ambrosia, hidromel, nectarina e hedonismo
a ideia é ter 4 capítulos!!!
em outros tempos, eu diria, em um lapso masoquista, que queria continuar viva se tēfa me largasse ou se ela morresse, só pra sentir constantemente a dor da perda, da falta, o agudo lancinante e infindável de sofrimento. mas hoje, vivendo essa dor, essa falta, esse agudo, tudo que eu mais desejo é estar morta.
agora, hoje, nesse instante e sei que não vai ser restrito aos próximos que vierem, tudo que quero é morrer de forma lenta, dolorosa, qualquer jeito ridículo e inesperado, apenas pra deixar de sentir essa dor. é um buraco no peito que nunca vai cicatrizar. uma fratura exposta.
tēfya me odiava, e eu amava ser odiada por ela na mesma medida que amava aqueles olhos de makaya e que amava ela, na mesma medida que sabia que ela me amava, amava me odiar porque dava sentido pra nossa vida.
dizem os mais sábios que ódio e amor andam lado a lado, mas mesmo depois de tanto tempo, nunca consegui odiar a mulher da minha vida. minha ambrosia, vita nuova, meu baralho de ouro.
stēfka odiava russos mas amava os norte-americanos. odiava todo tipo de calhamaço de época mas amava dissecar todas as biografias daqueles fodões que vieram pra trazer a inspiração pra vida dela. virava noite e dia, se necessário, se gostasse, se quisesse muito acabar com um livro — e às vezes até se tivesse odiado, terminava só pra ter certeza de que era ruim.
e ela gostava de rum puro, rum com coca, rum com qualquer tipo de bebida que misture e faça estrago — menos energético, porque meu amor podia ser muito resistente, mas era cardíaca —, e por muito tempo eu tentei me convencer de que detestava essa porra pra não tomar gosto por algo tão dela, tão tēfa, tão vita nuova.
tentei me convencer de que eu gostava só do ardido do rum quando escorria na garganta, e não do sorriso de “eu avisei que era bom” que ela me dava toda vez que eu bebia um gole. tentei mesmo. só que é difícil não se apegar às pequenas ambrosias que nos são dadas quando estamos na presença do amor da vida.
agora, hoje, sozinha, eu vejo como o rum é amargo. que bebidinha desgraçada. mas mantenho: desço dois, três copos, porque é um dos únicos acessos que me lembram o sabor daquela mulher. montila, bacardi, se quiser muito até um malibu, mas nunca ela. nunca minha stēfka completa, nunca suas notas doces de olhos de makaia, nunca suas notas cítricas de loção pós banho, nunca seu sabor viciante de ‘minha-dona’, ‘meu-amor’, ‘minha-sina’.
nunca ela, nunca meu baralho completo.
depois do rum, eu aprendi a beber cachaça, porque minha mulher gostava de caipirinha. eu odiava fazer drinks até ela me pedir um, dois, batizar aquele de “eurídice”, aquele de “kozmic punk”, até ela pegar na minha mão enquanto bebia e sussurrar aquele nossa… que me matava a cada sssss que ela dizia.
e toda cachaça parecia água quando bebíamos juntas. quando ela bebia em mim. quando ela me fazia beber. quando ela… ela… ela……!
ela sorria pra mim com os dentes pontudinhos de vampiro de encruzilhada, e eu sorria pra ela com meus dentes de caveira pós adolescente. tēfya tinha seus costumes, suas manias, seus surtos, e eu também.
no final, éramos duas doentes vivendo o fim do mundo em goles de cachaça barata que parecia hidromel, duas doentes vivendo o auge da catarse de entender o que significa obsessão na sua mais pura forma.
eu acordava pensando naquela mulher — e ainda acontece, que exu me perdoe —, dormia pensando nela e quando sonhava, era com ela. desejei muitas vezes morrer ou ficar cega olhando pros olhos, pro rosto, pras mãos de stēfka, apenas pra que a minha última visão fosse ela.
nós conseguimos ser a dualidade perfeitamente imperfeita. ela, na sua pose de dona, dominadora, ativa pra caralho e shhh, passou… e eu na minha tranquila passividade de posse que quer receber o shhh, passou… ela em seu poder absoluto de “olha só o que eu faço com você…” e eu, na minha entrega absurda de “faz o que você quiser…”, uma sádica e uma masoquista convivendo em constantes extremos.
às vezes, eu levava ela até o limite ao ponto dela surtar pra valer e me sangrar. eu achava um pouco romântico, afinal, poucas coisas eu não entregaria pra minha mulher e meu sangue era o que eu mais desejava que manchasse suas mãos, seu rosto, seus lábios… percebi a distorção um pouco depois de ficar com uma cicatriz na boca, mas até seu flagelo em mim parecia um gesto de amor, porque era ela, meu deus, sempre foi ela… e carregar uma cicatriz feita pelo meu amor me dava a certeza de que eu nunca perderia nossas lembranças.
eu desejava tēfa como um maníaco. um doente. posso afirmar com tranquilidade de que eu era — sou — doente por aquela mulher. completamente. tão doente ao ponto de submeter minha vida aos caprichos dela, viver em função dela, obedecer às ordens dela e desejar cada célula de seu organismo, cada resquício de pensamento, cada segundo de sua vida.
eu desejava ela de maneira quase canibal. às vezes olhava demais suas pernas, seus braços, e pensava como seria consumir cada parte, só pra tê-la dentro de mim. e queria que ela abrisse minhas costelas pra ver meu coração batendo, sussurrando cada letra do nome dela, pra que ela enxergasse a corrente de ossos feita ao redor dele que apenas ela poderia traspassar.
todo meu amor era sentido — não se engane, caro leitor, ainda é — de forma surreal e suspeita. uma tragédia superflat de vermelho, preto, dourado e verde, todas as cores dela, todos os cheiros dela.
ela amava massa. spaghetti, molho vermelho! até aprender a gostar do meu molho branco, até aprender a gostar dos meus cookies, dos meus doces, dos meus pratos elaborados, até provar da minha nectarina…
quando ela começava a falar, era como acender uma lareira no meu estômago. vinícius, dalton, veríssimo, todos eles, todos eles, e nenhum deles foi capaz de escrever e descrever tão perfeitamente meu amor, minha vita nuova. nem em quinze, trinta, sessenta anos poderia existir alguém capaz de transmitir e corresponder perfeitamente minha mulher.
stēfka era meu norte real. ainda é. passei a vida sem minha outra metade e quando encontrei, sabia que não precisaria de mais nada nunca mais, e fui capaz de estragar tudo.
agora, hoje, neste momento, tudo que eu desejo é a morte, lenta e dolorosa. só pra que a dor de não ter aquela mulher suma. meu mestre disse que esperava que eu superasse, e eu pedi pra que ele me matasse no lugar de sentir. implorei pela morte — não que eu estivesse viva nesse ponto. ela se foi, e tudo foi junto.
tēfya se foi e tudo, absolutamente tudo foi junto. drenaram o sangue de minhas veias, a cor dos meus olhos, cortaram a ponta dos meus dedos e minha língua. nada tinha cor, gosto ou sensação. a única coisa que eu era capaz de sentir era a falta dela, e as alucinações que vieram no pacote.
eu alucinava com meus braços abertos, ensanguentados, uma memória gráfica do que um dia fiz comigo mesma, e ela aparecia, sempre linda, sempre dona, sempre me possuindo. tocava meu rosto como só ela era capaz de fazer e dizia: “você só pode sangrar se for eu a te cortar…”, pouco depois, ela sumia e o sangue também.
ela me forçava a submissão até nas minhas crises, nos meus surtos. até meu choro ela era capaz de controlar, e se voltasse imediatamente, ainda seria. não existe ninguém no mundo pra mim além dela, e se não for ela, nunca vai haver outra mulher.
tēfa sabia das coisas. um satanás intelectual que aprende rápido pra cacete, astuta como uma raposa, amorosa e endiabrada como um gatinho laranja, ela se rastejava pelas minhas entranhas devagar, marinando, entendendo, capturando tudo que podia de reação, gemido ou ah-!, ela extraía de mim tudo que podia, tudo que conseguia, e eu estava mais do que feliz de entregar absolutamente tudo a ela.
e depois disso, ela ainda ria e falava nossa…. daquele mesmo jeito que falava quando provava meus drinks autorais. e eu ria também, na névoa de intensidade que só ela era capaz de promover, na intensidade da leitura, do prazer, da risada, do choro…
tudo com ela era demais. ainda é. porque meu deus, sempre foi ela…