ENCONTROS NOTURNOS
Um ano se passou. Ainda é difícil aceitar que o tempo tenha seguido seu curso. A vida prossegue, implacável, enquanto eu permaneço à margem. Sua ausência física abriu um buraco no tempo. No escuro dos sonhos, você vem à noite, sem alarde, meio sonho, meio memória, mas vem. E, por instantes, tudo parece suportável de novo. Você vem sempre diferente, como se a memória te redesenhasse em versões que o coração inventa porque precisa sobreviver. Às vezes moça de saia de tule, rindo com os olhos de quem ainda não conhece a dor. Às vezes senhora de voz mansa, os pés calçados em chinelos de massagem, braços que ainda sabem acolher. Às vezes inteira, vibrante, como era naqueles dias em que até a tristeza respeitava a sua alegria. Mas sempre no ônibus. Sempre no ônibus. Aquele ônibus sem destino que aparece só para partir. De janela em janela, você me olha carinhosamente e acena. O tchauzinho como promessa muda de “calma, eu volto”, porém nunca diz quando. Acena com uma alegria breve, feita de afeto e ausência, e eu sorrio mesmo sentindo algo se desmanchar. O ônibus, impiedoso, leva embora a forma que você usa a cada noite. A cada sonho, uma forma. A cada forma, um pedaço seu. E mesmo que eu saiba que é sonho, me deixo ficar ali, parado, esperando em silêncio o próximo embarque, o próximo encontro noturno. Ocasionalmente penso que vou me acostumar, que essa dor entranhada vai, enfim, se acomodar em algum canto. Estou aprendendo, aos poucos, que há dores que não cessam, apenas mudam de lugar dentro da gente. Eu te amo com um amor que não conhece limites, mãe. E tenho orgulho de ter pertencido ao teu abraço, ao teu mundo, à tua história.
Ramon




















