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@brisa-natural
Rachel McGivern
Scenes from a Marriage (1973), Ingmar Bergman
e uma barba por fazer…
Osho dizia que só conseguiríamos enxergar puramente um ao outro se tirássemos de nosso olhar toda a poluição e tudo aquilo que nos forma. se eu espero que você toque na minha mão enquanto caminhamos pelas ruas da cidade, a frustração disso não acontecer é puramente minha. se eu te enxergo bonito pela manhã mesmo com o cabelo bagunçado, isso é um reflexo de informações, códigos e conceitos que eu criei na minha cabeça. se eu me jogo na adrenalina da tua pele quente todos os dias é porque aquilo que me forma me assegura que você é um caminho confortável por onde posso me desfazer sem risco.
se eu olhar pra você agora, no entanto, o que eu verei será eu mesmo? se eu passar minhas mãos pela sua pele e se sua pele tomar minhas sinapses e transformá-las em afeto, isso será de mim, natural?
tantos medos.
desde o dia que pisei no mesmo espaço-lugar que você. e eu via você segundo aquilo que esperava há muito tempo: alguém que me via para além de um corpo. alguém que tocava na minha alma porque a via primeiro. eu vi você pelas lentes poluídas do meu coração manchado e Osho me detestaria por isso. mas seguimos, ambos, nos olhando e concluindo segundo nossos conceitos, teses, construções.
o amor é construção.
eu enxergo você pelo que você me proporciona. você só existe pra mim porque meus sistemas te notaram no meio da multidão de outras muitas pessoas que buscavam por paz. eu gostei do seu cheiro - que era o favorito da minha mente -, eu gostei da maneira como você se vestia, eu gostei de quando me abraçou com os braços apertando minhas costas - as sensações, também poluídas, vinham de mim até o seu encontro. nosso encontro era fruto de dois desejos, o meu e o seu, pelo amor-cometa que salva tudo e todos.
mas não éramos espelhos puros e imaculados.
mas não tínhamos o poder soberano de nos despirmos para enxergar o outro com pureza.
e quem é que quer abrir mão de todas as teses, bagagens e experiências em troca de um relacionamento puro e limpo? as pessoas se esbarram umas nas outras carregadas por outras histórias, cheias de outros traumas, com vontades impróprias. e o amor é propriedade. peito aberto, alma limpa, desejo de se entregar e de olhar sem viseira.
você é capaz de me amar por aquilo que eu sou e não por aquilo que você quer que eu seja? você é capaz de entrar numa relação inteiramente limpo de si mesmo e limpo, principalmente, de tudo que carregou até aqui?
renúncia.
hoje eu queria enxergar você e não aquilo que eu projeto em cima dos seus ombros. hoje eu queria enxergar todos os seus tropeços como parte de você e não como uma desculpa para eu ir embora na primeira mancada. hoje eu queria te enxergar como um ser humano perdido igual a mim, correndo atrás de um porto seguro no meio de um furacão que vem sem aviso prévio. hoje eu queria te enxergar sem pudor, sem medo de me arrepiar com o demônio que há em você, sem medo de me surpreender com o sobrenatural que habita em você, sem medo de encontrar lixo, dejeto, sujeira.
o amor sucumbe porque a gente se olha e não se vê. a gente nos vê. e é horrível perceber no outro aquilo mesmo que somos: ruins.
lembro como se fosse ontem (e talvez seja mesmo) da gente dizendo um ao outro que não nos esqueceríamos em hipótese alguma. eu lembro de você comendo hot dog enquanto ria e contava dos colegas do seu trabalho que depois de 7 anos casados terminaram e não se falaram mais, apesar de trabalharem na mesma empresa. eu lembro de você me contando isso em tom de desaprovação como se fôssemos diferentes deles na nossa estúpida e patética forma de terminar as coisas - o exercício da faculdade, as discussões, a transa.
eu lembro de tudo porque, mesmo depois de meses e já em outra, fico aqui pensando como a gente subestima a nossa capacidade de acabar com o encanto das coisas. como a gente consegue destruir uma história de anos por causa de um movimento e como achamos que, não, eu? eu nunca faria isso, eu nunca seria um dos casados e ficaria de birra pós-término. e eu escrevo isso dentro do ônibus ao mesmo tempo que acho graça e questiono a minha capacidade de não conseguir lidar com aquilo que fomos. parece um borrão na minha memória que não permite que eu consiga extrair dela um pedaço de lucidez (e eu já falei de lucidez uma outra vez). eu fico pensando em todas as falas carinhosas, em todos os momentos mansos e quentes, penso em você dentro de mim. você teve a audácia de entrar dentro de mim e, ao sair, nem olhar pra trás. e eu te olhava e olhava e olhava na esperança de que você percebesse que embora separados, poderíamos seguir em paz. em paz como naquele dia do hot dog e da sua feição estranha ao fato das pessoas se desconhecerem depois de habitarem o mesmo município, a mesma rua, a mesma casa e até o mesmo corpo.
você foi verdade?
passo os dias me questionando sobre com quem eu dividi a minha alma e a minha vontade de amar. era você? eu subestimava a sua capacidade de me esquecer pois você parecia tão honesto e hoje não tem nada e nem sei se algum dia teve.
“me esquece, mas não esquece meu nome” eu te sussurrava enquanto fazíamos amor e eu pensava que haveria a paz dos que não se esquecem mesmo que acabe o toque, o cheiro, a conexão.
você não olhou para trás e hoje somos iguais aos seus colegas, libertos dentro da nossa própria metáfora do esquecimento.