Louis parecia preso ao mesmo momento, eram dias que acordava ao lado do homem de torso nu, de costas para ele e seguia até o quarto onde a menina chorava, assustada, cantava a mesma música e sentia o toque de sua mãozinha em seu rosto, as mudanças eram poucas, as vezes ouvia histórias de sua família e poderia jurar que ouvia a voz de Lucy, em outros momentos, conseguia ouvir a voz de Aillish, rindo sozinho com a sensação nostálgica e deliciosa, então ouvia Nina de novo, chamando-o baixinho e pedindo que ele acordasse logo. Parecia estranho estar tão desperto ali, com aquela sensação calorosa e deliciosa, mas em algum momento, a escuridão era tudo o que via. Era o momento que ele tentava se mexer, falar, andar, ou só chorar, não conseguia, era uma prisão em que todos os seus sentidos congelavam e o jovem Delacour não conseguia pensar devidamente, era o momento que tentava chamar por Dominique ou Victoire, também se via preso na sensação de querer sua mãe por perto ou o seu pai, mas naquele dia em especial, alguma coisa mudou.
Ele conseguiu mexer o dedo, sentindo a pele lisa em contato com a ponta do seu dedão, sentiu um cheiro diferente e suspirou, conseguiu fazer isso, sentiu a lágrima deslizando na sua bochecha e tentou uma só vez. Quando os olhos se abriram minimamente e conseguiu ver os cabelos que conhecia tão bem. “Ryan!” A voz soou tão baixa, fraca e rouca que duvidou que ele conseguisse entender. Dentre todas as coisas que tinha em seu sonho, ele era o único que não se tornava tão frequente, apesar de sentir o cheiro da erva e ainda poder ouvir as palavras pertinentes ‘Não está com pressa?’, porque sempre estava com pressa quando estava com ele. “Desculpa” Sussurrou como se pudesse responder o que sua mente formava e não a realidade. Estava confuso, a luz forte demais, obrigando-o a erguer sua mão, o que lhe causou dor e arrancou um gemido preguiçoso, fraco, quase silencioso. “Onde…?”
O estrago causada pela bomba com toda certeza era irreversível, reparável, mas os danos psicológicos causados não simplesmente desapareceriam de uma hora para a outra, aquela fortaleza aparentemente impenetrável podia ser tocada e apenas agora os bruxos podiam ver com os próprios olhos os perigos do mundo depois de um longo tempo de letargia, tinham se descuidado, esquecido da violência e da devastação, do caos e da magia feita pelos trouxas sem nem mesmo usar magia, aquelas armas que deviam ser consideradas verdadeiros feitiços imperdoáveis. Louis saíra machucado, Sorem se machucara gravemente também, mas pelo menos estavam vivos, isso, entretanto não diminuía o aperto no coração e a sensação de impotência diante da situação. -- Bom dia, Margareth. -- cumprimentou a enfermeira com um gesto educado enquanto passava por ela para sua visita. Tinha visitado Louis todos os dias pelas últimas semanas e parecia um verdadeiro ritual, mas era importante para sua própria sanidade vê-lo vivo, respirando, certificar-se de que tudo estava bem. Nos últimos tempos ele tinha se ocupado em concentrar-se em qualquer coisa que não fossem os próprios pensamentos, fazia poções para os feridos, caminhava pelas ruas em busca de pessoas que precisassem de ajuda, ia ao hospital voluntariar-se para algum serviço... A vida das pessoas aos poucos começava a retomar o ritmo de antes, mas já não era mais o mesmo... Focar nas aulas estava se tornando um fardo, o mundo girava em torno de si e ele, entretanto, não movia. -- E aí, Weasley. -- cumprimentou entrando no quarto. Sua mãe dormia na desconfortável cadeira ao lado da cama e Ryan se aproximou com suavidade dela. -- Senhora Weasley? -- chamou entregando-lhe o copo de café que pegara momentos antes. -- Pode ir pra casa, tenta descansar um pouco, sim? -- ela parecia hesitante de ir, mas finalmente cedeu e saiu do quarto. As flores e presentes em torno da cama mostravam exatamente o quão queria Louis era, visitas chegavam para ele todos os dias, a toda hora. Ailish também ia visitá-lo com frequência, a pequena Nina parecia um tanto quanto aflita para que ele acordasse logo, mas com uma promessa feita diziam que ele logo acordaria. Encarou a figura quase angelical na cama e perguntou-se até que ponto acreditava naquilo.
Com um movimento da varinha as cortinas da janela se abriram, revelando o sol frio daquela manhã ainda mais fria. -- Se você não acordar logo vamos ter que arrumar um caminhão pra tirar essas coisas daqui, kitty. -- disse alcançando uma das caixas de chocolate que ele ganhara e levando um deles a boca. Tirou o casaco e o colocou em cima da cadeira, enquanto estava de costas para ele, começando a dobrar as mangas da blusa que ouviu um sussurro fraco atrás de si. Ergueu a varinha com afinco, assustado pela perspectiva de... qualquer coisa que fugisse minimamente do normal, eles precisavam de um pouco de normalidade em tempos como aquele. -- Shit. -- o sorriso que se formou em seus lábios foi automático, indo mais próximo dele. O cheiro de remédios, lençóis de hospital e soros se impregnava em sua pele e em sua mente como uma tatuagem, mas a expressão do mais novo enquanto lentamente abria seus olhos com certeza era muito mais forte. -- Tá tudo bem. Você tá no hospital, mas não precisa se preocupar. -- os dedos correram os cabelos já não tão macios quanto antes dele, mas ainda sim seus cabelos, acariciou-os em uma tentativa de acalma-lo. Entrelaçou seus dedos aos dele e apertou-os com suavidade, sentindo-os tão mais fracos que quando estavam juntos debaixo de luzes bruxuleantes, seus corpos tornando-se um só em uma confusão de pele e suor. -- Eu vou chamar a enfermeira, um segundo...