Hoje se completam 33 anos de saudade de Vinicius de Moraes, o Vina, o poetinha, o cumpadre de Chico. Para lembrá-lo, eis uma foto de uma carta dele a Chico, falando sobre a música Valsinha (1971), batizada inicialmente de Valsa Hippie. A bênção, poeta!
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que v. partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sôbre ela, sôbre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a v., mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio morava em Burí 11, e lá foi a carta para Burí 11. Mas como v. me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra pra ver se v. concorda com as modificações feitas. Claro que a letra é sua, eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vêzes o cara de fora vê melhor estas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa Hippie”, porque parece-me que tua letra tem êsse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui no princípio estranhou um pouco, mas depois se amarrou à idéia. Escreva logo, dizendo o que v. achou.
Um dia êle chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um modo mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como era mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: Vamos nos amar.
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar...
E logo tôda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
E o dia amanheceu em paz.
©Regina Zappa em Para seguir minha jornada: Chico Buarque / texto Regina Zappa, organização Julio Silveira – Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 2011.