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@cariokay
Só escrevo quando algo em mim implora por saída — amor demais ou ruína demais. E veja bem: já não morro de amores por você há uns quatro anos. Quatro anos é tempo suficiente pra construir uma casa, plantar um jardim, esquecer um rosto. Eu fiz o contrário: fiquei.
Às vezes tento romantizar nossa insistência, como quem cola um vaso quebrado e finge que virou arte. Digo pra mim mesma que o amor é maior que tudo, que a gente é maior que tudo. Mas não somos. Nunca fomos. E essa é a parte mais íntima da nossa história: a lucidez que a gente evita encarar.
Escrever virou meu jeito de sobreviver ao que não digo. É quase violento — como se cada palavra fosse um pequeno disparo contra mim mesma, mas ainda assim é o que me mantém viva. Porque pensar na gente dá enjoo. Literal. Um frio no meio do peito, um nó que aperta e não solta. Meu corpo sabe. Ele sempre soube. Só eu continuo fingindo que não é comigo.
Você me oferece promessas que nem chegam a ser promessas — são só possibilidades ocas, dessas que servem pra calar quem ainda quer acreditar. E eu acredito. Ou finjo tão bem que já nem sei mais a diferença. Repito histórias pra mim mesma como quem reza: vai dar certo, vai dar certo, vai dar certo. E quanto mais repito, mais distante fica qualquer fim — ou qualquer começo.
Hoje quase não falei. Você, que nunca acorda cedo, acordou pra jogar bola. Eu acordei pra arrumar a casa, tomar banho, tentar existir em pequenas tarefas. Depois você voltou com seus amigos, ocupou o espaço com barulho e ausência ao mesmo tempo, e quando deu noite decidiu ir pra uma despedida de solteiro de alguém que você nem conhece. E eu fiquei.
Fiquei tentando ser a mulher compreensiva no feriado de Páscoa. Fiquei tentando não ser egoísta, não ser a chata, não ser a que estraga a diversão. E não é raiva, sabe? É pior. É uma coisa parada na garganta, um ar que não passa, um tremor silencioso no peito. Uma vontade quase indecente de vomitar tudo — palavras, verdades, esse resto de mim que ainda insiste.
Queria dormir em outro quarto só pra ensaiar sua ausência. Tornar concreto o que já é real. Ir me descolando de você aos poucos, como quem arranca cera quente da pele: dói, mas limpa.
A esperança, pra mim, sempre foi um vício perigoso. Me deixa amarga. Já não consigo comemorar o amor dos outros sem me atravessar por dentro. Quando vejo alguém sendo escolhida, pedida, celebrada, o primeiro pensamento é feio: por que não eu? o que falta em mim?
Todos os homens antes de você, em algum momento, falaram em ficar. Você — justo você — nunca disse nada. Nem perto disso. E ainda assim, eu fico.
Porque no fim das contas, só sei existir em extremos: ou apaixonada até o delírio, ou devastada o suficiente pra escrever. E talvez o mais honesto que eu possa admitir é que você já não me ama — mas ainda me rende palavras.
@biancaschoer
não gosto da sensação de me prender e preciso constantemente de um estímulo que me faça querer ficar.