Eu
Sempre quis escrever algo grande. Não precisa ser profundo, ou inteligente, ou novo. Só precisa ser grande. Escrever um monte de coisa, fazer um brain dump violento mas relativamente bem organizado. Talvez, pelo menos, um pouco bom de ler.
Nesse momento estou me sentindo meio mal, meio estranho. Não estou me sentindo confortável, no entanto, pra falar sobre os motivos de estar me sentindo assim. Então vou fazer uma série de reviravoltas nesse texto para rodear o meu problema sem falar sobre o meu problema.
Uma das regras que tenho para este texto é que ele seja sincero. Mas ser sincero não é a mesma coisa que ser detalhista.
Já faz um bom tempo que não escrevo...
Quando comecei a escrever, adolescente, havia uma criatividade misturada com uma sensação de descoberta e de fazer algo legal ou novo. Acho que posso dizer em nome da maioria dos ex-adolescentes que nessa idade é mais fácil ser criativo, porque os sentimentos são novos e porque o conhecimento do que já existe é pequeno.
Conforme fui ficando mais velho, passei por algumas fases. Por um tempo, escrevi sobre coisas mais práticas e menos instropectivas. Depois fui pra uma vibe mais filosófica, ou até um pouco "messiânica", falando sobre a vida, as coisas, o futuro. Quando percebi que minhas filosofias eram incompletas ou falhas, passei a escrever sobre mim e sobre a experiência da minha vida, já que dessa forma eu nunca estaria escrevendo algo inválido. Acontece que a minha vida não é tão legal assim, então esses textos muitas vezes não tinham graça nem propósito. Por fim, mais recentemente, passei a misturar um pouco as coisas, escrevendo desde o absolutamente aleatório, passando por reflexões mais sérias, até "sútras" e outros mini-textos baseados em insights.
Depois disso, parei de escrever e passei a me concentrar em aspectos da vida que pessoas de mais de 30 anos costumam se concentrar. Basicamente: dinheiro e poder.
Acho que quando você "descobre" realmente o que significa dinheiro e poder (especialmente poder), isso passa a ter uma relevância muito maior na sua vida. E talvez haja uma correlação no fato de pessoas com mais de 30 passarem a se interessar por essas coisas, já que nessa idade já deu pra extirpar a maior parte das inocências, já deu pra sentir os mais variados tipos de dores (e possivelmente prazeres), e já deu pra entender que esse período aqui na Terra é curto e frágil. Às vezes a vida até parece longa, mas na real se você tirar todo o tempo de bullshits, acaba sobrando pouca coisa.
Engraçado, essa semana era pra ser uma semana focada em saúde (uma das coisas que também ganha uma maior prioridade depois dos 30). Eu não ia beber, não ia comer carne, e iria andar de bicicleta alguns dias. Talvez até correr também. E agora, que fiquei triste, a primeira coisa que eu fiz foi abrir meu baú de bebidas (outra coisa que parece que só aparece depois dos 30), e peguei meu bom e velho Underberg. Pra quem não conhece, é um "extrato de ervas aromáticas", bastante alcoólico, bastante escuro. Tem um gosto amargo, e parece combinar perfeitamente com as horas "amargas" da minha vida. A não ser que exista algum tipo de "saúde" nessas ervas, o propósito dessa semana se desconfigurou profundamente.
Estou sim com vontade de tomar algumas ações no sentido de aliviar o que estou sentindo. Uma das opções seria me comunicar melhor e tentar "resolver" algumas incoerências e até possíveis enganos nas palavras de outra pessoa. Talvez falando melhor o que eu senti, criando um "canal de empatia", ou talvez ovelhamente pedindo desculpas e sendo dócil e tranquilo. Outra opção é beber, conforme já estou fazendo, e uma terceira seria ir dormir e ver se amanhã a cabeça está um pouco mais limpa. A quarta é escrever retardadamente, parágrafo após parágrafo, até que hipoteticamente a cabeça se esvazie e uma paz budista/hinduísta baseada em vacuidade e o-que-vem-além talvez surja. Às vezes acontece, normalmente não.
Normalmente ou eu fico bêbado demais e atinjo assim o meu "pseudo estado de gnose".
Agora, começo a sentir os primeiros efeitos do álcool. O primeiro efeito é engraçado, porque provavelmente ainda não deu tempo do meu organismo processar qualquer coisa, mas já existe aquela tonteirinha que me faz parar e ficar retardadamente olhando pra um objeto qualquer, ou aquele pensamento que toma conta e me faz dar risada sozinho. E pensar que isso ainda pode ir bem longe hoje… Enfim, vamos para o segundo Underberg. A garrafa já estava meio vazia, o que significa que o segundo também é o último, mas, fear not (!), existe um baú completo, que com certeza não vai se acabar hoje.
Me sinto um pouco invadido por uma sensação de vergonha, talvez por ter dedicado um parágrafo inteiro ao álcool. Aquela culpa talvez, de ter a consciência que estou tentando "resolver" (ou mais obviamente, postergar) um problema com uma bebida. Aquele clássico comportamento alcoólatra (bebendo sozinho em casa pra afogar as mágoas). Mas posso parar quando eu quiser, claro ;-)
Existe um quadro aqui na parede, sabe aqueles quadros que estão a vida inteira na sua casa e você nunca reparou direito? Por sinal, vale uma reflexão sobre todas as coisas tão importantes que estão na nossa frente e que deixamos passar todos os dias. Aí quando as percebemos, as chamamos de "sinais", "sincronicidades", "deus", etc. Enfim, o quadro. Uma bela sincronicidade. Uma daquelas cidadezinhas de litoral, com as casas todas meio "arruinadas" pela maresia, areia no chão… E bem no meio da rua entre as casas, um cachorro. Preto. Sem olhos, sem boca. Quase uma mancha preta.
A noite do Black Dog. Ele veio me visitar, afinal. As portas estão abertas. Entre e sente aqui ao meu lado.
A casa está muito silenciosa. Estou sozinho. Ouço lá no telhado o som da caixa d'água se enchendo. Parece com aqueles sons que você ouve quando encosta a cabeça na barriga de alguém. Eu gosto. Ficar aqui sozinho é ao mesmo tempo doloroso, por causa das circunstâncias da minha tristeza, e ao mesmo tempo prazeroso, porque aqui está o Meu Domínio. Foda-se tudo.
Ontem tive um momento de reflexão compartilhada na qual estava tentando compartilhar uma sensação triste que tenho. Uma coisa ruim que me faz desviar das soluções, que me faz olhar para o lado e para baixo, que me faz fazer qualquer outra coisa. E a imagem que apareceu na minha cabeça, inédita, mas não por isso inválida, foi de uma grande nuvem negra com espinhos. Ela me envolvia, mas não me encostava. Só que os menores movimentos me fariam tocá-la, e sentir dor. Acho que é uma representação quase perfeita desse momento. Qualquer ação, agora, vai doer.
Agora já sinto maiores efeitos. Qualquer droga tomada em silêncio é potencializada. Qualquer coisa que tenha a atenção de alguém é potencializada. Atenção potencializa qualquer coisa. Menos minha cognição. E agora vem aquela velha sensação de que tudo que estou fazendo agora, e escrevendo aqui, está uma bosta. Mas vou jogar isso lá longe. Vai voltar, mas enquanto isso posso falar sobre outras coisas.
Uma outra sensação que vem me acompanhando nas últimas horas é a de esperança. É engraçado, eu sei. Esperança que aconteça uma coisa muito, mas muito legal, que eu gostaria que acontecesse. Uma coisa extremamente egoísta, baseada puramente no meu prazer pessoal, que me traria "vitória" e poder sobre essa situação. Só de pensar nisso já me sinto melhor, e até mais sóbrio. O problema é que não vai acontecer, haha...
Existe um outro quadro aqui, de um índio, olhando bem nos meus olhos. Ele está sorrindo, numa mistura de alegria sincera com cumplicidade com os meus pensamentos. Ele tem uma pequena mecha de cabelos brancos, um pouco maior do que a minha. Isso me fez pensar em duas coisas. Primeiro, é claro, nos meus cabelos brancos, e segundo nos índios (e em um contato que terei com eles em breve e que me faz ter medo de piadas ou qualquer tipo de julgamento… a palavra é "respeito"). Mas vamos focar nos cabelos brancos.
Esses tempos eu li que pessoas em situação de stress extremo podem ficar rapidamente com cabelos brancos. Partindo disso foi fácil concluir que pessoas com mais de 30 anos que tem cabelos brancos, talvez excluindo algum tipo de fator genético, tem, talvez, em cada um desses cabelos, uma história de algum tipo de bosta da vida. É engraçado porque pareço algum tipo de "sábio pretensioso experiente cheio de pseudo-sabedoria", mas a real é que já tem mesmo algumas histórias aqui dentro. E mesmo que elas não tenham nada de extra-ordinário (com hífen mesmo), como provavelmente a maior parte das histórias da minha geração não tenham mesmo, elas tem sim relevância, pois elas me definem.
Definem a pessoa imperfeita que sou. E talvez isso seja libertador? Caralho, já fiz tanta coisa… A gente sabe que a experiência humana é limitada (embora envolta numa ilusão de "sem limites"). É engraçado… O sentido da vida já passou por uma série de variações para mim. Já passei por aquela pira de "o sentido da vida é evoluir", ou então "o sentido da vida é aprender o sentido da vida", ou então aquela pira mais niilista de "não existe sentido pra porra nenhuma e por isso preciso amar cada momento" (que por sinal é uma ideia tesão pra caralho), até uma coisa mais simples do tipo "o sentido da vida é ter experiências". E agora meio que matei isso. Porque a experiência humana é limitada. Eu posso fazer as coisas mais loucas e inimagináveis, mas (1) provavelmente alguém já fez (o que exclui o "argumento" do pioneirismo), ou (2) mesmo que eu seja um "pioneiro", grande coisa (?), e mesmo que eu faça as coisas que a maioria das pessoas também faz…
E meu sentido morre aqui. Primeiro porque falar em sentido é um erro que eu deveria ter evitado uns parágrafos atrás… deveria ter falado em propósito, talvez.
Enfim, experiências. O que temos além delas? Uma vontade de sobreviver? Uma vontade de segurança, e talvez a partir disso, uma vontade de controle? É estranho escrever essas coisas, e ser invadido em minhas memórias por experiências, desde dirigir de moto num campo de futebol, até ouvir um cara tocando violão e fumar maconha num albergue do Camboja. E agora aqui, numa casa na Barreirinha, em Curitiba, no Paraná, no Brasil, América do Sul, Planeta Terra, Sistema Solar, Via Láctea...
Papo de bêbado. Espero que você esteja pelo menos um pouco bêbado ao ler isso, senão vai ficar sem graça pra caralho. Vou fazer uma pausa para abrir o meu baú.
(...)
Stolichnaya. Essa é uma vodca (vodka?) que acho boa pra caralho. Dentro dos meus limites de apreciação, é uma das melhores vodkas que já tomei. A melhor foi a Zubrowka, uma vodka que nunca esqueci o nome, apesar de ter tomado apenas uma vez. Ela vem embalada num "pelego", e tem o "toque" de um pedaço de uma planta que parece uma grama comprida dentro dela. Descia que nem água… Enfim, vamos ficar na Stolichnaya, que já está bótimo…
...
Sério, muito boa.
Onde continua a vida, agora? Eu gostei dessa coisa de olhar os objetos à minha volta e ter algum tipo de insight pretensioso. O próximo são as flores aqui do meu lado. São lindas. Mas estão precisando de água. E ontem eu estava pensando nisso. Mas não dei água. E isso me faz lembrar de todas as coisas que precisam de água, que precisam ser regadas na minha vida, porque senão, começam a ficar meio feias e descuidadas. Talvez a vida seja, afinal, como um jardim. Se você não faz nada, começa a crescer um monte de mato, e tudo acaba virando uma massa "uniforme" de mediocridade e normalidade.
Quão normal, sou eu, agora, escrevendo essa merda e tomando vodka de gente "privilegiada" no meu Macbook? É… Se você achou que aqui existia um "artista boêmico" escrevendo num guardanapo, só lamento.
Ouço os roncos do meu cachorro dormindo, e me sinto um idiota escrevendo coisas irrelevantes. A minha esperança é que surjam pequenas faíscas que me permitam completar cada um desses parágrafos com uma mensagem minimamente útil. Putz, eu falei mesmo isso? Útil? É isso que quero? Ser útil? É isso que todos querem? Seria "ser útil" o sentido (ou melhor, o propósito) da vida? Esses tempos li uma espécie de auto-biografia do Einstein, onde ele dizia que a gente já nasce em dívida com a sociedade. Ainal, logo ao nascer, já somos amparados por uma estrutura de médicos, hospitais, e mães bem-informadas (pelo menos num contexto de classe média de país semi-desenvolvido).
Eu acho esse pensamento bem legal. O único problema é que eu praticamente não me sinto em dívida com quase ninguém. Ou seja, ele não me atinge como deveria, talvez.
E aí vem o silêncio, e com ele meu Acufeno, outra coisa que deve surgir depois dos 30, especialmente pra pessoas que ouvem música alta. E me sinto retardado, já bêbado, já preocupado de estar descontextualizando essa porra toda, e pensando que talvez já haja palavrões demais, e pensando que talvez seja hora de dar um ponto final enquanto ainda existe algum tipo de lucidez…
A esperança. Volte lá em cima, não vou explicar de novo. Ela está aqui ainda. Bem que poderia acontecer exatamente aquilo que eu queria… Mas no fundo, agora, a minha vontade maior é a de destruir. Não preciso quebrar a minha casa, não preciso jogar copos na parede. Cada pensamento meu se fragmentando, como aquelas peças de Lego, mas, de forma mais "poética", como num caleidoscópio em rotação contínua… Destruir todas essas ideias.
Uma vez que tomei ácido, depois de todas aquelas horas de visões e experiências e desconstruções de ideias, lá no final, na décima hora, enxerguei pequenos bloquinhos, deslizando, se juntando, contruindo blocos maiores… A realidade toda, talvez, voltando a existir como era, naquela forma simbólica… Foi belo, foi importante para mim.
Como esse texto todo é egoísta… E me sinto culpado por ser egoísta, mas qual é mesmo a minha culpa?
E agora, sinto cada batida do meu coração. Antes já sentia, mas agora, com aquela força que parece algo que quer ser percebido. Eu te percebo. Você aí, dentro de mim, sendo o que você precisa ser, sendo o que me faz continuar aqui...
Meus olhos vão se fechando. Compreendo e assimilo que não posso mais. Que é hora de encerrar. Que ninguém mais deve estar lendo até aqui. Que o meu "texto enorme" lá do começo, talvez esteja limitado pelo meu cansaço, pela minha tristeza, pelos Underbergs e Stolichnayas, pela minha juventude que se vai, por aquilo que se espera de mim e que não represento, pelas dores e prazeres.. Vão se fechando, porque o cansaço é maior do que tudo.
Dormir.
E, claro, menor do que eu queria, mas muito maior que o necessário.
-- Eu











