đ FANFIC #06 â âRelatĂłrio MĂ©dico Real! â
Protagonistas: @berenmequer & @naovaleknem1irininha
CapĂtulo 1 â Traumatismo por Beyblade (e Outras Vergonhas)
O corredor do hospital militar de SĂŁo Petersburgo estava tĂŁo silencioso quanto o bom senso de um nobre russo em idade fĂ©rtil. Berenice, enfermeira de plantĂŁo e vermelha de carteirinha â tanto no cabelo quanto na ideologia â marchava com seu jaleco impecavelmente abotoado e sua prancheta empunhada como se fosse uma espada.
Ela nĂŁo tinha tempo para frivolidades. Amava sua rotina, odiava atrasos, desprezava dramas. E detestava, mais do que tudo, beyblades.
â Sala de emergĂȘncia dois! â gritou alguĂ©m do rĂĄdio. â Trauma por objeto cortante rotativo⊠e⊠hã⊠lesĂŁo no ego?
â Isso Ă© cĂłdigo para bĂȘbado de novo? â perguntou, jĂĄ calçando as luvas.
â NĂŁo. â A recepcionista fez uma careta. â Ă o prĂncipe AndrĂ©zinho.
Ela quase deixou o estetoscĂłpio cair.
O AndrĂ©zinho era uma figura lendĂĄria no reino. Terceiro prĂncipe da RĂșssia, famoso por trĂȘs coisas:
Ter o tĂtulo de nobre mais cancelado da internet por posts antigos questionĂĄveis sobre panquecas com caviar.
Ter sido o rosto oficial da campanha "Use sua coroa com responsabilidade".
E, claro⊠por ser um competidor fanĂĄtico de beyblade em eventos beneficentes para crianças â onde ele sempre levava as competiçÔes extremamente a sĂ©rio.
Ao entrar na sala, Berenice deu de cara com uma cena de pura decadĂȘncia imperial.
LĂĄ estava ele. CaĂdo numa maca, com o cabelo loiro bagunçado, a coroa num canto do chĂŁo (de onde ela suspeitava que nunca deveria ter saĂdo), um corte no supercĂlio, e â pasmem â um disco de beyblade enroscado na camisa da Gucci.
â Boa noite â disse ela, fria como gelo da SibĂ©ria. â Sou Berenice, enfermeira responsĂĄvel. Qual o seu grau de estupidez de zero a âme acidentei com brinquedo de criançaâ?
â Boa noite, enfermeira Berenice â respondeu ele, com um sorriso fraco. â Digamos⊠"nĂvel Supremo".
Ela revirou os olhos. Começava bem.
â O que exatamente aconteceu?
â EstĂĄvamos organizando um campeonato infantil para arrecadar fundos para⊠algo nobre. â Ele fez uma pausa. â A verdade Ă© que um garoto de oito anos me desafiou. Eu aceitei. EstĂĄvamos na rodada final. Ele lançou o âDragoon X4000 Turboâ. Eu perdi o equilĂbrio. E a dignidade.
Ela suspirou. Profundamente.
â O beyblade ricocheteou na parede e me acertou no rosto. Fui nocauteado por um brinquedo de plĂĄstico. â Ele ergueu uma sobrancelha. â Fico bonito com pontos?
â VocĂȘ vai ficar bonito com um colar cervical, se continuar se mexendo desse jeito.
Ela aproximou-se e começou a limpar o ferimento, com a precisĂŁo de quem jĂĄ fizera isso milhares de vezes â mas com um tique nervoso no canto do olho. Era o prĂncipe. Era o prĂncipe com um disco giratĂłrio colado no peito. Ela precisava de fĂ©rias.
â Preciso te avisar que a imprensa estĂĄ surtando. â Ele murmurou, encarando o teto. â O palĂĄcio quer que eu dĂȘ uma declaração, mas⊠sinceramente? Eu sĂł queria sumir.
â Devia ter pensado nisso antes de gritar âpor Althara!â e se jogar em cima de uma criança com uma beyblade, nĂ©?
Ele riu, e a risada foi baixa, meio enfraquecida pelo tom dramĂĄtico, mas genuinamente divertida.
â EstĂĄ em todo o TikTok. Tem atĂ© remix com dubstep.
â Meu pai vai me exilar na FinlĂąndia.
â Que sorte. Eles tĂȘm um sistema de saĂșde decente.
Enquanto ela aplicava os pontos, ele a observava. Seus olhos eram intensos, e Berenice odiava admitir â atĂ© para si mesma â que ele era bonito. NĂŁo o tipo de beleza clĂĄssica e austera dos retratos reais. Mas o tipo de homem que consegue te convencer a fugir de um casamento para pular num lago congelado, apenas com uma piscadinha e um âconfiaâ.
â Enfermeira Berenice? â ele disse, de repente. â Posso te pedir uma coisa completamente absurda?
Ela parou. A experiĂȘncia dizia que frases assim nunca traziam boas notĂcias.
â Fale. Mas saiba que a resposta Ă© ânĂŁoâ, caso envolva um campeonato de ioiĂŽ.
â E se a gente fingisse que estĂĄvamos namorando?
â VocĂȘ estĂĄ delirando. â Ela pegou o termĂŽmetro. â Sintomas de concussĂŁo. Fala sem sentido.
â NĂŁo, Ă© sĂ©rio! A mĂdia acha que eu sou um completo desastre emocional. Mas se eu aparecer com alguĂ©m⊠estĂĄvel⊠sensata⊠com um jaleco⊠eles talvez pensem que eu amadureci.
Ela ficou imĂłvel por um segundo.
â VocĂȘ quer que eu⊠finja ser sua namorada?
â Por algumas semanas sĂł. AtĂ© o palĂĄcio esquecer o incidente da beyblade. Depois a gente "termina por incompatibilidade de rotinas", sabe como Ă©.
â VocĂȘ precisa de gelo. Na cabeça.
â Eu pago pizza. E gasolina. E talvez um spa. E um relĂłgio caro de agradecimento.
Ela o fitou com olhos sérios.
â Se me envolver nisso, vocĂȘ vai pro check-up todos os dias. E se nĂŁo obedecer minhas recomendaçÔes mĂ©dicas, eu conto Ă imprensa que vocĂȘ chorou quando a criança te chamou de âprincesoâ.
Ele sorriu, colocando a mão no coração.
â Enfermeira Berenice, acho que acabei de me apaixonar.
Ela enfaixou o braço dele com mais força do que o necessårio.
â Ătimo. Vai amar usar tala pelos prĂłximos sete dias.