“Eu discordo. Sua voz é bonita e eu mereço ser mimado às vezes.” brincou. Victor riu abertamente diante da história contada. Sua caligrafia habitual era um garrancho, mas a assinatura era pomposa como a de um aristocrata; herança da criação rigorosa que sua mãe recebeu de Lady Tremaine e repassou ao filho. ‘Nós já fomos nobres.’ ela dizia 'E uma vez nobre, sempre nobre.’ ele não ligava, mas os treinos de caligrafia renderam em um autógrafo bonito e pretensioso, então era perfeito. “Todas as minhas versões são tipo um golden retriever perto de você, huh?” Sorriu porque sabia que era verdade, mesmo sem nunca ter visto. “Obrigado por inflar o ego dos meus eus. Depois eu assino seu tênis e dessa vez faço não desaparecer nunca mais.” Era uma vantagem de sua habilidade mágica, que ele tinha usando muito pouco desde o dia do Salvador por medo de sangrar e entrar em pânico. Mas em algum momento teria de tentar. “Acho que sim. Tem coisa que acaba virando só apego bobo.” Concordou. A próxima fala dela o deixou pensativo. Nunca tinha racionalizado sobre o quão mudados eles estavam. Adultos com responsabilidades, não mais crianças correndo na lama, também com responsabilidades, mas pouco cientes disso. A reflexão o deixou em transe enquanto andava e subitamente Victor se sentiu autoconsciente. Como será que ela o via agora? Estava diferente na aparência, no jeito de se vestir e se comportar. Carregava uma fama de quem não prestava e se orgulhava disso toda vez que lhe garantia uma diversão de uma noite só. Mas a opinião dela era diferente da de qualquer outra pessoa. Ele só acordou quando ouviu a pergunta sobre a fita cassete, suspirando pesadamente em resposta. “Não. Nunca tive coragem e agora tô com um ódio por isso… Devia ter escutado.” fez cara feia, mesmo que ela não fosse ver. Não queria pensar no assunto, em sua insistência pedante ou na covardia de não ouvir o que seu pai havia lhe gravado. Então focou novamente no falatório dela, que o levou de volta para a dimensão tranquila onde estavam antes. “Que lugares estranhos?” perguntou, rindo baixo. Calculou, percebendo que seria mais rápido chegar em seu dormitório, então mudou o caminho. “Nem sei mais o que é dormir direito, Babes. Tenho tanta merda de pesadelo, acordo um monte de vezes durante a noite…” reclamou, sem saber se ela ainda prestava atenção devido ao tom de voz sonolento. Uma vez no dormitório, foi um pouquinho mais difícil do que ele tinha previsto abrir a porta do apartamento e então de seu quarto com a jovem pendurada nas costas. “Baby bird!” chamou, cutucando o nariz dela para que acordasse. “Desce aí, não sou muito delicado, se for te colocar acabo te derrubando.” sorriu, indicando a cama de casal. As paredes já estavam cobertas com seus desenhos e pôsteres, mas o resto do cômodo era relativamente organizado. Quando se deu conta já estavam deitados lado a lado, emaranhados nos lençóis cheirosos. Uma das coisas bobas que Victor mais amava em Arthurian era poder comprar coisas como amaciante de roupas e travesseiros fofos. Não estava com sono, então apenas ficou olhando-a esperando a magia acontecer. Era fascinante ver pessoas caindo no sono com facilidade, já que ele nunca tinha tido essa capacidade. Mas seus olhos captaram outros detalhes, coisas que antes passavam despercebidas ao seu olhar infantil. Ela ainda tinha a mesma pinta no nariz, bochechas coradas, pele macia ao toque. Uma silhueta sinuosa. E das mais lindas. Lábios que prenderam seu olhar sem volta. Como podia ter passado tanto tempo sem notar? Talvez por medo de arruinar a conexão que reconstruíam. Franziu a testa, de uma vez percebendo que, crescidos, eram um homem e uma mulher. E que desde que se reaproximaram, subconscientemente ela mexia com seus desejos; causava uma atração diferente que ele sequer saberia explicar. Valia a pena arriscar? Sem pensar muito ele levou uma mão ao rosto alheio, afastando uma mecha de cabelo castanho. “Vai me matar se eu roubar uns minutos do seu sono pra te dar um beijo?”
moveu a cabeça, veemente negando. “tudo bem, você tá dizendo isso, agora eu vou te provar que eu canto muito mal. vou provar em cima de um palco!” decidiu repentinamente, aceitando um desafio sequer havia proposto. baby não era alguém que se envergonhava com facilidade, tampouco ocultava sua personalidade abundante de pequenos detalhes que ninguém pedira — e somente por isso existiam. “são, é, praticamente. tudo depende da sua raiva do dia… você é meio temperamental, sabia?” contava como se fosse algo surpreendente para ela, mesmo lidando anos com alguns dos lados mais improváveis de victor, alguns nem mesmo chegando a existir no presente em questão. “mas sim, é que nem um cachorrão.” e coloca cachorrão nisso! faziam anos que as alturas eram discrepante, mas assistir o mundo, ao menos dos corredores da academia, eram uma visão e tanto. (queria se lembrar mais tarde de caminharem do lado de fora, em algum lugar bem verde, vislumbrando liberdade). “só me agradeça quando adivinhar tudo que eu já te falei.” sabia mais que ninguém o quão desagradável agiu algumas vezes, mas não se arrependia, projetava a verdade de todas as ações. apegava-se a promessas, mas teria que esquecer todas que aquele victor não possuía lembranças. levantou o polegar sobre a história da pintura no tênis, ainda que não desse muito para ver, a ponta do dedo encostava no pescoço do amigo. “todos meus apegos devem ser bobos.” sorriu sem contemplar o pensamento. “você vai achar e ouvir, vic. eu sei que não é só ouvir, tudo bem ter demorado pra fazer isso.” a maioria das coisas, baby sentia constantemente, eram pesadas demais para assimilar e preferia que voassem com o vento — como sentimentos e emoções fixas, tudo que pudesse permanecer era complicado e, sobretudo, desesperador. “todos os lugares que tem merlin no nome ou… onde eu acho que ele vai estar?” torceu o nariz, os olhos ainda fechados. “não são lugares estranhos, tem piores, mas ando pensativa sobre esses.” suspirou alto, sem intenções de refletir. merlin era merlin e tudo bem (não para ela, especificamente). resmungou com a atenção sendo chamada, passando a mão no rosto como se um bichinho a pertubasse, de fato havia cochilado alguns segundos. desceu com facilidade, no momento que soltou as pernas, colocou os pés no chão sem se importar com o saltinho. percebera não estar em seu quarto, mas não era importante, seguiria a mesma trajetória que era embaixo das cobertas e com a cabeça apoiada no travesseiro fofo e cheiroso. estava confortável, victor ao seu lado a deixava confortável. faltava uma agudeza de sentidos, pois demorava a compreender algumas coisas sem palavras, antes de serem anunciadas. estava ali, afinal; no olhar contínuo, na proximidade. baby sentia o carinho perdurar e, até mesmo quando victor piscava, naqueles cento e ciquenta milissegundos, ela não deixava de senti-lo. beijar?, indagou-se. nunca imaginava-se beijando pessoas muito altas, o motivo era simples: não alcançava-as. sorriu para ele calmamente, as bochechas salientes. não! era sobre beijar victor e não simplesmente beijar. movia-se as próprias intenções para ser condescendente naquele momento. “eu não te mataria mesmo se você quisesse me matar.” apoiou os braços no tórax alheio, parcialmente sobre o corpo para que pudesse olhá-lo e analisá-lo. “vamos chamar isso de eu te beijando e depois, se você gostar, você me beija.” não esperou resposta antes de fechar os olhos e inclinar-se na direção dos lábios alheios para capturar o inferior suavemente. baby não tinha pressa, algo que nunca tinha feito antes — todos os beijos eram únicos e especiais para ela, assim como o verdadeiro amor em todas as suas ramificações —, então não precisava de precaução. era simples, fácil e agradável.