmente, a forma como as cantadas baratas a divertiam em finais de noites nas quais ela não queria a companhia de ninguém, a não ser dele, bêbada demais para se importar com a proximidade ou com seu disfarce, e esquecida o suficiente para permitir que as brincadeiras cada vez mais maliciosas seguissem o seu rumo. Kale era diferente de Gaspard, de fato, e talvez por isso ela o deixara se aproximar, fazer a própria cama na vida desregrada, ainda que aparentemente perfeita, de Drina. Afora o fato de que, bem, ela não reclamaria se visse o moreno pelado algumas vezes. Já no bar, garrafa de cerveja em mãos, a morena permitiu um meio sorriso escapar ao se lembrar das palavras do colega há pouco, lábios prestes a sorver o líquido do recipiente. Virou o rosto na direção do outro, claramente provocando a reação ao ajeitar o cabelo para longe do pescoço, expondo a carne macia antes de piscar ambos os olhos docilmente. Puro fingimento. “É claro que eu faria o serviço completo caso um dia nos víssemos em tal situação, cariño. Ah, a sua imaginação... Só posso sonhar com as depravações que você pensaria de mim.” Soltou o ar pelas narinas, a voz rouca ao pé do ouvido do amigo a medida em que mordia o lábio inferior, já se afastando levemente. Gostava do jogo de provocação, mas não era como se Kale devesse pertencer a ele daquela forma, então levantou mais uma vez a garrafa, como se estivesse brindando, antes de sorver mais um pouco do álcool. “Porque elas costumam implorar muito por isso, no?” Pendeu a cabeça para o lado levemente, caçoando do amigo, ainda que não estivesse sendo plenamente sincera ------ nunca era sincera, de fato, mas dessa vez era fácil notar que ela própria pensava o contrário do que suas palavras diziam. “Aposto que devem pedir por tudo que lhes é mais sagrado. ‘Oh, Kale, por favor’!” A atuação lhe entretia, e durante o meio dela, Astrae se permitiu sentar no colo do moreno ------ bastou um pequeno impulso, e, fácil assim, as adegas já se punham sobre as coxas do Halsing ------, especialmente quando as caras e bocas se tornaram mais maldosas, as mãos grudadas à nuca dele enquanto a água escorria da garrafa gelada. Tarde demais para perceber que estava perto demais, ele sugeriu algo que lhe pareceu muito atraente, mas a morena se permitiu fingir pensar por alguns instantes. “Quantas vezes já fui ao seu quarto, rememore-me, Kale.” Pediu, tentando contar na palma das mãos a quantidade. “Só não me diga que ele é repleto de videogames porque, honestamente, seria uma decepção, ainda que compreensível.” Arqueou uma das sobrancelhas, troça imprimida em cada uma das palavras a medida em que a proximidade tornava tudo mais enevoado, como se ela própria estivesse entrando em um transe, perdendo o controle. Assim que o pensamento passou pela sua mente, entretanto, Astrae mordeu os lábios sofregamente, desviando o olhar. Não podia perder o controle ------ e se ele descobrisse sobre o marido, a quantidade de furtos e todo o restante de crimes cometidos pela Trastâmara? Não. Ele não descobriria, assegurou a si mesma. A pergunta que chegou aos ouvidos no momento seguinte, entretanto, chamou a atenção da morena, e ela teve que soltar um suspiro fraco, fingindo ser algum tipo de idiota apaixonada a medida em que largava a garrafa e acariciava a extensão da barba do amigo, concentrada demais nas feições para se dar conta de que já deveria ter se afastado há algum tempo. “Além da cerveja barata e do constante cheiro de vômito seco?” Riu-se, travessa. “Do conversível do seu irmão.” Piscou, meio sorriso presente nos lábios delineados a medida em que se deixava pular do colo de Halsing, andando pouco antes de virar o rosto na direção dele. “Ainda temos tanto a fazer nessa noite, pensei que um meio de locomoção fosse... Adequado. Você vem ou não?”














