Por que votei em Chávez e Maduro
Quantos anos você tem, onde mora e o que faz?
Tenho 34 anos, moro em Mérida, Venezuela. Sou freelancer em tecnologia da informação e comunicação (TIC) na área de Software Livre. Atualmente, estou concluindo o curso de Engenharia de Sistemas. Sou ativista do software e conhecimento livres e apaixonado por fotografia.
Como definiria a situação na Venezuela desde a morte de Chávez e a eleição do Maduro? A divisão do país vista nas urnas se traduz nas ruas, ou seja, há um país dividido?
Após a morte de Chávez, o país sofreu um choque. Entre o lamento e a tristeza de muitos venezuelanos, tivemos que passar por um novo processo eleitoral. Foi uma campanha muito intensa, a proposta de Maduro foi, e ainda é, a continuação do programa de governo estabelecido pelo presidente Chávez expressa no "Plano de Nação". A campanha de Capriles, por outro lado, na minha opinião, era baseada na imitação do Chávez. Mudou a estratégia utilizada nas eleições de outubro e focou em convencer aqueles que não estavam completamente decididos por Maduro, ao invés de convencer seus apoiadores, como na temporada anterior.Quanto à divisão do país, estou entre os que pensam que o país sempre foi dividido. Certamente nestas eleições a diferença entre Chavistas e opositores diminuiu. Mas, após a vitória de Maduro, muitos dos que votaram contra ou não votaram buscaram reconsiderar o ponto de vista ante os fatos ocorridos: assassinatos, queima de clínicas médicas e outros tipos de violência perpetrados por partidários de oposição. Ainda assim, o governo e os que acreditam nele temos que analisar e refletir sobre os resultados destas eleições.
Como era a Venezuela da sua infância e por que acha que melhorou?
Na minha infância, as forças do governo matavam os estudantes que faziam reivindicações, as taxas de pobreza apresentavam índices absurdos, só existia uma democracia representativa, os cidadãos não participavam das decisões fundamentais do país, apenas votavam a cada quatro anos por um presidente. Até os idosos saiam nas ruas para protestar por suas pensões.
A Venezuela tinha sido privatizada, empresas e governos estrangeiros nos usurpavam, foram reduzindo o investimento em educação, pois aos governos interessava um povo ignorante.
Agora, a distribuição do PIB em investimentos sociais tem aumentado como nunca, temos uma maior taxa de estudantes universitários, melhorou a qualidade de vida da população,há uma melhor distribuição da riqueza, passamos da democracia representativa para a participativa e protagonista. A pobreza diminuiu, recuperam-se antigas empresas estatais que foram privatizadas, nos esportes e na cultural o progresso é inegável. Os direitos da mulher têm sido afirmados, os setores marginalizados agora são levados em conta, como o caso dos indígenas e das pessoas com deficiência.O software livre tem cada vez mais lugar no atual governo, como o caso da distribuição gratuita de GNU / Linux Canaima ou a distribuição de laptops para crianças e jovens estudantes (Canaimitas - fotos 2,3 e 4). Acho que o mais importante é a melhoria do aspecto social, nenhum governo antes foi tão preocupado com aqueles que tradicionalmente foram ignorados, silenciados, ou invisíveis. Veja as taxas da CEPAL e do PNUD e compare tudo o que foi alcançado nos últimos anos com o governo Chávez.
E os panelaços? Quem participava?
Nos panelaços participam as pessoas descontentes com a derrota de seu candidato. Estas pessoas estavam em estado de negação, culpa do candidato derrotado que, como uma criança mimada, se recusa a aceitar um resultado que não lhe favorece. Capriles não apresentou provas sérias da suposta fraude que reclama, é simplesmente um mal perdedor. Sem querer parecer prepotente, na Venezuela contamos com um dos melhores sisitemas eleitorais do mundo, com processos de auditoria que se realizam antes, durante e depois da eleição. Se audita tudo : tinta, papel, máquinas, sistema de transmissão etc. Dessas auditorias participam todos os atores eleitorais, incluindo testemunhas, técnicos da oposição de quem não há registro de queixas nas eleições passadas.
A imprensa corporativa no Brasil costuma se referir ao governo da Venezuela como uma ditadura. O que diz sobre isso?
Não é nenhuma surpresa, não convém ao mundo que haja governos que atentem contra os interesses dos poderosos, a campanha das empresas de (des)informação contra os governos progressistas tem sido brutal. Eu, sim, vivi em uma ditadura em abril de 2002, foi breve mais intensa, houve um golpe de estado de que casualmente participaram os meios de comunicação nacionais e internacionais. Nas 47 horas que durou essa ditadura na Venezuela, pessoas foram assassinadas, se eliminou a constituição que todos nós venezuelanos ajudamos a reescrever e referendar, foram destituídos os poderes públicos, se iniciou uma perseguição política e o candidato de oposição, inclusive, cercou a embaixada de Cuba ameaçando diplomatas; fecharam-se os meios de comunicação. Durante o governo de Chávez e agora o de Maduro, insultam o presidente pelo jornal, rádio e televisão, e nada acontece. Agora, lhes convido a ler qualquer jornal nacional, a sintonizar qualquer canal que deixaram de ser meios de entretenimento e informação e passaram a ser atores políticos. Ou sintonizar alguma estação de rádio não identificada com o sistema nacional de meios públicos de comunicação para que tirem suas próprias conclusões, e além disso, se perguntem se o comportamento dessas pessoas e empresas seria aceito em outro país.
O Brasil é bastante fechado aos nossos vizinhos. Você pode nos indicar jovens artistas venezuelanos sejam do gueto ou já consagrados, na música, cinema, artes plásticas, grafite etc?
Nos últimos anos, temos visto na Venezuela a proliferação de diversos coletivos artísticos com enfoque revolucionário. Grupos musicais como ‘ Dame Pa Matala’, ‘ La Radio Candela’ e ‘ El Pacto-EP’ são bastante escutados atualmente pelos setores da esquerda jovem venezuelana. Também se destaca no grafite o coletivo ‘Otro Beta’, que também incursionam outras atividades artísticas.
(nota da redação: são os sons que você pode ouvir na capa deste especial. abra os olhos e os ouvidos!)
(fotos de David Hernandez)













