Eu lembro de mim tocando piano, na doceria que a gente leva minha avó às vezes.
Eu estava nos piores dos meus tempos. Acordava e não via sentido. Tudo estava de ponta cabeça. Não me reconhecia quando olhava no espelho. Só queria uma salvação.
Mas no olho do furacão, eu busquei um motivo pra ficar. Apesar de 1001 para ir, tinha sempre aquele momento ao qual eu me agarrava. E enxergava. "A vida não é linda? Fique."
Aquele dia na doceria foi assim. Tenho um vídeo disso.
Meu primo chegou, e eu comecei a tocar o piano. Toquei Taylor, Beatles, e então a música que ele queria, Circles, do Post Malone.
Temos gostos musicais bem distintos. Mas naquele momento, nunca amei tanto uma música na vida. Entramos em sincronia, eu e meu primo. Em um daqueles momentos mágicos que a música proporciona. Entramos num espiral de melancolia e empolgação.
Toquei aquela música pra voz dele brilhar, pra ele se soltar. Foi um momento mágico. Nunca vou me esquecer.
Ele, que nunca tinha soltado a voz, se soltou. Um momento de diversão e descontração, por um segundo esqueci de tudo e consegui sentir.
No olho do furacão, mesmo quando não vemos razão para ficar. Ainda sim, existe uma saída. Existe como.
As batalhas internas que enfrentei na época, não desejo pra ninguém. Mas os momentos que ficaram, como esse, ficarão guardados na minha memória. Como uma lambança de um natal de 2006.
Como uma Páscoa de quando éramos crianças.
Histórias no clube, em uma viagem pra Atibaia.
Minhas memórias são com a minha família. E hoje pode tudo ter mudado, mas cada lembrança permanece comigo como um pedaço de vida que ainda respira. Uma essência. Parte do todo que sou hoje.
Então sou grata, por tudo.





















