PRÓLOGO:
Caindo
Eu estava caindo.
Mas não caindo do céu, como alguém que despenca de um pássaro gigantesco. Não. Eu estava afundando — descendo cada vez mais fundo na água gelada. O frio me envolvia, apertando meus pulmões, congelando meus ossos.
Podia sentir a água penetrando na minha roupa, me puxando para baixo. Cada vez mais fundo. A escuridão ao meu redor era absoluta, exceto por algum reflexo distante na superfície. Não havia luz, não havia calor, apenas o som abafado das bolhas escapando de mim, como se fossem os últimos sinais de vida que eu tinha.
No começo, o frio era insuportável. Mas então, ele começou a desaparecer, dando lugar a uma sensação estranha de calma. Hipotermia é assim. Ela te engana. Você não morre do frio; você morre do alívio que vem quando ele vai embora. Foi nesse instante que soube: eu estava morrendo.
"É assim que termina?"
Meus olhos estavam se fechando quando vi algo se mover na água. Uma sombra, grande e negra, deslizou em minha direção. Senti, mais do que vi, uma mão estendida. Não sei se era real ou fruto de minha mente à beira do apagão, mas eu a segurei. E ela me puxou.
Depois disso, tudo ficou preto.
A escuridão foi substituída por um calor inesperado. O som de um fogo crepitando chegou até mim, junto com vozes que soavam como ecos distantes.
– Ele está vivo?
– Ficou tempo demais no gelo. Não sei como conseguiu.
– Deve ter ficado hipotético.
– Hipotérmico.
As vozes eram confusas, estranhas, como se estivessem lutando para alcançar minha consciência. Mas o calor... Ah, o calor. Ele parecia mais real. Eu o sentia nos meus ossos, afastando lentamente o frio que parecia ter se tornado parte de mim.
– Ele está se mexendo.
Essa voz era diferente, firme e autoritária.
Abri os olhos, piscando contra a luz do fogo. A visão era borrada, mas consegui distinguir figuras ao meu redor. Havia homens e mulheres vestidos de forma simples, mas carregando armas que pareciam feitas para guerra.
– Vocês... não vão me matar?
As palavras saíram fracas e roucas, uma pergunta ridícula considerando a situação, mas era tudo o que eu conseguia formular.
– Matar você?
A voz que respondeu tinha um tom de sarcasmo. – Isso seria irônico, já que acabamos de salvar sua vida.
Meus olhos focaram na figura que falou: uma garota loira, com olhos azuis penetrantes e uma expressão meio divertida, meio irritada.
– Vocês são vikings.
Minha voz ainda tremia. – É isso que fazem, não é? Matam pessoas?
Ela deu uma risada curta. – Não nós. Sou Astrid.
– Rider.
Com esforço, sentei-me, ainda sentindo o frio queimar em partes do meu corpo. Olhei ao redor. Estava cercado por vikings — homens robustos, mulheres de expressões ferozes e, ao fundo, o que parecia ser um jovem líder.
– Então, Rider...
O rapaz magro, mas com uma postura confiante, se aproximou. – Sou Soluço. O que estava fazendo no gelo?
– Não fui nadar, se é o que quer saber.
Minha voz saiu defensiva, quase irritada. – Era uma iniciação.
– Que tipo de iniciação te joga num rio congelado?
Astrid cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
– Como os pais fazem na minha vila. É tradição.
– Que tipo de pais fazem isso?
Outra garota, também loira, soltou uma risada baixa. Eu ainda não sabia o nome dela, mas sua expressão deixava claro que não estava impressionada.
– Berserkers.
Ao pronunciar o nome do meu povo, endireitei-me um pouco, tentando compensar minha aparência magricela e encolhida.
– Filho de berserkers?
Ela me olhou de cima a baixo. – Não parece. Magricela desse jeito.
– Sim, eu sei.
Tentei ignorar o riso abafado ao meu redor, mas minhas bochechas ardiam.
– Chega, Melequento.
Soluço interveio, lançando um olhar firme à garota antes de se virar para mim novamente. – Então... dragões?
Aquilo me pegou de surpresa. – Não temos muitos onde eu moro. E, definitivamente, ninguém monta neles.
– Sério?
Os olhos de Astrid brilharam com curiosidade. – De onde você vem, exatamente?
– Uma ilha ao sul. Rochosa Mortal.
– Belo nome.
Foi o único comentário de um rapaz mais robusto ao fundo, que parecia mais interessado na comida que preparava.
– Então, Rider... com fome?
Soluço me lançou um sorriso que parecia convidativo, quase amistoso.
Enquanto os outros voltavam à sua rotina — cuidando dos dragões e conversando entre si — percebi algo que não sentia há muito tempo.
A sensação de pertencimento.















