“Sou inútil”, rabisquei essas palavras num caderno que sabia de mais sobre mim do que muita gente. Com pesar, meus olhos transformaram-se em oceanos e eu arfei, com dor no peito imensa. Como uma cascata que acabara de se formar, veio a primeira torrente de água, e a segunda, a terceira, e logo o rio já estava cheio. Lágrimas. O pensamento voou léguas, e num ínfimo instante, voltou para o caderno posto bem à minha frente. Olhei para as palavras escritas e vi a escuridão que elas revelavam. Para algumas pessoas “inutilidade” é fato cômico, que passa. Para mim, entretanto, era doído admitir e eu vivia tentando colocar aquilo na minha cabeça. “Sou inútil. Legal.” Mas eu já havia me conformado. Ser inútil não é bem o problema, a dificuldade aparece mesmo quando se é fraco. E eu fui fraca. E continuo sendo totalmente fraca. E continuarei sempre. Sinto-me atingida a cada palavra tropeçada, atropelada, dita até sem querer. Sensibilidade. “Eles não têm culpa. Ninguém tem.” digo, espantando tais pensamentos doídos. Quase estática, escrevi “Sou fraca”. Suspirei e percebi minhas mãos tremulando. A respiração descompassada me afligiu. Numa tentativa – falha – de organizar as mágoas, caminhei até lugar algum. Parei em frente ao espelho e chorei mais profundo. E chorei. E chorei até a visão ficar turva. A boca secou. Abafei meus gritos desesperados. Senti-me uma desgraçada. Minhas estribeiras se fragilizaram em meio a tanta dor e eu caí no chão. Desmoronei totalmente, com o coração feito borracha no fogo. Se derretendo sordidamente, como se me humilhasse. Sufoquei-me com a respiração desacertada e me embarguei em mais lágrimas. Levantei-me, meio tonta, do chão gelado. Talvez pela hipoglicemia de passar as últimas 12 horas sem colocar comida alguma no estômago. Mas a vontade foi de ficar caída. De se jogar novamente e ficar o resto de minha vida no chão, demonstrando ainda mais a minha inutilidade. Limpei a garganta, tentando desatar o nó. Pus-me de pé em frente ao caderno e fiquei encarando o estojo. Não era bem o estojo, era o compasso, que já, várias vezes servira de instrumento de mutilação. O peito apertou-se, os olhos enturvaram e eu engoli o choro. “Quantas voltas pode dar o coração em um milésimo de segundo, sem antes explodir?” A guerra era interior, se tornando exterior, e apostaria ter sido a pior de minhas guerras. O peito apertou-se mais uma vez e doeu até a náusea. Doeu mais do que o suportável. Mais do que o “doível”. Escrevi “É possível um coração ter cãimbra?”. A letra saiu um garrancho. Minhas mãos tremulavam tanto que nem a caneta eu conseguia segurar. Vieram mais de duzentos insultos em minha mente. Meu coração queimava. E o pior, eu não podia colocá-lo debaixo d’água para ele esfriar, assim como fazia quando queimava os dedos na panela. A vontade era de gritar e sair correndo pela rua, provocando espanto nas pessoas, as fazendo entrar correndo para o conforto de suas casas, com medo, e mesmo assim, sentindo-se inseguras. Pessoas agindo como se eu fosse um leão que fugiu do circo, ou um serial-killer à solta. Mas eu só era serial-killer de mim mesma e só era um leão que fugiu do circo, para mim mesma. Às vezes me passa pela mente que o problema está em mim, e não nos outros, como eu costumo pensar. Às vezes, a culpa nem é da sociedade, é minha mesma. Só eu que faço besteira nessa minha vida. A vida, de vez em quando, assemelha-se mesmo a um soco na cara. Um soco de lutador de UFC em uma pessoa muita da despreparada. Senti-me mais fraca impossível, então a paranoia veio, invadindo os pensamentos. “Eu vou mudar, vou esquecer-me das mágoas, vou ser uma pessoa diferente e feliz”, mas de quê adiantou pensar assim se, minutos depois, voltei ao normal com a mesma autoestima jogada no fundo do poço? Não havia nada que eu podia fazer a não ser chorar. E chorei.
Encarei mais uma vez o caderno e aquelas palavras. Escrevi mais alguns defeitos e observei a escuridão presente naquelas letras. Todos os meus defeitos mais latejantes em uma folha de papel, escritos em letras finas, porém, com peso de letras de neon e garrafais, me atormentando como se dissessem “Veja só como você não presta”. Sofri até a dor de cabeça – sempre presente – tornar-se mais forte, diria até, em seu ápice. Torturei-me tanto com aqueles dizeres (que, supostamente serviriam para aliviar as dores, como a psicóloga disse) que não duvido nada de que não tenham aparecido feridas enormes em meu inconsciente. Traumas antigos misturando-se com traumas recentes e a dor acumulando-se. Admiro muito não ter explodido e virado caquinhos. Admiro não ter morrido de tanta auto insuficiência, já que, eu realmente nunca fui boa o bastante para ninguém, inclusive para mim mesma. Mas já são outros quinhentos.