{plot twist} only love could ever hit this hard · paitlin
pxzheng:
A verdade era que Philip odiava hidromel. Olhando para a mesa de bebidas, era difícil que o homem encontrasse uma bebida que gostasse, e naquele momento desejou invocar um pergaminho de sugestões para pedir carecidamente que o diretor usasse um pouco do dinheiro da escola para melhorar a qualidade das bebidas. Todavia, assim como demais aspectos de sua vida, Zhèng não podia torcer o braço e demonstrar sua personalidade real, por isso servira-se de uma dose generosa, sorvendo o líquido e utilizando sua melhor expressão de apreciação quando um colega de trabalho passou por perto e lhe cumprimentou.
Aquilo era um pesadelo. Mesmo se Zhèng invocasse uma bolha de oxigênio ao redor de sua cabeça, tinha certeza de que ouviria a algazarra dos alunos. Por Merlin… Ele era tão chato assim quando adolescente? Lembrava-se das festas, mas eles eram jovens arrogantes e repletos de classe, que certamente não dançavam ao som excruciante de mais uma daquelas bandas adolescentes de nome suspeito. Era uma tortura vivenciar aquilo, mas tortura maior era ser acometido pelas lembranças que sua adolescência insistia em trazer de volta toda vez que acabava por pensar no menor detalhe que fosse daquele período. Ele sempre acabava lembrando-se de Caitlin, também.
Caitlin e sua altura de meio gnomo, com os cabelos ruivos caindo em uma cascata encaracolada pelo corpo delicado e magro, verdade, mas tão belo. Era tão difícil conceber que aquela Caitlin, aquela que mesmo após dez anos ainda refletia o mesmo ar de classe, de uma verdadeira dama aos olhos exigentes de Philip, fosse a mesma Caitlin que tropeçava nos próprios cadarços, falava mais que os cotovelos. Sempre agindo de modo barulhento e rindo um riso melódico e exagerado, que por vezes, quando o mais velho menos desejava, parecia voltar a encher seus ouvidos.
Pensar em sua adolescência era relembrar a maldita noite onde tudo acontecera. Naqueles momentos, Zhèng gostaria de usar a oclumência para esconder de si mesmo o que pensava, mas sua consciência preferia fazê-lo sentir na pele o que vivera, para que o perfume dela inundasse seus sentidos quando menos esperava e lhe fizesse virar atordoado a procurando; para no segundo seguinte lembrar de todo seu antigo desprezo, e esforçar-se para continuar andando lado a lado com este. Como naquele momento, onde o pensamento de sua postura quando jovem lhe lembrara indiretamente dela. Philip resmungou baixo, agitando a varinha para encher outra dose de hidromel que fora sorvida em menos de dois segundos. O gosto barato da bebida fez a careta percorrer o rosto do moreno, mas qualquer motivo era melhor do que ficar pensando no sabor da boca dela. Portanto, Philip bebeu novamente. E de novo. E ainda mais uma vez para que, quando já nem sabia mais o que colocava no copo, pudesse fingir que estava sucedendo em sua missão de sobreviver àquela noite.
A música continuava alta, mas seus ouvidos já nem ouviam mais nada. Ligeiramente embriagado, mas não tanto quanto gostaria, o sino-francês ergueu a taça de onde bebera as doses anteriormente, colocando-a na altura dos olhos orientais para inspecionar seu conteúdo, procurando qualquer resquício de qualidade naquilo que estava prestes a ingerir, quando aconteceu. Seu olfato captou um traço do perfume, e ela sequer precisaria ter chegado perto para que Philip soubesse. Ou então sofresse o impacto que era vê-la de novo, dez anos e alguns dias depois.
O homem virou assim que ouviu a voz de Parkinson dirigir lhe a palavra. Há quanto tempo ela estava ali? E por que diabos na terra estava falando com ele? O último encontro deles no Ministério não havia deixado claro que nenhum queria mais a presença do outro por no mínimo cinquenta anos? Bem, de certo seu corpo e inconsciente negavam aquela negativa, mas aquele era um problema de Philip com Philip. E certamente ter Caitlin parando ao seu lado, linda em seus trajes de festa e postura firme, não lhe ajudava a tomar a melhor decisão. Assim, como um exímio escolhedor de péssimas opções, Zhèng honrou sua fama ao retrucar tão logo seus olhos enxergaram o vermelho vívido dos cabelos dela e desviaram-se para a mesa adiante em um milésimo de segundo. Olhar para ela era arriscado demais.
“Achei que você gostasse de cuidar da sua vida.” Simplesmente disse, quase mordendo a própria língua no processo. Salazar estaria satisfeito, mas Philip era fraco. Perto de Caitlin e depois de diversas doses de bebida… Ele realmente era um palerma. Sem desejar pensar muito na realidade, e implorando para que sua mente estivesse lhe pregando peças com a presença da ruiva outra vez, o homem sorveu sua última dose do que quer que fosse que havia ingerido, pousando a taça na mesa e virando-se minimamente para ela. Que droga. Ela ainda estava ali. A despeito do que sua visão levemente turva dizia ao duplicar um pouco da imagem dela. “Alright, fine. Hello there, Caitlin. What the hell do you want now?”
A ruiva se lembrava da forma como as palavras saíram de sua boca quando ela havia aberto aquela ferida e compartilhado aquela história com a prima, em nenhum momento ela havia soado irritada, ela havia soado muito mais machucada e chateada. Porque aquela era a verdade, ela gostava de expressar o quanto odiava o sino-francês, mas aquilo era mais um lembrete que ela deveria odiá-lo, do que a verdade em si. Caitlin não odiava Philippe e aquilo era um fato. Um fato que ela tentava esconder, soltando ofensas e gritando pra quem quisesse ouvir o quanto ela não suportava ficar perto dele.
Mas o fato dela não suportar ficar perto dele, talvez fosse porque o coração dela sempre perdia o compasso. Ela se sentia vulnerável, era como voltar a ter 15 anos de novo. Ela quase podia sentir aquele frio na barriga, aquele mesmo frio que ela havia sentido quando os dígitos alheios lhe agarraram o braço e lhe puxou por escada acima. Caitlin odiava sentir tudo aquilo, odiava reviver aqueles sentimentos e sensações. Odiava pensar que mesmo depois de dez anos, ela ainda sentia aquilo tão vivo e tão presente. Era quase masoquismo ter uma pequena parte dela que ainda sentia tudo aquilo por Philippe.
E tudo parecia voltar, todas aquelas lembranças de seus anos escolares, as melhores e as piores. Tudo parecia bem presente ali enquanto ela tentava aproveitar aquele festival que ela já havia participado diversas vezes, mas daquela vez parecia ter um tom diferente. Naquele momento Caitlin desejou que Becky estivesse com ela, a amiga não deixaria que ela fosse atrás de Phil mesmo que fosse apenas para descobrir que se ele sabia ou não do que havia acontecido.
A verdade era que Caitlin não sabia qual seria a reação de Phil quando ele soubesse que ela havia abrido a boca e contado para Rosalie, mas ela tinha uma noção de que as vezes a reação dele era um tanto exagerada. Como da vez que ela havia derrubado bebida na camisa dele, ela não queria algo do tipo se repetisse ali. Ainda que tivesse que contar e talvez lidar com uma reação parecida ou até pior. Ele provavelmente já estava tramando um plano para matá-la, era como se ela estivesse manchando a reputação dele, o que com toda certeza ele consideraria pior do que uma mancha de cerveja amanteigada em uma camisa de linho branca.
Caitlin prendeu a respiração enquanto naqueles poucos segundo entre sua fala e a do moreno. A fala dele fez com que ela sentisse vontade de rir, ela realmente deveria estar cuidando da vida dela e se mantendo o mais longe possível dele. Mas ela não deixou que o riso escapasse, ela não seria estúpida de rir dele igual havia sido uma vez, ainda que ela fosse muito mais corajosa agora do que imaginava que algum dia fosse ser. Ela queria dizer algo, queria continuar aquela conversa, rebater a fala dele, mas ela não estava ali procurando por uma briga.
Os segundos em que Phil demorou para sorver o resto de bebida e colocar a taça na mesa, voltando a olhar para ela pareciam ter passado ainda mais lentos que o normal. E ela se sentia cada vez mais nervosa e como se a cada momento esperasse ouvir aquele tom de voz aumentar lhe dizendo coisas que a fizesse encolher seu corpo, da mesma maneira que ele havia usado algumas vezes com ela, mas principalmente naquela noite. Só que a fala dele não foi nada do que ela esperava e ela não conseguiu esconder a cara de surpresa por ele usar o nome dela, ao invés de qualquer palavra de ofensa. Ainda que a sua pergunta não tivesse sido a mais gentil.
“Palavras até educadas e nenhuma ameaça de morte, então presumo que você ainda não saiba…” E ela se arrependeu mais uma vez de ter sido corajosa o suficiente para dizer aquelas palavras, mas pensando bem era melhor que Philippe soubesse por ela sobre o que havia ocorrido e não pela sua prima, que ela nem fazia ideia de como reagiria se visse ou procurasse por ele depois dela ter despejado aquela velha história. “Rosalie sabe.” Disse firme, tomando um gole da sua bebida em seguida sem nem esperar pela reação dele, acreditava que talvez o ex-sonserino entendesse o que ela queria dizer com aquilo, que ela não precisasse dizer mais. Porque ela não sabia se ainda teria coragem o suficiente para explicar tudo.










