FICHAMENTO III - O filtro invisível
(PARISER, E. O filtro bolha. Cap. 1; Pag. 1-13. PDF)
Eli Pariser é co-fundador e chefe-executivo da UpWorthy, presidente da MoveOn.org, co-fundador da Avaaz.org e autor do best-seller The Bubble Filter (O filtro bolha). É ativista político na internet e seus trabalhos mostram como o conteúdo filtrado na internet personaliza as informações que acessamos na rede.
The Bubble Filter: what the internet is hiding from you foi lançado em 2011 e explica os mecanismos de personalização de busca utilizadas nas ferramentas de busca de sites como Google, Facebook, Amazon, que filtram os os resultados de busca de acordo com as informações dos usuários, sua localização e histórico de pesquisa e navegação.
Analisaremos neste trabalho seu primeiro capítulo, A corrida pela relevância, compreendido em 13 páginas e dividido em uma introdução sob o nome do capítulo e 4 macro-tópicos.
Já começa com uma citação forte de Andrew Lewis (site MetaFilter): “Se você está pagando por alguma coisa, você não é o cliente; você é o produto à venda.” É neste enfoque que o capítulo vai se desenrolar: no quanto as suas escolhas como “cliente” vão impulsionar suas características para ser vendido. Ou seja, a partir de suas escolhas, pesquisas, buscas, as fontes que terão acesso aos seus dados tentarão te “comprar” oferecendo produtos/serviços de seu interesse.
Pariser começa com o exemplo de Nicholas Negroponte, projetista de tecnologia do MIT, que acreditava numa evolução extraordinária para a televisão, com a qual o aparelho, ou o sistema por trás dele, fosse capaz de identificar os interesses das pessoas e selecionar automaticamente a programação a partir daí. Segundo Negroponte, “os aparelhos de TV atuais permitem que controlemos o brilho, o volume e o canal. [...] Os aparelhos do futuro permitirão que escolhamos entre sexo, violência e questões políticas.”
E a ideia não se restringia apenas à TV, mas abrangia também jornais, revistas e rádio, que seriam regidos por agentes inteligentes capazes de personalizar o mundo de acordo com os interesses de seus usuários.
Foi então que Jaron Lanier, um dos criadores da realidade virtual, veio rebater essa “utopia” criada por Negroponte, defendendo que as máquinas que gerariam os conteúdos para as pessoas poderiam transformar a interação entre humanos em algo artificial e inadequada. “Um modelo de nossos interesses criado por um agente será um modelo simplificado, e nos fará enxergar uma versão simplificada do mundo através do olhos do agente.”
Na tentativa frustrada de criar esse agente inteligente, a Microsoft lançou o Bob, sistema operacional representado por um bonequinho parecido com Bill Gates, e a Apple, uma década antes do iPhone, lançou o Newton, um “assistente informático pessoal”. Os produtos fracassaram, não alcançando vendas consideráveis e sofrendo duras críticas.
Para concluir a introdução, o autor ressalta que hoje não vemos esses agente inteligentes estampados em vitrines de lojas de produtos tecnológicos ou em parte alguma. Mas isso não quer dizer que não existam. Muito pelo contrário, estão escondidos sob a superfície dos sites que visitamos, acumulando informações sobre quem somos e sobre nossos interesses.
O problema de John Irving
Jeff Bezos, criador da Amazon.com, foi um dos primeiros a perceber que usar o poder da relevância poderia render bilhões de dólares. Em 1994, ele teve a ideia de vender livros online, como “um velho pequeno livreiro que nos conhecia tão bem e dizia coisas como ‘eu sei que você gosta de John Irving, e, veja só, tenho aqui este novo autor, que é bem parecido com ele’”, disse Bezos. Para ele, a Amazon precisava ser “uma espécie de pequena empresa de inteligência artificial” movida por algoritmos capazes de estabelecer instantaneamente uma conexão entre consumidores e livros.
Foi então que Bezos começou a usar o método da filtragem colaborativa, o Tapestry, que rastreava os interesses das pessoas a partir de sua reação com diferentes tipos de produtos/serviços. Com isso, a Amazon consegue fazer recomendações instantâneas e identificar as preferências dos consumidores de acordo com suas pesquisas e/ou compras anteriores.
Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, estavam interessados não em vender produtos de forma eficiente, mas em se destacar em pesquisas de sites na internet. Primeiramente nomeado de PageRank, o mecanismo de busca queria incluir apenas os melhores documentos e, dentro desses melhores, haveriam milhares de outros documentos relevantes.
No início, o Google ficava “sediado” no google.stanford.edu, e Brin e Page acreditavam que a empresa não teria fins lucrativos e nem conteria propaganda. “Quanto melhor for um mecanismo de busca, menos anúncios serão necessários para que o consumidor encontre o que procura… acreditamos que a questão da publicidade gera incentivos mistos; por isso, é fundamental que exista um mecanismo de busca competitivo que seja transparente e se mantenha dentro do âmbito acadêmico”, escreveram.
No entanto, quando lançado, o tráfego de usuários cresceu exponencialmente, mostrando o melhor site de buscas da internet. Pouco tempo depois, os jovens criadores não resistiram à tentação de transformar seu produto num negócio.
Brin e Page não estavam interessados apenas em saber quais páginas tinham links para quais outras, mas em saber o nível de importância de cada página dependendo do interesse do usuário. Eles chamaram isso de indicador de clique.
Para tanto, eles investiram cada vez mais em dados, capazes de guardar tudo: cada página já pesquisada, cada clique já feito. Assim teria mais pistas e material para modificar os resultados necessários. “O mecanismo de busca ideal”, Page dizia, “entenderia exatamente o que queremos dizer e nos ofereceria exatamente o que buscamos.” Para oferecer relevância perfeita, o site precisa saber no que cada um de nós está interessado.
Para saber do que as pessoas gostavam e conhecer seu comportamento, o Google começou a oferecer outros serviços, como o Gmail, no qual os emails recebidos e enviados pelos usuários serviam de dados para os servidores, permitindo que eles “construíssem a identidade” de cada usuário. Atualmente, o Google monitora todo e qualquer sinal que consiga obter sobre nós apenas examinando o navegador que utilizamos. Além disso, nossas pesquisas revelam naturalmente traços de nossa personalidade e de nossos interesses.
Mark Zuckerberg foi por um caminho diferente de Brin e Page: em vez de examinar os indicadores de cliques para adivinhar o gosto das pessoas, sua ideia era simplesmente perguntar a elas. É assim que surge o Facebook, embasado no “gráfico social” - conjunto de relações de cada pessoa baseados na vida real - proposto por Zuckerberg. Assim, podemos dizer aos nossos amigos do Facebook onde estamos, o que fazemos, o que sentimos.
O site começou somente em campi de universidades, mas o número de acessos foi tão grande que, em maio de 2005, já funcionava em mais 800 universidades. Um pouco mais tarde, em setembro, o Facebook se expandiu extraordinariamente com a criação do feed de notícias, que continha todas as atualizações de todos os amigos assim que o site fosse aberto.
Como o número de amigos era cada vez maior, ficava difícil de acompanhar todas as postagens. Como solução, criou-se o EdgeRank, que traz as principais notícias de acordo com a interação, baseada em três fatores: a) afinidade (amizade próxima); b) peso relativo de cada tipo de conteúdo (atualizações de relacionamento, por exemplo) e c) tempo (as mais recentes são classificadas como mais importantes).
A verdade é que Zuckerberg queria colocar o Facebook no centro da rede. Para tanto, criou o Facebook Everywhere, que objetivava fazer com que toda a rede se tornasse “social”, levando a personalização do site a milhões de outros não personalizados, como sites de música, restaurantes e de notícias.
No entanto, essa dependência de um site, seja ele o Facebook ou o Google, nos leva ao aprisionamento tecnológico, que nos prende a um determinado meio mesmo que outro mais moderno e melhor seja criado. Além disso, nos “obriga” a sempre estarmos conectados para fazermos parte de uma “maioria”, de um “grupo”; uma pessoa que não se conecta a esses meios parece estar sempre em grande desvantagem e excluída da interação social.
O fato é que quanto mais pessoas estiverem presas a essas ferramentas, mais fácil é de convencê-las a se conectar a suas contas. E quanto mais tempo passamos conectados, mais nossas atividades são rastreadas e transformadas em dados.
Para encerrar o capítulo, Pariser usa o exemplo da corrida para descobrir os envolvidos no ataque terrorista do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Quando os nomes foram revelados ao público, o Acxiom investigou seus bancos de dados e encontrou informações sobre os terroristas. O Acxiom tinha informações interessantes sobre 11 dos 19 envolvidos no ataque, como seus endereços antigos e atuais e os nomes das pessoas com quem moravam.
Não se sabe o que continha nos documentos que o Acxiom entregou ao governo dos EUA, mas se sabe que eles têm informações sobre 96% dos domicílios americanos e de mais meio bilhão de pessoas ao redor do mundo: seus nomes, seus endereços, a frequência com que pagam seus cartões de crédito, se têm animais de estimação, se tomam remédios, etc.
É uma empresa discreta, mas presta serviços a grandes empresas dos EUA. “Pense na [Acxiom] como uma fábrica automatizada”, disse um programador a um repórter, “na qual o produto fabricado são dados.”
Através dos dados fabricados e disponibilizados na rede, sites e programas entram em ação com suas publicidades que podem ser de nosso interesse. Isso se chama “redirecionamento comportamental”.
Tudo isso significa que nosso comportamento se transformou numa mercadoria, um pedaço pequenino de um mercado que serve como plataforma para a personalização de toda a internet. E não tem como fugir disso.
Material para aprofundamento:
https://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?language=pt-br
http://flaviopavanelli.com.br/o-filtro-bolha-por-eli-pariser/
https://avaaz.org/page/po/
https://front.moveon.org/
https://www.upworthy.com/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eli_Pariser
https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicholas_Negroponte
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jaron_Lanier
https://pt.wikipedia.org/wiki/Jeff_Bezos
https://pt.wikipedia.org/wiki/Larry_Page
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sergey_Brin
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mark_Zuckerberg