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@cabecaverde-blog
Desacougo
Pesadelo desta noite inqueda,
nada na pasmosa escuridade calmo ficaba,
nada este bulebule arranxaba
e nada facía que esta axitación esquecera.
-
Inmerso nun transo inmutábel
desacougo delirante froito do incerto sino,
sosego que quebraba o ruído
profundo e tolo salouco dun día interminábel.
-
Derradeiro e afogado alento
bafo que fai escorrer as gotas da fechada ventá
escuro diaño que acrecenta
os medos que rematan de mañá neste momento.
*em galego.
Poema Aleatório #24
Enquanto rola meu pranto Salgado, amargo, infame, Luta meu coração tentando Levar eritrócitos e despropósitos Aos meus cantos humanos Mais sombrios e gelados.
Luta minh'alma expremendo-se Por entre meus órgãos, Perfurando-os, esmagando-os. Tenta fugir de um ergástulo Tão fúnebre e miserável Que decompõe a si mesmo Continuamente.
A miséria humana, Tragada por mim, Adentra os pulmões meus Destruindo tudo a que se liga. Apodrece meus tecidos e nervos Tornando-me bobo, néscio, estúpido.
Catabolizo meus sonhos e esperanças. Deles crio mazelas para Minhas futuras fantasias. Inutilizo minhas defesas Rendendo-me ao acaso.
Satirizo minhas dúvidas, Olvido minhas dívidas e Interiorizo minhas críticas Alcalinizando minha dor.
(Victor da Silva Neris)
Poética
De manhã escureço De dia tardo De tarde anoiteço De noite ardo.
A oeste a morte Contra quem vivo Do sul cativo O este é meu norte.
Outros que contem Passo por passo: Eu morro ontem.
Nasço amanhã Ando onde há espaço: –Meu tempo é quando.
(Vinicius de Moraes)
A carga da Brigada Ligeira
Meia légua, meia légua, Meia légua em frente, Todos no Vale da Morte Cavalgaram com os seis centos. “Para a frente a Brigada Ligeira! Carreguem contra as armas!”, disse ele. Para o Vale da Morte Cavalgaram os seis centos.
"Para a frente a Brigada Ligeira!" Havia algum homem desanimado? Todavia, o soldado não sabia De algum que tivesse disparatado. Eles não têm de responder, Eles não têm de se perguntar, Eles só têm de fazer e de morrer. Para o Vale da Morte Cavalgaram os seis centos.
Canhão à direita deles, Canhão à esquerda deles, Canhão à frente deles Saraivaram e trovejaram; Atingidos por balas e obuses, Com audácia eles cavalgaram e bem, Para as mandíbulas da Morte, Para a boca do inferno Cavalgaram os seis centos.
Reluziram todos os seus sabres despidos, Reluziram ao rodopiarem no ar Sabrando os artilheiros lá Carregando contra um exército, enquanto Todo o Mundo se maravilhava. Mergulhados no fumo das baterias Através da linha deles romperam a direito; Cossacos e russos Cambaleantes das sabradas Estilhaçaram-se e fenderam-se. Então eles cavalgaram para trás, mas não, Não os seis centos.
Canhão à direita deles, Canhão à esquerda deles, Canhão à frente deles Saraivaram e trovejaram; Atingidos por balas e obuses, Enquanto cavalos e heróis caíam, Eles que haviam lutado tão bem Vieram através da mandíbulas da Morte, De volta da boca do inferno, Tudo o que restava deles, O que restava dos seis centos.
Quando irá a sua glória desvanecer-se? Oh, a carga bravia que eles fizeram! Todo o Mundo se maravilhou. Honrem a carga que eles fizeram! Honrem a Brigada Ligeira, Nobres seis centos.
(Alfred Tennyson) tradução de Arlindo Correia
O rochedo
A nuvem de ouro dorme a noite inteira no seio do gigântico rochedo. Pela manhã, levanta-se bem cedo, e descuidada vai-se pelos céus, ligeira.
Mas lá restou de orvalho um breve traço nas rugas do penedo solitário. E é como se ele ficara multivário chorando suavemente ante o vazio espaço.
(Mikhail Lermontov) tradução de Jorge de Sena
Tacuapi
Tacuapi - gomo de cana, Falquejado de taquara, Por minha artéria dispara, O sangue verde que irmana!
O "pai tupã" guarani, Nos primitivos rituais, Me batizou "tacuapi" Para o licor dos ervais!
Nos lábios de uma guria, Ou na boca de um "ventena" Meu trono é a cuia morena, Quando a mão me acaricia!
Agora - de prata e ouro, Ou de alpaca - simplesmente, Sigo sendo a confidente, Do "mal de amor" e namoro!
Hoje - na beira do povo, Na miséria do casebre, Inda guardo a mesma febre, Mas nada volta de novo...
Então sou clarim de guerra, Fazendo roncar o mate, E fico a pensar na terra Que eu entreguei sem combate!
O mate se desencilha, Já não tem água a cambona Só me resta na boquilha, O beijo da minha peona!
(Jayme Caetano Braun)
Mistério
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados, Dizendo coisas que ninguém entende! Da tua cantilena se desprende Um sonho de magia e de pecados.
Dos teus pálidos dedos delicados Uma alada canção palpita e ascende, Frases que a nossa boca não aprende, Murmúrios por caminhos desolados.
Pelo meu rosto branco, sempre frio, Fazes passar o lúgubre arrepio Das sensações estranhas, dolorosas...
Talvez um dia entenda o teu mistério... Quando inerte, na paz do cemitério, O meu corpo matar a fome às rosas!
(Florbela Espanca)
Horas breves de meu contentamento
Horas breves de meu contentamento Nunca me pareceu quando vos tinha, Que vos visse mudadas tão asinha Em tão compridos anos de tormento.
As altas torres, que fundei no vento, Levou, em fim, o vento que as sostinha; Do mal que me ficou a culpa é minha, Pois sobre cousas vãs fiz fundamento.
Amor com brandas mostras aparece: Tudo possível faz, tudo assegura; Mas logo no melhor desaparece.
Estranho mal! Estranha desventura! Por um pequeno bem, que desfalece, Um bem aventurar, que sempre dura!
(Luís de Camões)
Testamento
Quando eu morrer, sepultem-me Numa colina Em meio à estepe ampla, Na amada Ucrânia, Para que eu possa ver Os vastos campos semeados, O Dnipró, as escarpas E ouvir como ruidoso, ele ruge! Quando for levado da Ucrânia Ao mar azul, O sangue inimigo... eu tudo deixarei, Campos, montes...
E até a Deus voarei para rezar. Mas até então... a Deus desconheço! Sepultem-me e levantem-se, Quebrem as algemas E com o mau sangue inimigo Reguem a liberdade! E não deixem de recordar-me Na grande família, Na família livre, nova, Com uma boa, Suave palavra!
(Taras Chevtchenko) tradução de Mariano Czaikowski
Não creia, não creia em si, jovem sonhador, Tema a inspiração como quem teme a peste...
Ela é um delírio total da sua alma doente, Ou a excitação de um pensamento cativo. Nela não procure à toa sinais celestes: Ou é o sangue que ferve, ou há excesso de forças!
(Mikhail Lermontov) tradução de Paulo Bezerra
Gênesis II
No princípo era o verbo uma vaga voz sem dono vagando pela via láctea.
Depois veio o sujeito e junto com ele todos os erros de concordância.
(Gregório Duvivier)
Os votos
Pois, desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado, E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos e que, mesmo maus e inconsequentes, sejam corajosos e fiéis, E que em pelo menos um deles você possa confiar, que confiando, não duvide de sua confiança. E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos, mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas. E que entre eles haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta demasiadamente seguro.
Desejo, depois, que você seja útil, não insubstituivelmente útil, mas razoavelmente útil. E que nos maus momentos, quando não restar mais nada, essa utilidade seja suficiente para manter você de pé. Desejo ainda que você seja tolerante, não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente. E que essa tolerância não se transforme em aplauso nem em permissividade, para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.
Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais. E que, sendo maduro, não insista em rejuvenescer. E que, sendo velho, não se dedique a desesperar. Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.
Desejo, por sinal, que você seja triste, mas não o ano todo, nem em um mês e muito menos numa semana, mas apenas por um dia. Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom, o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo, talvez agora mesmo, mas se for impossível, amanhã de manhã, que existem oprimidos, injustiçados e infelizes. E que estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles. E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.
Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão e ouça pelo menos um joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal. Porque assim você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente, por mais ridícula que seja, e acompanhe o seu crescimento dia-a-dia, para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que, pelo menos uma vez por ano, você ponha uma porção dele na sua frente e diga: Isso é meu. Só para que fique bem claro quem é dono de quem.
Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal, não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal. Mas que esse frugalismo não impeça você de abusar quando o abuso se impor.
Desejo também que nenhum dos seus afetos morra, por ele e por você. Mas que, se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.
Desejo, por fim, que sendo mulher você tenha um bom homem, e que sendo homem, tenha uma boa mulher. E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez e novamente, de agora até o próximo ano acabar. E que quando estiverem exaustos e sorridentes, ainda tenham amor para recomeçar.
E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar.
(Sérgio Jockymann)
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra
Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, Ao luar e ao sonho, na estrada deserta, Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa, Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa. Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência, Sempre, sempre, sempre, Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma, Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...
Maleável aos meus movimentos subconscientes do volante, Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram. Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita. Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas! Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!
À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada À direita o campo aberto, com a lua ao longe. O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade, É agora uma coisa onde estou fechado Que só posso conduzir se nele estiver fechado, Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.
À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto. A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha. Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz. Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real. Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha No pavimento térreo, Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga, E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi. Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?
Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?
Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite, Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente, Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, E, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível, Acelero... Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo, À porta do casebre, O meu coração vazio, O meu coração insatisfeito, O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.
Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante, Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação, Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra, Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...
(Álvaro de Campos)
Piá
Senhores, eu sou um piá Ou melhor um gauchito Não tenho medo de grito Nem de luz de boitatá De bombacha ou chiripá Com meu lenço no pescoço Podem dizer que sou grosso As meninas da cidade Quando o bem é a outra verdade Eu sou o Rio Grande moço.
Vou estudar e crescer Amanhã vou ser doutor Mas sempre vou Ter amor Ao chão que me viu nascer Gaúcho, eu hei de morrer Pois nasci predestinado E se não estou enganado O pago já renasceu Porque tem miles como eu Em cada canto do estado.
Eu não quero discoteque Nem dançar o último tango Só quero entrar num fandango Aonde não dança moleque E nem tem samba de breque Por mais que eu de um jeitinho Que me tire do caminho Nem que me pinte de ouro Pra mim dança de namoro É o nosso velho pezinho.
Eu sou o Rio Grande novo Mas amo o Rio Grande antigo Que por ele eu até brigo Para honrar o nosso povo Sou pinto que sai do ovo Já sabendo aonde vai Peleia, firme e não cai Por honrar a tradição Eu sou a continuação Do meu avô e do meu pai.
(Antônio Augusto Fagundes)
Canção do exílio
Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá. As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores. Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá. Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá.
Minha terra tem primores Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá. Minha terra tem palmeiras Onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu'inda aviste as palmeiras Onde canta o sabiá.
(Gonçalves Dias)