Um brinde às noites mal dormidas, um brinde àqueles que decidiram ficar, mesmo em meio à tempestade, mesmo com tantas feridas. Um brinde aos poetas enterrados nas lembranças da população. Um brinde às marchas e à manifestação, um brinde à nossa revolução interior, um brinde aos bares cheios de almas carentes, mentes estúpidas e desamores, e àqueles que utilizam tudo isso como ingrediente essencial para atingir a felicidade. Um brinde à morte que anda de mãos dadas com a nossa vida todos os dias, se é que você me entende. À morte inside. Um brinde a este, a esta, àquele e àquela, todos eles paralisados pela incerteza das direções, confundidos pelas grandes armadilhas do coração, com um copo de vinho nas mãos, um cigarro entre os lábios e a alma soterrada na solidão. Um brinde à ironia também, que faz tudo isso ser um tanto poético e muito bonito, quem sabe. Um brinde à arte que carregamos no peito, ao poema que elaboramos a todo e qualquer momento, à fotografia que guardamos na memória. Aliás, um brinde aos dias memoráveis, felizes, tediosos, melancólicos, frios, proveitosos. Um brinde a todos os outros dias, aos quadros do Louvre, aos vinis e à internet. Um brinde ao nosso admirável mundo novo. Um brinde à depressão, ao mal do século. Um brinde ao próprio século e tudo o que ele nos trouxe até então. Enfim, um brinde a nós. Um brinde à nossa embriaguez que nos levou ao topo da glória, e à lucidez que nos roubou a memória. Um brinde aos contrastes e contradições. Um brinde a nossas paixões, um brinde à música, à dança, ao teatro e à literatura que nos serve de comida a cada dia que passa. Um brinde a tudo o que passa. Um brinde a você e eu, um brinde à eternidade, que também passa, um brinde… Um brinde ao que nos limitamos, um brinde ao que exploramos e desbravamos, ao que abraçamos, podemos abraçar, deixamos de abraçar; um brinde ao que vivemos desde a escuridão até a… clara sofreguisolidão.