VocĂȘ se lembra que hĂĄ quase um ano atrĂĄs, no meio de uma das nossas conversas, eu desisti daquela disputa sobre quem amava mais? Eu disse "VocĂȘ pode amar mais, amor. Eu vou deixar vocĂȘ ganhar a partir de hoje, porque eu preciso te amar um pouco menos. Tenho amado vocĂȘ absurdamente." Talvez, com o passar do tempo eu tenha me adaptado, o meu comportamento, a anatomia do meu corpo, a funcionalidade dos meus ĂłrgĂŁos. Lembro de como as lĂĄgrimas rolavam com facilidade ao te dizer aquelas palavras, mesmo tendo dificuldade para chorar. Foi naquela noite que percebi o quanto eu queria vocĂȘ, tĂnhamos voltado a nos falar hĂĄ apenas algumas semanas, os nossos lĂĄbios nunca sequer haviam se tocado, mas vocĂȘ era tĂŁo essencial, nos pertenciamos. VocĂȘ era a melhor parte do dia. Meus olhos te olhavam e cada canto dentro de mim, conversavam entre si a respeito da sua chegada. Claro como o alvorecer, cabelo molhado e um andado desajeitado que de longe jĂĄ dizia ter despertado sĂł para me ver. Para os atrios, era hora da dança. Os meus pulmĂ”es jĂĄ se preparavam para quando estivesse perto o suficiente, te inspirar o mĂĄximo possĂvel e o diafragma jĂĄ sabia bem onde ficar. Aquela voz rouca, ainda tĂmida, era mĂșsica para os meus ouvidos. VocĂȘ me abraçava forte e eu poderia morar bem ali, no meio da Rua dos Eucaliptos, dentro daquele abraço de quem acabou de sair do banho. As suas mĂŁos estavam sempre inquietas, procurando mais um lugar para acariciar, tenho certeza que se vocĂȘ pudesse, tocaria todos ao mesmo tempo. JĂĄ eu, se pudesse, seria um pouco menor para caber em suas mĂŁos sem tanto esforço. Quando repousava seu rosto entre as minhas mĂŁos, sentia que Deus havia criado elas exatamente para essa função. Logo sua voz perdia a timidez e iniciava minha canção favorita, sua risada. Era impossĂvel nĂŁo recompor minha postura e ficar exatamente diante de vocĂȘ para capturar esse momento pelo melhor Ăąngulo, vocĂȘ bem que tentava se esconder porquĂȘ eu te olhava exageradamente, mas nĂŁo haveria como evitar. Toda a empolgação do meu corpo sĂł cedia na hora de dormir, ouvindo sua respiração. Meus olhos fechavam com doçura, meu amor estava lĂĄ. A cada dia mais envolvida, eu faria qualquer coisa por vocĂȘ e era assustador. SerĂĄ que vocĂȘ jĂĄ amou alguĂ©m tanto assim? Receio que nao tenha sido eu. Me chamava pelo nome da prĂłpria Vida, mas vocĂȘ jĂĄ sentiu que deveria amar um pouco menos porque seus pulmĂ”es ficavam mais ansioso por algumas molĂ©culas do meu cheiro, do que por oxigĂȘnio? Os seus dedos tambĂ©m se adaptaram para encaixar perfeitamente Ă outras mĂŁos? VocĂȘ jĂĄ perdeu o sono por ter parado de ouvir uma respiração? Talvez eu devesse ter te amado um pouco menos, talvez devesse ter tentado um pouco mais. Ainda nĂŁo conseguimos.



















