“Eu não estou dizendo que você não deve se sentir magoado. Eu sei o que eu fiz, e eu sei o que isso significou na vida da Scar e na sua. Você acha que eu não me culpo? Eu teria feito diferente se eu tivesse podido, Ben.” Helena sempre fora sincera, pelo menos para expressar-se quando sentia-se injustiçada. Entretanto, não era como se realmente estivesse sendo, então suas palavras soavam apenas como desculpas pra justificar seus erros. A forma como Benjamin falava fazia com que ela parecesse uma mulher sem nada dentro do peito, sem consciência dos atos, quando tudo o que ela fazia a noite era pensar no resultado de todas as atitudes e decisões ruins que cometera. O nariz e as vias nasais arderam de tal forma quando a garganta secou que os olhos lacrimejaram, mesmo prendendo o choro num tranco. “Eu não posso fazer as escolhas do Zane no lugar dele. Tudo o que eu posso fazer é impedi-lo de prejudicar qualquer um de vocês, e é o que eu tenho feito.” Não queria continuar com aquele assunto. Helena não tinha como defender nem a si mesma, quem diria Zane. Além do mais, suas batalhas eram distintas, e os problemas do Fitzgerald com os Campbell fugiam demais de sua ossada. A Garcia nunca se meteria no que dizia respeito aos traumas emocionais do loiro causados pela empresa. Era pessoal, era íntimo, e tão dele. Não se atreveria.
“É justamente com a minha participação na empresa que eu quero tentar ajudar a resolver as coisas. Benjamin, eu sou uma gerente de negócios. Eu não tenho contato com o chão de fábrica ou com as pessoas que trabalham no campo, o meu trabalho é feito a partir de números e foco em resultado. Mas isso não quer dizer que eu não me importo com eles e que eu fiquei menos chocada que qualquer um.” A voz da morena era trêmula e baixa, na tentativa de não ser traída pelas lágrimas, mas de nada adiantou. Era difícil e doloroso demais vê-lo duvidar de sua índole, mesmo que tivesse motivos para acreditar nisso. Mesmo que, vez ou outra, a própria Garcia duvidasse de si mesma também, depois de tudo pelo o que passara desacreditando cada uma das pessoas que amava sobre a própria fé depositada em si. “Eu estive trabalhando nessa empresa por tempo suficiente pra perceber que as coisas não vão se consertar sozinhas. E eu estou cansada de ter que recuperar dinheiro para uma má gestão que depende da sorte da safra e que só gasta e não lucra. Que agora, faz coisa ainda pior. É por isso que eu estou fazendo tudo isso. Pelo menos com algum poder lá dentro, eu posso tentar fazer alguma coisa pra mudar.” As pequenas mãos esfregaram o rosto de forma que limpassem as lágrimas, como se a dor de cabeça e a dor no peito fossem sumir também. Estava no limite do stress, e as últimas palavras de Benjamin a acertaram como um tiro. O choro viera com força, embora gradativo e silencioso, e então Helena cobriu o rosto, soluçando abafado como o único meio de expressar-se. Uma, duas, três vezes, até que tentou se acalmar, utilizando as mangas da blusa comprida para secar os olhos, o encarando pouco depois. A morena se abraçou. “Então o que você vai fazer agora? Porque parece que eu não posso contar com nenhuma parte sua no momento, quando tudo o que eu precisava era que fosse justamente ao contrário. Mas você não vai entender, não é?”
“Eu não posso voltar no tempo, Ben, então a decisão é sua. E independente da sua escolha entre ficar ou partir, eu só quero que você saiba que eu ainda estarei aqui pra você.”
Aquilo era difícil. Na verdade, tudo aquilo era tão...Tão difícil. Olhar Helena daquele jeito abalava o Campbell de uma maneira que sequer poderia ser descrita. Era um paradoxo. Seu corpo quase se movimentou para contornar o dela em um abraço quando os soluços da mesma escaparam, era a reação normal que tinha: A necessidade de fazê-la se sentir melhor. Todavia, essa reação quase basal era contraposta pelo turbilhão de sentimentos que rondavam sua cabeça e apertava sua garganta.
Benjamin arrastou a mão pelo próprio rosto, como se o gesto o fizesse voltar ao rumo da conversa, o que não fazia, na realidade. Balançou a cabeça negativamente, espantando de si a reação instintiva. Queria abraça-la mas, não queria. Queria discutir com ela, mas, não queria. Queria e essa era a única coisa da qual tinha completa certeza de querer, que aquela situação nunca tivesse acontecido e que agora eles não tivessem de se encontrar dessa maneira. O ar pareceu ficar rarefeito, cortante e não demorou até que o Campbell tivesse uma noção do que viria a seguir. Não demoraria até seu pulmão parecer três vezes menor, e as palpitações ficarem cada vez mais violenta. Se ele não se tirasse daquela situação, explodiria em uma reação ansiosa, daquelas que ele definitivamente não gostava que ninguém presenciasse. Os dois passos certeiros quebraram a distância final entre os dois. A mão direita de Benjamin foi até a nuca da Garcia, com as falanges adentrando o cabelo escuro. Ele se curvou. - Eu queria que nada disso tivesse acontecido. Eu só....Eu não posso fazer isso agora, Helena. - Disse, e então os lábios selaram contra a pele dela. O toque foi contra a testa da mulher. Demorando-se com os lábios no local por alguns segundos, até se afastar por completo e então seguir em direção a porta, se retirando do local, e respirando com mais dificuldade. Desejava que o universo e seu corpo lhe dessem tempo ao menos de estar suficientemente longe dali. A chegar em casa, onde seu mundo - ou parte dele - podia cair sozinho, sem testemunhas.