Só faziam dez minutos que eles haviam entrado na detenção, e Marina já estava entediada. Não que fosse necessário muito para deixá-la entediada, tudo parecia bem previsível naquela merda de escola. Enquanto Daniel falava, a mente dela começava a trabalhar nas possibilidades oferecidas pelo garoto. Ela estava na detenção, fora pega sem camisa com outra garota debaixo das arquibancadas e com um cigarro aceso. Se eles conseguirem sair da detenção, porque parar ali? Eles podiam sair logo dali antes, dar uma passada no Starbucks, e seguirem seus caminhos.
— Oh Cooper boy, you just gave me a wonderful idea. — Marina ergueu as sobrancelhas com surpresa, meneando positivamente para o garoto. — Nós vamos simplesmente levantar e sair, sem consequência alguma. Depois nós vamos ir ao Starbucks e ter uma ótima tarde.
O relógio da sala marcava que era muito cedo para o fim da detenção, e o professor voltaria para confrontá-los posteriormente ao notar que os alunos haviam só saído da sala. Então eles precisavam de um álibi convincente de que, sim, eles haviam sido liberados da detenção. Ela tirou os sapatos silenciosamente, lançando um olhar de “calado” para Daniel. Deu passos rápidos na ponta dos pés até o relógio, ficando na ponta dos pés para tirá-lo da parede. Mexeu com os ponteiros até que ele apresentasse o horário na qual a detenção deveria terminar. Feito isso, recolocou o relógio na parede, e andou silenciosamente até a mesa do professor. A mão dele segurava um papel, o papel que eles deveriam assinar ao sair da detenção, e que deveria conter a assinatura do professor confirmando isso.
O coração da Yu batia desesperado, adrenalina corria em suas veias com a possibilidade dele flagrá-la ali, no ato, tentando pegar a caneta dele no palitó apoiado na cadeira. Isso para fazer uma coisa ainda pior, forjar a assinatura dele. Marina se prometeu que não fazia mais essas coisas, ela seria uma garota correta que assumia as ações dela. Mas a oportunidade era muito tentadora, o ímpeto de ser a mais esperta da sala e se dar bem no final sem ninguém notar. Marina amava glória, e secretamente achava mais saboroso uma vitória assim: como um segredo que só ela sabia.
Seu plano deu certo, pescou a caneta do palitó do professor apoiado na cadeira. Forjou a assinatura dele, e diminuiu o número de detenções que ela deveria pegar. De cinco, para duas. Um número inofensivo. Ela o conhecia pelo fato dele também ter ensinado algumas matérias em Palo Verde, e ele era muito óbvio sobre tudo – o tipo de professor que falava demais sobre a própria vida. Quando foi colocar de volta a caneta, viu o celular dele lá. Era um lembrete de que ele checaria o celular, ele veria que as horas no relógio da parede estavam erradas. O coração dela gelou.
Ela não havia feito tudo aquilo, ainda mais na frente do garoto, para seu plano cair por água abaixo. Não senhor, o nome dela ainda era Marina Yu, e ela ainda era uma das melhores matletas de Palo Verde por um motivo. Pescou o celular dele no bolso, e colocou discretamente no bolso do casaco da escola. Deus do céu, Marina havia enlouquecido???? Ela acabara de roubar o celular de um professor. Respirou fundo, e voltou para sua mesa como se nada tivesse acontecido.
— Nós vamos levantar e avisar para ele que a detenção acabou, só isso. — Marina calçou o sapato rapidamente e juntou suas coisas pronta para ir embora.
O detalhe final era o café que ela estava bebendo. Limpou a borda com a marca de batom, aparentando ser um café completamente inofensivo, e ela sabia que o professor era um workaholic viciado em cafeína. Colocou o copo de café ao lado da mão do professor, estrategicamente posicionada para ele derrubar acidentalmente o café no papel da detenção quando acordasse, manchando o papel e qualquer pensamento sobre a detenção dela seria ignorado.
Marina saiu da sala como se nada tivesse acontecido, abrindo um sorriso carismático para uma funcionária da limpeza que passava, que retribuiu o cumprimento. Esperou que Daniel tivesse em seu encalço, e se encostou contra os armários próximos, com uma expressão tranquila. Por dentro, ela estava tudo menos tranquila.
Sabia que a atitude correta era não incentivar a garota a fazer nada que pudesse mete-los em problemas mais tarde, haviam feito coisas erradas e estavam na detenção por motivos justo, mas, Daniel estava tão cansado de ficar ali sentado sem fazer nada - nem ao menos estudar para matar o tempo ele podia! - que os dez minutos que passara ali já estavam enlouquecendo. Assim, mesmo que o anjo em seu ombro dissesse incansavelmente o quão errado era fugir da detenção, o diabinho gritava mais alto fazendo ele concordar em fugirem dali. “Eu adoro starbucks.” Respondeu por fim, sua forma de informar a ela que estava de acordo com o que quer que ela fosse fazer mesmo que isso acarretasse consequências para eles depois. Oras, já estava de detenção de qualquer forma, o pior seria serem expulsos - o que não iria acontecer - e para o Cooper ser expulso da Trinity e ver a cara de raiva do pai seria uma honra.
Tinha que admitir que nunca havia pensado que Marina pudesse ter uma mente tão perversa, e mesmo que aquilo assustasse-o em seu íntimo por não saber das coisas que ela capaz de fazer, no momento em que viu a garota mudando a hora dos ponteiros do relógio ele teve que tapar a boca com a mão para conter a risada. Aquilo era brilhante. Recolheu as coisas lentamente e se espreguiçou, como se realmente estivesse muito cansado de estar ali pelas horas de detenção ao invés dos minutos reais que haviam se passado. Daniel definitivamente não tinha paciência para aquela ladainha toda, e tomaria mais cuidado para nunca ser pego matando aula novamente pois não tinha vontade alguma de voltar para aquela sala. Da próxima vez apenas ligaria para a secretaria e diria estar doente, ninguém podia questioná-lo sobre a veracidade dos fatos afinal era emancipado e não havia pai ou mãe que pudessem afirmar que ele estava mentindo.
Esperou a menina sair e saiu tranquilamente atrás - ao menos aparentava estar tranquilo, pois por dentro seu coração estava quase tendo uma parada - e quando estavam longe o suficiente da sala de detenção e afastados de qualquer outro aluno que poderia escutar a conversa deles finalmente o rapaz se permitiu abrir o maior sorriso travesso que já dera na vida. “Isso foi insano. Das duas uma, ou vão nos expulsar ou nunca vão descobrir o que fizemos. Aposto na segunda opção.” Havia apenas uma coisa entretanto que podia colocar o plano deles a perder, mas, ele já sabia o que deveriam fazer para evitar qualquer suspeita. “Temos que nos livrar de qualquer prova do que aconteceu.” Disse, já colocando a mão no bolso do casaco da outra e guardando o celular do professor no próprio casaco, o mais discretamente possível. “Vem, tive uma ideia.”
Caminhou na maior cara de pau até a sala de achados e perdidos do colégio, colocando o capuz do casaco na cabeça para evitar que fosse reconhecido. “Oi, eu encontrei esse celular perdido no corredor, tem senha então não consegui ver de quem é.” O sorriso bondoso que dava para a funcionária escondia o fato de sua boa ação ser completamente má intencionada. Quando questionado o nome de quem havia achado o objeto, inventou um fictício na hora para não ser reconhecido. Não que pudesse ser, afinal, quase ninguém lembrava da existência de Daniel - e olha que ele tinha um rosto bem difícil de ser confundido, mérito de sua cicatriz nada bonita. Saiu da sala de achados e perdidos para voltar a caminhar com Marina em direção ao estacionamento, a expressão de criança travessa que havia acabado de aprontar tomando conta de sua face. Fazia tempo que não sentia tamanha adrenalina percorrendo seu corpo. “Bem, agora o professor será eternamente agradecido a John Potter por ter achado e gentilmente devolvido seu celular.” Comentou. Por sorte a moça não havia percebido o óbvio que era ele ter escolhido o sobrenome Potter justamente por ser a primeira coisa em seu campo de visão, o famoso livro Harry Potter que a funcionária estava lendo. “So, starbucks, let’s go!” Comentou animado, torcendo para que ela não cancelasse os planos porque ele realmente estava doido por um cappuccino. “Eu estou de carro hoje, mas podemos ir a pé se preferir.”