Palestine|diaries of an uncertain Place
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Palestine|diaries of an uncertain Place
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Interview with Anis F. Kassim by Hazem Jamjoum HJ: What legal status was afforded Palestinians who came under Jordanian control after the 1948...
Intersting interview with Lawyer Anis Qassen for Badil, on Gaza Refugee Status and Citizenship in Jordan.
Checkpoint de Ramallah, Palestina, Julho de 2013|Fotografia de Vanessa Rodrigues
Por que razão o doc Remember Us é importante#1|Why Remember Us Documentary is important #1
Passados 46 anos, os refugiados Palestinianos de Gaza, na Jordânia, devido à guerra israelo-árabe de 1967, continuam a não ter direitos tão básicos como cidadania! 46 anos... !!!!! São cidadãos de lado nenhum, não têm qualquer representatividade legal, não podem trabalhar no setor público e em alguns cargos privados, não têm acesso a saúde pública, a não ser a da UNWRA ( United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East), nem educação pública. Entre outras violações de direitos humanos. O documentário "Remember US" da autoria de Dalia Abuzeid e com produção portuguesa da Concept View vai mostrar histórias inspiradoras e bem-sucedidas que fazem a diferença e são exemplo para as novas gerações. Envolvam-se neste documentário: apoiem, divulguem, passem palavra. A campanha do zoomal continua a decorrer (http://www.zoomaal.com/projects/remember-us1/413). E a INTRO do DOC pode ser vista aqui: https://vimeo.com/63569893
[ENG]
After 46 years, the Palestinian refugees from Gaza, in Jordan, because of the israeli-arab war in 1967, are stil not entitled citizenship, which deprives them from several fundamental rights. They are stateless, citizens of nowhere, have no legal representation, cannot work in the public sector and in neither in some private situations, have no access to Public Health Care ( except for UNWRA - United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East, or access to Public Schools. Amongst other Human Rights Violations. The documentary Remember Us by director Dalia Abuzeid, with Portuguese Productions by Concept View, is committed in telling sucessful and inspiring stories within the Jerash Refugee Camp. Stories that make a difference and that can be role models for the next generations. Get closer to this project, support, share, spread the word. Our campaign is still running in Zoomal. http://www.zoomaal.com/projects/remember-us1/413
And the intro can be watched here: https://vimeo.com/63569893
Remember Us is on Jordan Times
Local filmmaker seeks to expose plight of Jordan’s Gaza refugees
01 Aug 2013 11:37 PM
AMMAN — For Dalia Abuzeid, living with a Gaza Strip ID card in Jordan has made her feel like a “citizen of nowhere”, which led her to start filming “Remember Us” in an effort to do something for Palestinian refugees in Jordan.
“[Being a refugee] brought me closer to this issue and sparked an interest that led me to visit the Gaza Refugee Camp [in Jerash] on several occasions,” the director and writer of “Remember Us”, told The Jordan Times.
The planned feature-length documentary tackles Jordan’s “forgotten minority” — Gazans — said 22-year-old Abuzeid, who studied filmmaking at the SAE Institute.
A sequence of the documentary will be shot in Gaza to raise questions about what would have happened to the Gazans residing in Jordan, had they never come.
Refugees from Gaza came to Jordan in the wake of the 1967 Arab-Israeli war. They are treated as Palestinians residing in the Kingdom, with temporary passports that must be renewed every two years.
Abuzeid said the documentary will reveal “untold stories” about the lives of the refugees, while raising global awareness and aiding social campaigns to address their daily physical, emotional and social problems.
A turning point in the film’s production came after a private European investor contributed half of the project’s budget, she said.
“Her passion and help led us to the stage we are at now.”
In order to cover the rest of the film’s expected costs, Abuzeid launched several fundraising campaigns and is now in the process of applying for human rights grants before she starts filming.
She noted that “Remember Us” will be released internationally, according to the planned distribution and marketing campaigns, to bring the issue to a global audience.
Abuzeid began working on the film in 2012 and teamed up with production company Concept View after she completed the first draft of the script.
She expects her documentary to expose how difficult daily life is for refugees through a raw and interactive filming style.
“We believe this film will open the eyes of both governments and individuals around the world to the conditions in the camp, and encourage them to help by giving more opportunities rather than taking them away,” Abuzeid told The Jordan Times in a recent interview.
She said the majority of the refugees she spoke to at the camp were “physically, socially and psychologically weakened”.
“I have sat with those who lost their children, as they were unable to afford medical care. I have entered their tin-roofed ‘temporary’ houses, as they cannot afford the cost that comes with building a cement roof,” she said.
Abuzeid said that through “Remember Us”, she seeks to inspire debates and fundraising events around the world to help create a fund to support the camp’s residents.
“This documentary will tell inspiring and successful stories within the Gaza camp. This is to say that despite all the constraints that refugees from Gaza face… there are people who can make a difference.”
Diário de Amman| No embalo do dilúvio
1. Ainda não choveu em Amman, mas ontem houve dilúvio. Começou com as goteiras no teto da cozinha, cuja tinta parece uma pele esfolada a pender, glop-glop. Pus um tupperware resistente, no chão, para engolir a água que vinha de cima, vertical. Mas esta banda sonora era um bebé ao pé do cano rachado do vizinho que ensaiava ser cachoeira. É que à quarta-feira é dia de haver água da companhia para podermos encher os tanques para a semana. Com cano quebrado e interruptor do motor da água ligado: temos a receita ideal para desperdiçar H2O. Nas casas do prédio, em geral, falhando a água, ou se espera até à semana seguinte, ou se encomenda ao homem-da-água, que cobra 35 JD (o equivalente a 34 euros). O dilúvio do cano rachado começou às três da tarde, pouco antes de eu sair de casa. Um rio desperdiçado.
2. Pudera eu ter água à mão para consolar a sede que senti durante as 3 horas de caminhada sem poder tocar em líquido. É Ramadão, por isso, não houve local no meu caminho que abençoasse a minha sede. Perseverança. Aqui as referências não são as ruas: são os círculos. Alguma coisa é sempre perto de determinado "circle", que é o mesmo que dizer uma pequena rotunda. A casa onde moro fica perto do primeiro. Sair de casa, 15horas: mala, chaves, carteira. Começa o périplo. Decidi caminhar até ao terceiro círculo, descer a rua Al-Almir até à baixa. É uma volta maior desde o local onde estou, mas primeiro queria andar a pé, segundo tem lá, supostamente, uma das melhores livrarias-alfarrabistas da cidade: Amman bookshop. Cheguei: pó, livros sem interesse, preços para rainhas. A partir daqui foi sempre a descer.
3. O Caffe Strada é um dos poucos locais abertos onde se pode comer e beber durante o Ramadão. Caro, mais ocidentalizado, internet de graça, cheio de estrangeiros, mesas competentes, jazz ambiente, o local provisório ideal para trabalhar. Entram 4 pessoas: um casal mais velho e um casal mais novo. Ela, a mais nova: "Tantos estudantes". Eu: "Ah, são portugueses, bem-vindos!". Olhos esbugalhados, surpresa, sorrisos. "Portugueses espalhados pelo mundo", responde Ela, a mais velha. Foi mais de uma hora de troca: eu sobre Amman, eles sobre Omã (capital Mascate), onde foram muito bem recebidos, onde comeram em casa do guia muitas tâmaras, onde viram tartarugas, e se impressionaram com as fortalezas portuguesas, recentemente recuperadas pelo sultão Qaboos bin Said Al Said. É: portugueses espalhados pelo mundo.
4. Amman tem cerca de 2 milhões de habitantes, 1.680 km² e 51% de humidade. Mas esta última parte não deve ser verdade porque está um calor árido que não se aguenta. Caminho até à baixa (downtown) e não há uma única loja de bebidas e comidas aberta. Ainda pondero entrar no super-mercado, mas penso uma, duas, três vezes. "Onde poderei beber a água? Numa casa de banho?" Melhor seguir caminho e logo se vê. A cidade está à pinha, as lojas estão de comércio fervilham. Entro na loja de DVD's. Procuro os filmes do realizador iraniano Abbas Kiarostami. C Lá dentro, encontro um amigo de um amigo que trabalha na Royal Film Comission. Levou um casal de realizadores austríacos à Meca dos DVD's de segunda linha. Facto: a economia paralela é um posto e os jordanos aficionados por cinema. Prossigo, vou até às ruínas romanas, procuro referências na paisagem: lojas de quinquilharia, prata antiga, antiguidades, cachecóis jordanos, cachecóis palestinianos, lenços coloridos, calças justas em manequins de homens, camisas justas de mangas arregaçadas. Culto ao kitsch. Cheira a café. Começo a afastar-me da multidão, zonas dúbias. Regresso às minhas referências, saindo do lugar conforto. Regresso pelo outro lado da rua. Quero testar a minha orientação. Paro. Prossigo. Para me encontrar preciso de me perder.
5. O fato de estar sozinha estes dias é um retiro fantástico. Inventa-se receitas para almoço: como morangos frescos com folhas de hortelã, banana, nozes, pedaços de gengibre e açúcar mascavo; peixe com molho de limão e alho, estufado com massa. Escreve-se coisas estapafúrdias. Investiga-se para uma tese. Recebe-se simpatia e números de telefone de turcos nascidos na Jordânia nas costas da fatura da internet. Edita-se fotografias sobre o campo de refugiados. Revê-se o guião do documentário. E assiste-se a dois filmes por dia: Kiarostami é obcecado por planos dentro do carro.
6. Perco-me bem no mercado, no meio de cheiros que não conheço, de gente apressada que, ao fim do dia, quer comprar os melhores produtos para fazer o "Iftar" o desjejum depois das 8pm quando a família e os amigos se juntam para comer e celebrar o respeito pelo Ramadão. Ainda penso em comprar tomilho com sementes, que aqui se mistura com azeite e se molha no pão, mas não tinha com quem partilhar, naquele dia. Arrisco só comprar chá de salvia, maramia. Um molho custa um dinar. Eu não quero tanto. Não dá para dividir. Não faz mal, levo por meio dinar tudo e não se fala mais no assunto. Assim levo o molho a passear pelo mercado e pela baixa. Volto a caminho de casa pelas escadas íngremes.
7. São 18h quando entro em casa. Lábios gretados, cambaleantes, pés secos e com vontade de me fundir com a cama. Antes disso, a bebida merecida. Sorvo um copo de sumo de maçã. Depois água. Depois leite de soja. Não é nenhuma receita. Apenas o corpo a pedir coisas destas. É o corpo a pedir um dilúvio depois de 3 horas a caminhar, sem descanso. Lá fora, persiste uma cachoeira competente. Só pararia no dia seguinte, às 14h, porque não há canalizadores 24 horas. Não choveu, mas parecia. Embalada, fui dormir.
Daily Life at the Gaza Refugee Camp|16
Daily Life at the Jerash Refugee Camp|#15
Diário desde Amman#2| Perdida
1. Ainda ninguém me perguntou por que razão escrevo Amman, à maneira inglesa, e não Amã, à maneira Portuguesa. Talvez não interesse nada saber, mas eu tenho uma explicação. Primeiro, mea culpa, gosto de me apropriar das palavras, declinando-as conforme o propósito e a semântica existencial na qual me encontro. Ora vejamos: Amã é uma palavra sem sal, sem açúcar, fica no ar; antes de começar já acabou. Enquanto Amman tem a delicadeza de um plano sequência, do eco da continuidade, tem duração, persisência. Digam lá se não se ajusta mais a uma vivência que ainda não foi interrompida? Por cá estou, por enquanto fico.
2. O dia em que resolvi visitar a única suposta grande galeria de arte de Amman, Darat Al-Funum, transformou-se num daqueles sonhos em que estamos presos e do qual não conseguimos sair. Viesse o génio da lâmpada e resolveria logo um desejo: que chegasse até lá. Eu não conseguia lá aportar. Ninguém sabia muito bem onde ficava e quem me poderia lá levar não estava disponível. Dias antes lera na agenda do Jordan Times que um fotógrafo palestiniano tinha lá algumas fotografias expostas, sobre o quotidiano na cidade de Gaza. Pensei que era um bom pretexto para lá ir, descobrir o lugar. Todavia havia uma conspiração concertada, asseguro, para que de lá visse a paisagem do puzzle de Amman. O Lonely Planet não explica bem, ideias vagas, e o mapa não era muito claro. Aventurei-me na mesma, tinha a referência da Jebel Al-Qala'a e fiz-me à estrada. Ou pelo menos tentei.
3. Nos primeiros dias em que cheguei à cidade das sete colinas tive o privilégio de ficar em casa da família Abuzeid. Uma paz e um privilégio. A generosidade humana é a magia cultural. Recordo-me especialmente das noites com as meninas a fumar sheshaa e dos pequenos-almoços com a mãe da Dália. Eu não falo árabe, ela não fala nem português, nem inglês. Mas sei que nos rimos muito da nossa incapacidade de comunicação. Sei que ela queria que eu provasse de tudo e não parava de colocar petiscos na mesa de lousa verde. Pimento seco em pasta, pepino em pickle, azeite e iogurte, logo pela manhã, desafiando a minha intolerância à lactose e o meu estômago ibérico: o ser humano habitua-se (quase) a tudo. Tive algumas visitas frequentes à porcelana. Depois passou!
4. Amman é esse plano contínuo e de improviso. Enquanto tentava chegar à Darat al-Funum tive de exercitar constantemente ora o improviso, ora a paciência. O primeiro taxista ficou uns 2 minutos a olhar para o mapa e a dizer: ahhh!. Desisti, porque percebia que estava bloqueado, esperançoso de que desistisse e mudasse o azimute. O segundo, 10 minutos depois, negou-se a levar-me a esse lado da cidade, porque, percebi pela expressão dele aborrecida, fora do itinerário dele- e ele não sabe onde fica essa tal de fundação, intuo. O terceiro deixou-me entrar, deixou-me dizer Marhaba (Olá, em árabe!), andou 50 metros e depois disse que afinal já não me queria levar, que ia dormir, que encerrava o turno, que era muito longe. Estava preguiçoso! Mas que se eu lhe desse 5JD ele levava. Muito caro. Agradeci e desci. Tive de voltar o caminho todo para trás para o primeiro círculo. O próximo taxista aceitou-me, mas ainda não seria o meu salvador.
5. A maioria das empregadas domésticas nas casas jordanas são do Sri Lanka. Num desses pequenos-almoços, a mãe da Dália, juntou à mesa a nova doméstica, há uns anos a viver na Jordânia, pelo que percebi. Falava um árabe entendível, pelo que percepcionei (estou a melhorar na minha interpretação livre) e um inglês desconhecido. Foi, por isso, um diálogo a três sem que eu percebesse uma única palavra, mas recordo que os doces de carne picada com anis estavam uma maravilha (começo a ficar preocupada por só falar de comida). Ainda assim, o meu prato favorito continua a ser musakhan. Não procurem imagens na internet. O original, não dobrado, sabe melhor do que aquilo que parece.
6. Depois de 40 minutos no táxi, e de várias paragens para perguntar, o taxista deixou-me numa rua perto do centro. Até que me diverti, às voltas, olhando a vida da cidade a acontecer, sem compromissos! Dessa rua via o parque de estacionamento com carateres árabes em cada andar. Disseram-me, certa vez, que é um poema. Saio e há um calor infernal, seco, árido. Subo a rua e nunca mais chego ao fim dela. Parece que tenho de virar numa dessas ruelas, com escadas íngremes, para chegar ao meu destino. Nada. Mais 15 minutos e a rua não acaba. Páro para perguntar numa agência de viagens. O senhor simpático diz-me que dali a 10 minutos encontro um stand de automóveis, depois a estação de camionagem e tenho de virar à esquerda. Nada. Paro, de novo, suada, perdida, contente (a liberdade é uma coisa bonita), depois de caminhar numa rua sem passeios, plena de mecânicos, homens musculados, hormonas em histeria e chão negro de escape. Entro num escritório da companhia aérea iraquiana. Ahhhhh! Que bem que sabe o ar condicionado! Outro senhor simpático diz-me para subir em frente, à esquerda. Escreve-me o nome da Fundação em árabe. Agradecida. Começo a subir. Páro antes para confirmar informação. Mostro o papel, orgulhosa! Estou no caminho certo. Mas e agora? Esquerda ou direita? Questiono a rapariga que passa. Seguirei em frente até ao "Círculo de Paris"; mas ela não me consegue explicar dali onde é. "É complicado". Tivessem-me dito antes "Círculo de Paris" e saberia do que falavam. Saberia ter ido para ali, direta, sem voltas. Sigo. Círculo de Paris. E agora? Há uma barbearia aberta. Pergunto. O pai manda o filho mostrar-me o caminho. Sorrimos e 5 minutos depois chego à Darat Al-funum. Demorei 2 horas para aqui chegar. Bonito lugar, mas mal aproveitado; a exposição do fotógrafo palestiniano acabara no dia anterior. Demoro meia hora. Saio, desço a rua e apercebo-me 15 minutos depois onde estou. Na cidade baixa. Perto do meu conhecido Jafra e do Mahammoud que vende filmes pirata em DVD. Tanto tempo para ir e tudo era tão mais simples, pois daqui demoro 20 minutos a chegar a casa, a pé. Quase que posso fazer um guia Lonely Planet sobre Amman.
Diário desde Amman#1
1. É curioso que este blog de trabalho já tenha dois meses - o tempo em que estou na Jordânia - e pouco ou nada eu tenha escrito sobre Amman-cidade. Sobre downtown, sobre o chá de maramya, no Jafra a fumar sheesha de duas maçãs, sobre a comida incrível e coisas com tomilho, que me deixa com quilos a mais e não consigo deixar de comer como se fosse árabe desde pequenina (já é normal eu falar de comida quando viajo), sobre os meus pequenos-almoços com a mãe da Dália, sobre hummus e pão espalmado, sobre o café turco com sabor a cardomomo, sobre a minha tentativa de visitar a única galeria de arte que ninguém-sabe-onde-fica. Não sei por que razão ainda não escrevi sobre isto. Mas talvez não tivesse tido tempo para tamanhos devaneios, porque eu entrei em Amman, verdadeiramente, através do campo de refugiados de Jerash. E lá a vida parece ser mais animada!
2. É meia noite-e-vinte-e-um e há um rebuliço lá fora, uma vozearia, motim com gente que me entra no meu pensamento. Eu não consigo pensar, porque tenho uma festa cuja língua não entendo a dominar-me a lógica. E esta lógica é da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita. Há um karaoke tão perto de casa, que posso jurar que alguém deixou um filme ligado com o volume no máximo. E isto vai até às 4 da matina. Com sorte há quem afine, embora eu não entenda as letras; mas na grande maioria todos desafinam. Enquanto isso, alguém trabalha em metalurgia, bem o ouço, as crianças atiram bombinhas de estourar, buzinas competem na melodia, mas o som do teclado ainda reverbera. Mais uma bombinha. Instrumentos de ritmo oriental. Os pássaros que durante a tarde chilreiam nas árvores devem estar a tentar dormir.
3. Amman parece um puzzle. Isto é, a forma como as casas assentam na arquitetura, umas em cima das outras, da mesma cor (pressuposto obrigatório municipal para não estragar a paisagem) parecem peças que se vão encaixando, tridimensionais, à escala real. Mas além de um puzzle, é uma cidade sonora. As orações muçulmanas, oriundas das várias mesquitas da cidade, várias vezes ao dia. O vale em que assenta obriga o som a reter-se na cidade baixa, downtown, o genuíno ritmo cardíaco da cidade, onde se vende lenços palestinianos (os brancos e pretos), lenços jordanos (os vermelhos e brancos), DVD's pirata com todos os filmes que possamos desejar, porta-chaves, ouro, prata, sapatos, sapatilhas, pijamas e fatos de homens que os nossos avôs usavam. Há mulheres de hijab coloridos (os véus) e jovens de calças de ganga, telemóveis da moda e alguns turistas de mochila às costas. Um puzzle de gente!
4. É difícil escrever à noite, ao contrário de outros lugares, sobretudo hoje, sexta-feira, que é sábado para este lado do globo. Eu explico: o meu primeiro dia útil de trabalho é ao domingo, porque, na Jordânia, ele é a segunda europeia, o domingo é o sábado, o sábado a sexta, a sexta a quinta... . Isso mesmo. Não admira, portanto, que anda sempre trocada, qual despertar abrupto, semana-a-semana. E por falar em despertar, ainda não me habituei muito bem às orações às 4 da manhã. Devia começar a pensar em despertar a essa hora de vez.
5. O Ramadão, mês santo para os muçulmanos, começou dia 9 de Julho. Isso, na prática, é o nono mês do calendário islâmico, e significa jejum como ritual, o quarto pilar do Islão. São cinco: Professar e aceitar a crença; rezar cinco vezes ao longo do dia; pagar dádivas rituais; fazer Peregrinação a Meca, na Arábia Saudita; observar as obrigações do Ramadão. Ou seja, abster-se de fumar, beber, comer, ter relações sexuais, entre outras, desde o nascer do dia até ao pôr-do-sol. Para os estrangeiros e não muçulmanos isto significa que, por respeito, não podem fazer nada disto em público e as mulheres devem ter ainda mais decoro na forma de vestir durante o dia. Facto: estes dias fui comprar um sumo de morango e disse-me o funcionário:
-Sabe que só pode beber isso em sua casa, não sabe?
- Sim, eu sei, obrigada!
E caminhei 20 minutos, sobre um calor infernal, com o sumo de fruta fresco, mas a ameaçar fermentar caso não acelerasse o passo. Confesso, eu também queria um bocadinho de silêncio, agora, para poder dormir.
6. O karaoke acabou, há só uma voz grave e encafuada que vem de um microfone de má qualidade, mas outro bar resolveu aumentar o som da música e os miúdos estão entusiasmados com as bombinhas. Impossível dormir assim, invejo os pássaros nas árvores silenciosos. É melhor ir ver um filme. "Where do we go now", 7.1 no IMDB, da libanesa Nadine Labaki. Já vi o "Caramelo", em São Paulo, e gostei muito. É isso, vou ver Nadine. Não sei por que não me lembrei disto antes.
Jerash Refugee Camp| Playing on the alleys
Researching at Jerash Refugee Camp|Remember Us
Jerash refugee camp| Researching for Remember Us| The persistance of the eyes looking for details!
Photo Essay at Jerash Refugee Camp. Through the window!
Viver no futuro, revisitar o passado em tempo real, misturar culturas
A máquina do tempo existe. Mas não da forma como a ficção científica a ilustra, acelerando partículas, com complexidade tecnológica. É uma máquina de carne e osso e que, esporadicamente, pensa. É que o que torna o tempo um assunto tão apaixonante, marcado pela intensidade da vivência e da fugacidade dos acontecimentos. Da impermanência!
Percebi que aprendi a ser capaz de viver no futuro, de revisitar o passado em tempo real e de misturar culturas em concomitância. Não sou nenhum ser super-dotado, nem sequer especialista em Física Quântica, sabemos, mas, se tiver de fazer uma retrospectiva dos últimos anos, posso assegurar que o fato de atrasar, acertar ou adiantar o relógio, para me enquadrar no fuso horário das coordenadas geográficas onde me encontro, reveste-me de uma película atemporal.
Agora saber em que fuso horário, realmente, a minha neurobiologia vive isso é outra história. Talvez explique confidenciar que adianto sempre o meu relógio 7 minutos. Manias!
Vejamos: viver no Brasil pôs-me 5 horas atrás em relação ao lugar onde nasci: Portugal. Viajar para a Europa dá-me uma hora a mais no futuro, dialogando com a família que está nesse tempo anterior.
E, agora, por causa destes meses na Jordânia, poderei questionar, avanço duas horas no tempo, um futuro imaginado, uma outra cadência, (desértica?), onde se plasma uma certa tropicalidade. Com isto, apercebo-me, plasma-se, mistura-se, revolve-se o pedaço de cultura que fica dos lugares que visito.
Então, por isso, subverto o tempo (qual alquimista) e misturo as partículas, ludibriando, primeiro a minha percepção de tempo real, e, depois, intercalando, dessa forma, uma espécie de ubiquidade parcial. Apercebo-me deste guisado (mea culpa deus Chronos) onde horas, minutos e segundos me fazem partilhar o acordar de amigos no Brasil; almoçar, virtualmente, em Portugal, e escrever mais à frente, no Médio Oriente. O meu amigo R. Meireles, de Portugal, bem me advertiu, há tempos, pelo fato de ouvir um programa sobre Marrocos com a minha voz, que tive de finalizar enquanto já estava na Jordânia. "Tu começas a ter o dom da omnipresença". A questão não tem nada de esotérico, asseguro, nem é nenhum dom, atesto, mas sim o fato de as circunstâncias da vida, num ato de sobrevivência, me terem empurrado para uma certa especialização em subverter e agarrar os vários ritmos cardíacos do tempo, para continuar a namorar uma paixão (ou doença) inexplicável a que se chama Jornalismo. De resto, um aviso aos distraídos: diz a Ciência que não existem 24 horas, mas o dia sideral tem, isso sim, 23h e 56 minutos e 4 segundos. Onde podemos resgatar os restantes 3 minutos e 56 segundos surripiados? Vêem. O tempo somos nós!
Inside Story. Onde day the sun will shine again, we can read just bellow this kitchen window. Researching for Remember Us Documentary by Dalia Abuzeid