i’m your calico cat; here to see you | kennelot {flashback, 1976}
Uma cerveja era exatamente o que precisava após um dia de trabalho árduo no escritório. De alguma forma, parecia que os dias em que tinha de lidar com papéis, relatórios e burocracias conseguiam ser muito mais cansativos que os dias passados em investigações. O exercício mental era muito recompensador, claro, e ter uma prova física de seu trabalho era algo que nem sempre conseguia quando estava em campo. A bebida era apenas algo para relaxar a aliviar, ainda que os bares fossem o cenário de muitas brigas em que tinha se metido. Apesar de seu temperamento ter melhorado consideravelmente desde a adolescência, Kenneth não podia se gabar de ser completamente pacífico. Em especial quando havia uma quantidade mais significativa de álcool em seu sangue, podia acabar recorrendo aos velhos hábitos, e aquela noite parecia ser uma dessas noites.
Conforme um dos clientes do bar começava a falar besteiras sobre nascidos trouxas, o recém formado auror sentia o sangue ferver. Não era um tema que deixava o próprio em exposição, mas sabia que muitos de seus amigos se encaixavam naquele rótulo, que ele mesmo acreditava ser bastante desnecessário. Dessa forma, quando mandou o outro bruxo calar a boca antes de desferir um golpe certeiro na direção do rosto dele, sua motivação era apenas defender aqueles com quem ele se importava. Quando um golpe o atingiu, entretanto, começou a duvidar se aquela decisão tinha sido a mais acertada. Como iria explicar aquilo para seus superiores? Mas já era tarde demais, e foi apenas quando os amigos do idiota com quem brigava o tiraram de perto que a adrenalina começou a cair. A realização de que tinha se metido em uma briga de novo poderia ser frustrante, não fosse a crença de que daquela vez realmente tivera uma boa razão.
Sua respiração era entrecortada, e podia sentir alguns olhares dos outros clientes nele. Observando o próprio punho, levemente sujo de sangue, que não estava completamente certo se era seu ou alheio, começou a se arrastar para as beiradas do bar. Sentou-se na última cadeira do balcão, onde apenas o barman iria procurá-lo, e era exatamente por ele que Kenneth esperava. “Can I get some ice, mate?” Pediu, levantando o olhar para encontrar o moreno que era provavelmente seu melhor amigo em momentos como aqueles. Não sabia quando esse relacionamento com Lancelot começara, e, parando para pensar, era apenas natural que o barman estivesse sempre lá, nos momentos certos. Em dias mais calmos apenas jogavam conversa fora, o outro sendo um ótimo ouvinte para que pudesse desabafar sobre as dificuldades do treinamento. Acreditava que o mais velho poderia facilmente recitar os testes que faziam parte do processo, afinal, ele realmente estava sempre ali contando o que tinha acontecido em seu dia. Quando as noites eram mais agitadas, como naquela, Lancelot sempre tinha um pouco de gelo para oferecer, e o olhar de repreensão sempre vinha acompanhado de um sorriso que Ken tinha passado a apreciar.
Até quando Lancelot continuaria a negar a si mesmo que as coisas estavam completamente normais? Lance havia aceitado que ninguém era igual. Que pessoas tinham opiniões diferentes, gostos diferentes, sexualidades diferentes. Tudo aprendido com um bom exemplo de seus irmão e irmã. Mesmo assim, o peito doía um pouco em pensar que comparado com seus dois maiores exemplos, ele não era ninguém. Que seus sobrinhos poderiam olhar para ele, e achar que ele era um inútil. Ele não se sentia inútil por trabalhar em um bar. Muito pelo contrário. Ele amava o lugar. Adorava conhecer pessoas novas. Poder sempre saber o que se passava no mundo bruxo, mas algumas vezes enquanto limpava o estabelecimento, e olhava as janelas do Caldeirão Furado, não poderia pensar se haveria algo mais na vida do que aquilo. Se havia algo esperando por ele. Que ele nunca havia tido coragem de ir atrás. Aquelas dúvidas o deixavam extremamente ansioso. Ainda mais depois de seus relacionamentos parecerem ir por água a baixo. Não que ele tivesse arrependimento. Amou suas namoradas como todo seu coração, e sentiu a dor do termino delas da pior forma possível, mas ainda encarava aquele vazio pensando que estava destinado a ficar sozinho apenas sendo um espectador da vida dos outros.
Estava tão distraído que nem mesmo havia visto a confusão que havia começado a sua frente. E apoiou o queixo na vassoura quando viu quem estava no meio da confusão. Balançou a cabeça negativamente. Aquele gênio ainda seria o fim de Kenneth. Suspirou quando o bruxo se moveu para o canto, e então foi até o outro bruxo. “Para fora.” Sabia que não era certo espantar clientes ou mandá-los embora, talvez até mesmo ouvisse uma ou duas palavras do seu chefe sobre isso, mas aquele era seu turno. Ele ainda havia sido educado. “Se não foi lhe ensinado educação e respeito durante toda sua vida, não se preocupe que aqui no bar, nós podemos ensinar.” Tirou a varinha de seus bolsos, e por mais que o homem o mandasse sair dali e que ele também era escória, Lancelot balançou a cabeça de um lado para o outro com o sorriso travesso no rosto. “Infelizmente, meu turno, minhas regras. Se quer beber ache um outro lugar.” Ele apontou a varinha para o cliente. “Tenho direito de usar feitiços dentro do meu estabelecimentos por auto defesa, e aposto que todos os meus bons clientes poderiam alegar que você deu o primeiro soco. Sendo verdade ou não. Por isso, nem pense em ir a algum lugar chorar sobre o nariz quebrado para alguma autoridade. Outra coisa, acredito que o nosso outro cliente lhe fez um favor. Já que está menos feio que antes.” E então Lancelot empunhou a varinha com um giro fazendo um feitiço simples utilizando o vento para expulsar o homem do local. Com seus amigos andando para fora do lado. Só escutou o barulho do homem caindo de bunda do lado de fora. “Não esqueçam de deixar a gorjeta.” Falou por cima, enquanto os outros saiam a contra gosto e ele dava risada.
Algumas pessoas do lado davam risadas se divertindo com a cena e outras batiam palmas. Suspirou indo até ao último banco. Preparando-se para o sermão. “Kenneth Jones.” O gelo na mão. Olhou para o bruxo e balançou a cabeça enquanto sentava-se no banco ao lado. “Deixa que eu faço isso.” Pegou a mão alheia e a estendeu sobre sua coxa enquanto com o pano limpava a mão e os dedos do outro com sangue. Levantou os olhos para o outro. “Bem..Você deveria aprender a controlar seus nervo!” Começou. Ken havia melhorado bastante seu gênio, e Lancelot sabia que ele não havia feito aquilo sem razão, mas o outro não deveria se machucar nesse processo. “Não vou dar outro discurso, você já está acostumado com eles, mas você não deveria deixar um idiota como aquele ganhar de você assim tão fácil. E antes que você me fale que você ganhou e ele perdeu. Eu deixo bem claro que os dois perderam. Olhe isso. Sua linda mão sangrando. Seu idiota grandão.” Balançou a cabeça e pegou a varinha novamente. “Accio maleta de cuidados.” Soltou um suspiro, enquanto abria as coisas para tratar da mão alheia. Não sabia como aquela pequena queda pelo outro bruxo havia começado. Sabia que não era mais do que isso, pois jamais se aventuraria a falar sobre aquilo ou sobre seus sentimentos por ele. Kenneth era mais jovem, muito mais bonito e muito seguro de si. Coisas que Lance só invejava no outro. Para Lance era suficiente ter a companhia de Ken, e sua amizade. Sem contar que ele não era corajoso como sua irmã para aceitar seus sentimentos por alguém do mesmo sexo. “Prontinho, idiota. Agora vê se cuida dessa pata machucada. Quem sabe assim não acaba morrendo no trabalho. Fique aí, vou pegar outra bebida para você.”