Segurei tão firme aquela arma em minhas mãos, como se minha vida dependesse daquilo. Eu não senti como se fosse um peso, mas eu me sentia pesada por guardar tanta coisa calada e por tanto tempo. Eu encarei aquele alvo como se fosse a minha salvação - e talvez fosse - e eu atirei. Atire uma, duas, três, quatro. Não foi certeiro e se minha vida dependesse disso, eu teria morrido ali mesmo. Recarreguei as balas como eu havia aprendido, respirei fundo, e encarei o alvo novamente e quando me dei conta cara, era meu rosto lá, o meu sorriso, a minha covinha na bochecha direita, o meu nariz redondinho e do outro lado do balcão, era você mirando em mim, mais precisamente em meu coração. Era você com a arma direcionada a mim! Não fiz nada para que não o fizesse, não fiz absolutamente nada. Fiquei parada e deixei que você atirasse e assim você o fez, e seus tiros foram certeiros, um atrás do outro, uma vez, duas, três, quatro! Você atirou e a cada tiro eu ouvia, coisas como: “você é tóxica”, “espero que seu pai morra”, “você merece sofrer” e “espero que algum qualquer te coma na esquina do seu apartamento, é o que você merece!”. Eu nunca falei, eu nunca demonstrei, eu apenas deixei atirar. E Deus sabe o quanto eu queria estar em posição oposta que esta. Mas a realidade nos puxa para fincarmos os pés no chão, e lá estava eu, parada e com a arma na mão, o controle dela era totalmente meu, o tiro só sairia se eu puxasse o gatilho e eu puxei. E a cada frase que lembrei, que me permiti reviver foi um tiro certeiro, bem ao centro. E eu não parava, recarreguei uma, duas, três, quatro vezes! O buraco do alvo já não era apenas de uma bala, eram buracos de vários anos e por mais que eu quisesse que fechasse, não daria, uma vez furado, quebrado, não há como consertar! Ouvi o instrutor perguntar “É sua primeira vez?” e eu disse “sim”, mas dentro de mim eu não sabia se a resposta positiva era por atirar, ou se era por eu ter falado pela primeira vez o quanto isso me doeu e me marcou.
Eu voltaria lá, e não seria mais a primeira vez, porque uma vez que já foi, não tem como ser novamente uma primeira vez. Eu vou atirar, e o alvo nunca mais será eu.