- Ainda vai morrer? – Luana sorri, divertida e acaricia meu rosto. Acabei rindo também. Nunca fiquei tão feliz em comer pão e beber água. – era verdade.
A Lu também tinha limpado o sangue seco dos arranhões no meu corpo. Aquilo estava feio. Também, eu caí no asfalto.
- Luana: E nem eu tão feliz em cuidar de uma pessoa. Bem, eu cuidei do Lucas quando o tirei daqui, ele estava infinitamente pior, mas descobri que detesto fazer isso. Mesmo ficando feliz com sua melhora.
- Por isso que nunca falou em casamento... – brinquei, ela riu.
- Luana: É, eu seria um esposa ruim. Mas vê se você ia casar comigo, Clara Aguilar.
- Nosso casamento tá em tanta fanfic por aí, Luana. – ela gargalha e concorda. – O povo é louco, escreve histórias com nossas vidas. Imagina só se eu fosse viver dentro de uma fanfic. Só ia acontecer loucura na minha vida. – ou será que eu teria pelo menos um relacionamento tranquilo? Já seria melhor.
- Luana: Como se isso aqui agora fosse super normal e acontecesse sempre. – ri. – Se bem que comigo já aconteceu duas vezes...
- Nas fics eu devo chegar e salvar você. – ela nega com a cabeça.
- Luana: Eu sou a que salvo você. Você tem mais cara de donzela que precisa ser salva. – pior que não posso nem discordar.
- E você é o príncipe num cavalo branco?
- Luana: Com certeza. E salvo a princesa do reino de Lesbos. – gargalhei, ne mim lembrava mais disso. – Aí casamos.
- Luana: Ok, chega. Você ama a Vanessa.
- Amo. Amo também sua atitude de tentar me distrair e se distrair, mas tô muito preocupada com ela. Com o que Hugo vai fazer.
- Luana: Você é quem está presa e está preocupada. Agora imagina a Van lá, sem notícias suas há horas. Ela é brilhante no que faz, não me surpreenderia se daqui a pouco ela arrombasse essa porta segurando a cabeça do Hugo debaixo do braço e a chave das suas algemas na mão. – ela diz, rindo. Sorri.
- Sinceramente, isso seria demais. – um silêncio se faz, e no meio dele Luana suspira, parecendo chateada.
- Luana: Eu deveria ter transado ontem. O Hugo é tão filho da puta, nossa, que merda.
- Luana: É, eu só precisava conversar com ela, ia rolar. Talvez, ainda estaríamos na cama agora, se eu não estivesse aqui.
- Acho que não, ela trabalha hoje. Essas agentes são grudadas com o trabalho.
- Luana: A Vanessa faltou uma manhã de trabalho porque estava transando com você. – não estávamos transando, mas tudo bem.
- Eu no lugar dela teria dito que estava doente. Pra passar um dia completamente sossegada, sem nenhuma preocupação. Ela quis voltar correndo, e estávamos a três horas do lugar que ela precisava estar.
- Luana: Se ela não fosse tão ligada com o trabalho, você não estaria aqui.
- Mas você sim, e eu estaria apreensiva do lado de lá. Não sei o que é pior, porque aqui eu sinto dor física e só me resta esperar por alguém que me tire daqui. A parte boa é que agora eu tenho você pra me distrair. Lá eu ficaria me sentindo impotente, porque você estaria aqui, e eu não poderia fazer nada.
- Luana: Você entregaria nas mãos da Vanessa. – assenti. – Se só você estivesse aqui, eu salvaria você junto com a Vanessa.
- Ela provavelmente diria que eu não participasse, mas eu viria mesmo assim.
- Luana: Ela deve estar feito uma louca, muito preocupada com você e sua saúde. Por isso eu cuidei de você.
- E a Aline deve estar preocupada com você. – Lu dá de ombros.
- Luana: Talvez um pouquinho.
- Queria ter voltado ontem, escutado o dia da Vanessa, ela, meio estressada, falar da agente que foi buscar no aeroporto, e tirado o stress da mente dela com... – divaguei.
- Luana: Tá, chega. Melação não. – gargalhei. – Você vai ter oportunidade de fazer isso por uma boa quantidade de dias da sua vida. Não digo todos, porque você é uma jogadora de futebol e não mora no Brasil.
- E a Vanessa não vai sair daqui.
- Luana: Talvez, por você. – dei de ombros, sabendo que, se a Van se dispusesse a fazer isso, eu não permitiria. Não mesmo.
- Você acha que ela vai descobrir logo esse Hugo? Bem, que pra ela é William.
- Luana: Vai ser difícil, mas espero que ela descubra. Se conversar com o Lucas, ele dirá pra ela. Eu pedi que não contasse nada, por isso a história de perder a memória, mas assim que ele souber que eu estou aqui, já sei que vai falar tudo. – fiquei surpresa por isso, mas nem tanto. Depois de tanta coisa a gente nem se surpreende mais.
- Mas aonde a Vanessa vai, o William também vai. Digo, o Hugo. – Luana leva as mãos à cabeça.
- Luana: Estamos fodidas. Ele vai matar o Lucas e trazer a Vanessa. Puta que pariu. – fiquei com um medo da porra, mas me mantive, porque Luana estava perdendo a cabeça ali.
- Não vamos pensar no pior. Senta aqui. – aponto com a cabeça o chão ao meu lado, ela senta, passando um dos braços pelos meus ombros. – Seu ombro não dói?
- Luana: Machuquei o outro. Mal consigo mexer o braço, ele deve dar um pouco de trabalho pra mim. Mas não se preocupe comigo. – ela me abraça. Agradeci mentalmente pela Luana estar solta, já que não tinha mesmo um modo de sair, pelo menos ela estava ali.
- Luana: É o mínimo que eu podia fazer, sendo que te coloquei aqui.
- Paola, é melhor você se segurar quando vir o William. O Hugo.
- Paola: Ah sim, vai ser um teste e tanto para o meu autocontrole. – assenti. – Na verdade, tenho passado por vários desses desde que pisei no Rio de Janeiro, e não tem 24 horas disso. Mal tem a metade.
- Tá carregado, esse lugar. – ri.
- Só assim pra eu rir. – estávamos de volta à delegacia. – Olha, eu não vou compartilhar a informação que descobrimos com mais ninguém, pra não correr riscos. Então, quieta. – falei antes de entrar na sala, num tom mais do que baixo. Paola assentiu e abriu a porta da sala pra eu entrar, agradeci, rindo e entrei, ela fez o mesmo. – Estamos de volta. – recuperei a seriedade.
- Oi, meninas. O William saiu com o Francisco por uns minutos, – ainda bem, menos pra aturar dele. – mas eu já identifiquei pelas imagens quem é o cara, nos nossos registros. E ele tem alguns antecedentes. Amado Simas.
- Amado, taí uma coisa que ele não é mesmo. – Paola diz, olhando no monitor, rimos.
- Aline: Concordo. Ele tem várias acusações, duas por sequestro, mas ninguém conseguiu provar.
- Paola: Bem, acabamos de conseguir.
- Em relação ao mascarado, estamos buscando de acordo com as características físicas e a relação com o Simas. Já encontramos as opções.
- Eu quero olhar o vídeo. – falei.
- Aline: É meio forte. – ela faz uma cara tipo “tem certeza? É a sua namorada, pense duas vezes.” Claro que eu queria ver.
- Não importa, quero ver. – ela passou o vídeo, e realmente era forte, além de bastante nítido, ainda bem. Eles machucavam as duas.
Luana provavelmente tem um ombro deslocado. E Clara trombou com um cara mascarado na tentativa de correr, a queda não foi nada agradável de assistir. Ela ainda é brutalmente levantada e parece sentir bastante dor antes desse Simas apagala com uma coronhada. Eu estava fervendo com aquele instinto protetor assistindo a essa merda.
- Paola: Espero que a Clara não tenha quebrado nada nessa queda.
- Eu também. – fiquei calada diante dos comentários das duas. Porque minha mente falava, sem parar.
O homem que esteve ao meu lado todos esses anos, para todas as situações, simplesmente está por trás do sequestro da mulher que eu amo. Comecei a repassar na minha mente todos os momentos com o William e cheguei à conclusão: como não percebi essa porra antes? Claro, ele tinha dinheiro, sempre tinha tempo, quando ele saía, eu nunca sabia pra onde, nunca conheci nenhum dos amigos que ele disse ter, nunca entramos muito em sua vida pessoal. E nem sua mãe, ele falava bastante dela, mas não hesitou em largála no sul pra voltar pra cá comigo. Não sei por que nunca desconfiei disso. No fim, ele nem era do sul.
- Paola: Vanessa! Para, sério. – me percebi andando de um lado pro outro enquanto matutava isso aí. Raiva. Localiza o galpão e lugares a meia hora de distância, sem trânsito, entrando na cidade. Vamos achar as meninas agora.
- Paola, tranca aquela porta.
- Mas o William e o Francisco não vão...? – Aline começa a dizer, mas a interrompo.
- Não, não vão. Tranca, Paola. – ela obedece. – Não vamos demorar trancadas. – respirei fundo.
- Paola: Por que fez isso?
- Pra nos concentrarmos melhor. – menti descaradamente. Ela me olhou tipo “oxe”, e deu de ombros.
- Paola: Tudo bem... Nós temos uma boa quantidade de ruas, a meia hora do local que você disse.
- Deixa que eu assumo aqui. Vou reduzir esse número rapidinho. – falei e sentei em frente ao computador.
Fiquei analisando todas as ruas com as imagens do satélite e fazendo algumas anotações, eliminando umas e outras. As outras duas só me observavam, até que Paola puxou conversa e elas começaram a conversar, era bom que não atrapalhava o que eu fazia, além de que eu não era fã de olhos sobre o meu trabalho.
- Vanessa... Eu preciso sair dessa sala. – disse a Aline.
- É o papo da Paola, não é? Chata demais. – falei, rindo. Aline ri junto.
- Podem destrancar a porta. E, Aline, já que vai sair, peça aos meninos da informática para conferirem se a localização bate com a provável localização dada pela última atualização do rastreador do telefone da Clara.
- Ah, leve o Francisco com você, porque quero que ele vá imediatamente para o endereço e observe qualquer movimento suspeito. – ela assente.
É só Aline abrir a porta e William entra por ela, não tão chateado quanto achei que ele estaria. Vou continuar chamandoo de William, por uma questão de me acostumar à ideia de que o meu amigo é o maior filho da puta que existe. Se eu o chamar de Hugo, para mim soa como alguma pessoa completamente diferente e distante do cara que foi meu amigo, chamandoo de Hugo eu o divido em duas pessoas. Uma boa e uma ruim. O que na verdade não existe. Quando eu absorver isso de verdade, passarei a chamálo de Hugo.
- Will: E aí? Fizeram progresso aqui trancadas? – há um quê prepotente no seu tom que eu posso associar a um psicopata. Sorri de lado pra ele.
- Ah sim, temos uma localização, pelo rastreador do telefone da Clara.
- Will: Mesmo? Então já vão agir?
- Não, agora vou atrás do dinheiro que esse cara pediu. Não quero correr nenhum risco. Agora vem uma das partes mais difíceis, que é falar com a mãe da Clara. Ela tá completamente por fora dessa história. E ela também precisa liberar o dinheiro. – soltei o ar, nervosa.
- Quer que eu vá ou fique? – ele me pergunta.
- Fique. Eles devem ligar novamente, afinal, até agora, eu não sei onde é que devo ir levar o dinheiro. Como ligaram pra o meu número antigo e eu já tenho um novo, vou deixar esse celular aqui. – coloquei um telefone sobre a mesa. – Se ligarem, um dos dois pode atender. – falei.
- Vai me deixar aqui com o babacão? – Paola pergunta.
- Eu quero menos ainda ficar aqui. – William reclama.
- Eu não vou prender vocês. Podem sair, se quiserem. Parecem crianças. Saí e fui até meu carro, onde fiquei sentada por alguns minutos antes de discar o número da May, com quem falei por vários minutos, pra relatar o acontecido, e peguei um contato pra mãe da Clara com ela.
10h12 Paola: O Hugo saiu daqui da sala, há dois minutos.
10h12 Paola: E o seu telefone está tocando agora, número restrito.
10h13 Atenda e passe tudo pra mim quando eu voltar. Conversei calmamente com a mãe da Clara, omitindo apenas o motivo delas terem sido sequestradas. Falei que acontecia com certa frequência, afinal, elas eram famosas, ricas, e o Brasil é cheio de criminosos e desigualdades. Ela ficou desesperada, claro. Mas consegui passar um pouco de segurança a ela, porque a mãe da Clara sempre gostou de mim, e confiou no meu trabalho.
Quando voltei, fui até o chefe, pedindo pra ele rodar pra mim cem mil em notas falsas. Ele perguntou pela milésima vez se eu não precisava entregar o caso a algum outro agente, já que eu estava emocionalmente envolvida. Falei pra ele que o caso das meninas estava diretamente ligado ao caso que eu estava lidando, pelo fato de o sequestro ser ligado a pessoas que supostamente pertencem ao tráfico, e por eu estar bastante próxima de descobrir um informante entre nossos agentes. Entre meus agentes. Ele ficou muito surpreso, e disse confiar em mim. Voltei para sala, onde Paola estava com o William.
- Alguma mudança? – perguntei. – Já estou com o dinheiro no carro. – o chefe nem tinha me dado.
- Bom é que foi rápido. – disse o William.
- Ah sim, a mãe da Clarinha entendeu que não temos tempo a perder e liberou o dinheiro pra que eu sacasse. Espero devolvêlo. Pelo menos pediram pouco.
- Will: Cem mil é pouco?
- Na verdade é sim, considerando que a Clara ganha milhões e tem uma fortuna quase incontável. – ele fica quieto, eu observo sua postura. Filho de uma puta. Será que a mãe dele é viva e sabe que criou um criminoso? Porra, espero que não. Sou tirada dos meus pensamentos por um pigarro da Paola, que atrai também a atenção do William.
- Paola: O sequestrador ligou, marcando pra pegar o dinheiro às quatro, e deu as coordenadas de uma casa num beco sem saída. A 20min da localização que achamos, e pertinho do galpão, onde você encontrou o Lucas Sánchez.
- Alguma observação a mais?
- Paola: Sim. A voz desse homem era completamente diferente da voz do homem que ligou pra nós ontem.
- Pareceu familiar, a voz?
- Paola: Infelizmente não. – merda.
- Por que seria familiar? – William pergunta.
- O que corre é que há um informante, um criminoso entre nós. – William não tem reação diante da frase da Paola. Ela voltase para mim novamente. – E não tivemos nenhum tipo de confirmação de que as meninas estão vivas.
- Will: O que? Como assim?
- Não me deram nada delas quando pedi. Não tive a confirmação, não escutei nem a Clara e nem a Luana. – só pude andar pela sala enquanto mexia descontroladamente no cabelo.
Porra, a insegurança é a pior parte.
- Will: Calma, elas estão vivas.
- Como você sabe, William? Eles são um bando de filhos da puta que só querem dinheiro, caralho! – sim, eu gritei. Ele levantou e me fez parar de andar, segurando meus ombros. Me contive para não chutar o meio de suas pernas. Me contive e muito.
- Will: Vanessa. Elas estão bem. Pensar negativo também não vai dar certo. Tudo bem? Respira fundo e calma. – ele segura meu rosto com as duas mãos. – Olha pra mim. Vai ficar tudo bem. – tirei as mãos dele de mim e voltei a andar, dessa vez indo sentar numa das cadeiras.
- Certo, William. Estou mais calma. – ele olha pra mim com uma expressão meio penosa, sinto vontade de dizer que tenho nojo. Paola, bem atrás dele, finge vomitar em reação ao teatro dele de "bom amigo".
- Will: Tem certeza? Quer que eu mande a Paola buscar uma água? – neguei com a cabeça. Ele queria ficar sozinho comigo. Nem a pau.
- Paola: Você acha que tem autoridade sobre mim, William? Qual o seu sobrenome mesmo?
- Will: Era só por fazer um favor para sua amiga. Não consegue ser madura?
- Paola: Você é um otário.
- Paola... Chega. Chega, os dois. Estou pensando em como vamos agir, não perturbem meu juízo.
- Com qual de nós dois você vai? – estranho a pergunta do William. – Bem, parece que você me trocou por ela. – nego com a cabeça.
- Eu vou com você, William. Você é meu parceiro. – Paola me olha como se eu fosse louca. – Vamos eu e você, ambos à paisana, entregamos o dinheiro, tentamos negociar com o cara. Enquanto isso, mando uma equipe pra localização das meninas, eles resgatam as duas, e nós vamos pra lá em seguida. O que acha?
- Eu estarei na equipe que vai dar conta de resgatar as meninas, certo? – Paola pergunta. Sim, se quiser pode ir com eles. – falei, como se não ligasse e desbloqueei o celular. Abri na conversa da Paola.
11h21: Quero que siga o William, quando formos juntos. Quero que siganos e o observe, o tempo todo.
11h21: Não precisa responder a mensagem, ou pelo menos não na frente dele.
- É quase horário de almoço, vamos almoçar logo, aí nos preparamos para agir. Estão liberados por duas horas.
- Você quer ir almoçar comigo hoje, Babi? – William perguntou.
- Não, Will, não vou almoçar. Não consigo. – o que era mentira porque eu poderia muito bem comer e estava louca por um prato cheio de sushi. Eu ia comer.
- Will: Quer que eu traga algo?
- Não, obrigada. Sempre um amor, não é? – claro que há um sarcasmo sutil na frase.
- Will: Só cuido de você. Você precisa de cuidados, por mais autossuficente que pareça. – assenti, porque não queria dar corda pra isso. Ele beija minha testa. – Volto em duas horas.
- Ok. – ele sai pela porta. – Não diz nada, apenas olha o celular. Ele pode estar escutando. – digo em tom baixo.
11h25 Paola: Ok, eu seguirei vocês. Por favor, sem piadinhas sobre eu ter meio que perseguido você.
11h26: "meio que?" sua STALKER
11h26 Paola: Menos, Vanessa.
- Tobias! Finalmente, não aguento mais ficar aqui. – Luana diz. Tobias entrou, depois de quase cinco minutos tentando abrir os cadeados. Sem máscara. Ele era, como o Lucas, um garoto que parecia ter sido seduzido para essa vida e agora está profundamente arrependido. Provavelmente, entre nós e ele, a diferença de idade era de uns dois anos. Tinha uma ótima aparência e olhos muito marcantes, cor de mel como os da Luana, mas totalmente diferentes dos dela.
- Tobias: Acho que deveria se alegrar então, porque vamos levar vocês daqui.
- A Vanessa descobriu onde estamos. – falei.
- Tobias: Não posso dar informações.
- Sei disso, Tobias. – Luana diz. Ele me levanta do chão com toda a delicadeza possível. – Você pretende seguir com nosso plano?
- Tobias: Sinto muito, Luana. Não posso fazer nada. Quando vocês forem resgatadas, talvez eu vá até a polícia, mas agora, realmente não posso fazer nada. Hugo mandou outro supervisor. Se eu fosse supervisionar, eu faria. Mas o Hugo não está me vendo de uma forma boa depois de descobrir que dei água à menina Aguilar porque você pediu.
- Tobias: Vou precisar amarrar suas mãos. – Luana assente, ele pega uma das cordas.
- Luana: Amarra pra frente, por favor, o meu ombro dói. – Tobias a obedece. Quando ela está devidamente amarrada, ele vem até mim.
- Tobias: Você está mal...
- Estava pior há duas horas. – falei. – Achei que fosse morrer. Nem Lu nem eu pretendemos te deixar morrer. Seria uma pena, mesmo, se acontecesse. Já estive em um dos seus jogos. Dinheiro sujo, porém bem gasto. – acabei sorrindo fraco pra ele. – Cuidado com o lábio. – diz antes de passar um pano na minha boca, de lábio inferior partido. – Você é a senhorita que está muito puta por estar aqui. Aja como tal para o outro cara, ok? Olhe feio, revire os olhos, se soltarem o pano, xingue, esperneie, desconte nele sem medo, assim ele não vai querer ficar por muito tempo. E relaxe, não vai acontecer nada. Eu não vou deixar. – assenti.
- Luana: Eu sou a que já está acostumada, não é? Você e essa mania de querer que a gente atue, Tobias. Ele quer ser ator, Clara.
- Tobias: Na verdade é meu sonho. – me comoveu. Desejei que ele pudesse sair dali e ser o que quisesse. – E você é sim a que já está acostumada. Vai ser fácil, Luana, e vamos passar por essa novamente. – ele diz, sorrindo. Acho que o Tobias não usava drogas. Estava ali por um deslize adolescente, não viu que poderia dar em algo tão grande, mas não se viciou em drogas. – Vem aqui, pra eu colocar o pano em você também. – Luana se aproxima. – Qual dos seus ombros é o machucado?
- Luana: Direito. – ele coloca o pano na boca dela também e a puxa pelo braço esquerdo. Segura o meu braço direito, já que o esquerdo estava cheio de arranhões e machucados do asfalto, e com certa brutalidade contida nos empurra porta afora, escada acima.
- Tobias: Agora eu sou o cara que é bruto sem a menor necessidade. Quietas e nada de rir, certo Luana?
- Uhum. – Lu diz, assentindo. O outro cara era mais velho que o Simas. E feio, ele dava medo.
Respirei fundo, incorporando a patricinha insatisfeita que dormia dentro de mim. Foi só pensar que eu fui no asfalto, na van, encostei a cabeça na parede suja, no chão, não sei mais onde, e o meu cabelo provavelmente estava uma merda, além de embaraçado. Pesadelo da porra.
- Vamos logo levar essas putinhas. Ninguém merece mais o Hugo e suas merdas.
- Sequestro de famosas. Idiotice do caralho. – ele reclama. – Se bem que... Poderíamos nos aproveitar delas, não acha Tobias?
- Tobias: Até acho. São lindas, mas não gostam da nossa fruta.
- Ah, não? – ele toca meu rosto. Meu grunhido de insatisfação é real. – Duvido que tenha sido pega de jeito por um homem que queria muito. O que você acha sobre eu ficar com a loirinha, Tobias? – Luana rosna.
- Tobias: Acho que faria um trabalho maravilhoso com ela, porém...
- Porém o que? Está querendo ficar com elas só pra você? Passou a noite nessa casa só você e as duas e não fez nada. Você é viado, Tobias? Ou se acha inteligente demais pra foder uma boceta? Vamos lá, eu sei que você se faz de bobo.
- Tobias: Quem te disse que não fiz nada com elas? – pelo tom que ele usou até eu acreditei. – As meninas disseram? Pelo que sei, não podem falar nada.
- Joga a loira no sofá. – que não me estuprem, que não me estuprem, que não me estuprem...
- Tobias: Infelizmente, Roger, não temos tempo para isso agora. Temos que leválas imediatamente, descobriram onde estamos.
- Não temos tempo é o caralho! – ele me puxa para longe do Tobias e me joga no sofá. Tira o pano da minha boca e senta sobre minha barriga. Meu Deus.
- Não toque em mim, filho da puta! – gritei, tentando tirálo de cima de mim de qualquer jeito.
- Tobias: Roger, sai de cima dela.
- Vá se foder, Tobias! Ela é minha agora.
- Tobias: Roger, o Hugo disse...
- Tobias: O último que disse "fodase" para as ordens do Hugo foi o Simas, você sabe o que aconteceu...
- Isso tudo é culpa do Simas, eu estou aqui por causa da merda que ele fez e estou pouco me fodendo se agora ele está morto. – ele levantou de cima de mim pra gritar com o Tobias, que apenas segurava a Luana sem se abalar. Eu estava ofegante. Medo. – Agora, será que eu posso ter um momento de descontração no meio disso?
- Tobias: Estuprála na frente da amiga é descontração pra você? Você é doente. – lembrei que minhas pernas não estavam presas e silenciosamente levantei do sofá. A porta estava aberta.
- Fodase a amiga dela! Fodase você também, eu faço o que eu quiser! – saí correndo e ganhei a rua. Acho que ainda pude ouvir Tobias rir e dizer "vai ter que alcançála primeiro". A rua era obviamente 100% desconhecida por mim e era deserta na mesma proporção. Escolhi ir para a direita e corri mais rápido, ouvi uma arma disparar, pensei em abaixar mas o tiro acertou meu braço, de raspão. A arma foi disparada mais uma vez, entrei em um beco, sentindo meu braço arder muito, e sangrar. Gritei de dor. Não demorou pra ele aparecer.
- Sua putinha. Eu deveria comer você aqui nesse beco. – ele diz apertando meu braço que sangrava. Não fiz nada além de uma careta de dor.
- Mas não vai, o Hugo acabou de ligar, temos que ir agora. – diz o Tobias na maior calma do mundo. – Vai pra van, Roger.
- Mais tarde, quando chegarmos lá, você não me escapa. – fiquei calada também diante disso. Agradecendo mentalmente ao Tobias e torcendo pra Van ser a Van e ter mais de uma carta na manga. O tal de Roger me puxou pelo braço. Luana piscou pra mim antes de ser empurrada dentro da van, e quando fui jogada lá dentro, Tobias me pediu desculpas com os olhos.
- Está tudo bem. Foi de raspão. – sussurrei. Doía bastante, mas nada que eu não pudesse aguentar calada. A agonia era o sangue descendo pelo braço.
- Ufa. – ele diz, mais baixo ainda.
- Já vendou e amordaçou essas duas vagabundas, Tobias? – ele grita do banco do motorista.
- Estou fazendo isso agora, espere um pouco.
- Repassando: vamos até o lugar, entregamos o dinheiro, enquanto uma equipe vai até o endereço atrás das meninas.
- Certo. Podemos ir? – William diz.
- Claro. – eu usava duas escutas, uma conectada ao computador da sala, que iria nos monitorar enquanto estivéssemos com o sequestrador e a outra estava ligada ao rádio da Paola, que iria seguirnos escutando tudo. Esta última mais escondida, obviamente. Peguei a chave do meu carro, respirando fundo. – Dirige?
- Will: Sim, com certeza. – ele pega a chave da minha mão e destrava as portas. – Vanessa, cadê a Paola? A equipe que vai atrás das meninas saiu agora e eu não a vi. – ele diz assim que eu fecho a porta do carro.
- Como não viu? Ela estava lá. – coloquei o cinto, ele fez o mesmo.
- Will: Não estava não. – não, porque ela estava lá dentro esperando pra sair atrás da gente de moto. Aquela louca pediu a moto do Francisco. E ele emprestou.
- Você está ficando louco. Ela foi junto. – menti descaradamente olhando nos olhos dele.
- Will: Mas eu observei bem.
- E eu pedi a ela que fosse, não ordenei. Que insistência sem sentido é essa?
- Will: É, fodase a vadia ruiva. Vamos logo.
- Também não precisa falar assim dela. – ele começa a fazer o caminho, atentamente.
- Will: Só não entendo a amizade de vocês. É repentina demais.
- Ela estava comigo ontem, na hora que eu descobri que a mulher que eu amo foi sequestrada.
- Will: Por que não me procurou?
- Porque confiei nela, e ela foi muito importante. Não se sinta trocado, Will. Você não foi. – sorri pra ele. Também quero saber quando me tornei tão fria e capaz de fingir dessa maneira.
- Will: É, eu realmente fiquei um pouco enciumado. Porque ela não gosta de mim. Eu também não sou fã dela. Acho que ela não deveria estar aqui.
- Eu acho que ela veio pra algo muito importante. Mas deixa pra lá, vamos focar em... – rapidamente olho pela janela e vejo a rua passando como um borrão. – William... Por que tá dirigindo tão rápido?
- Will: Estou com pressa.
- Certo, mas desse jeito vai acabar nos matando. Ele reduz a velocidade e continuamos, mas quase meia hora depois, quando estávamos perto, ele volta a acelerar muito.
- William! Pelo amor, vai mais devagar! – ele me ignora. – William, é sério.
- Will: Estou com pressa!
- Não estamos atrasados e... – reparo mais uma vez no caminho. – Não era pra você ter virado a direita minutos atrás? Não estamos indo para...
- Will: Cala a boca! Vamos pra outro lugar.
- Você ficou louco, por acaso? – chama os reforços, Paola, chama os reforços.
- Will: Não, Vanessa. Estou perfeitamente são.
- Eu acho que não está. Esqueceu que estão nos ouvindo no departamento? Pra onde está me levando?
- Will: Ninguém está te ouvindo. Sabotei as escutas. A minha e a sua.
- Filho da... Por quê, William?
- Will: Porque estou tentando consertar a merda enorme feita pelo Simas.
- O que você tem a ver com eles?
- Will: Sou o mais importante dos informantes. – de acordo com o Lucas, era um bosta.
- Você vem sendo um informante todo esse tempo em que finge ser meu amigo? – aproveitei pra tirar umas dúvidas, também.
- Will: Com certeza, e por sorte colei exatamente na maior ameaça que temos. Na época você nem era ameaça. Você não era nada. Se tornou o que é, infelizmente com a minha ajuda, e agora eu tenho que dar um jeito em você.
- Quer dizer que você tá no meio do sequestro da Clara?
- Will: Era pra ser só a Sánchez. Só a Sánchez. Mas, tudo tem seu lado bom, isso adianta as coisas. Eu ia ter que dar um jeito em você mais cedo ou mais tarde. – ele estaciona em frente ao galpão, o mesmo galpão de antes, atrás de uma van. Novamente deserto, o lugar. – Foi uma boa conversa.
- Will: Agora... – ele faz que vai sacar uma arma, mas saco a minha antes. Ele achou mesmo que eu sairia desarmada, nem fodendo.
- Agora você sai do carro, Hugo.
- Hugo: Filha da puta...
- Preciso falar outra vez? – ameacei puxar o gatilho. Ele me obedece. Saio também, em nenhum momento deixando de mirálo. – Agora me diz onde estão as meninas. – digo enquanto me aproximo.
- Hugo: Van... Calma... – ri.
- Elas estão aqui, não é? – vejo ele sorrir de lado e estranho. Até ouvir outra arma sendo destravada e o cano frio encostar na minha cabeça. Merda merda merda
- Hugo: Sim, e é melhor você largar essa pistola. – nenhum sinal da Paola, tive medo que ela tivesse ido para o lugar marcado, por Hugo ter conseguido sabotar a minha escuta com ela também. Larguei a pistola, mantendo as mãos pra cima. – Isso. Agora você vai, caladinha, entrar no galpão. – comecei a andar.
- Hugo: Pois é, Vanessa. Você termina nas minhas mãos.
- Hugo: Calma, Roger. Ela é inofensiva, sem a arma. – bem, eu ainda consigo pensar. Chegamos até a porta enorme do galpão, os carros da primeira vez não estavam mais lá. Completamente vazio. Me perguntei que merda eles faziam ali.
- Hugo: Pode parar, Vanessa. – ouvia uma conversa em sussurros e quis ir até o outro lado onde eu tinha certeza que veria a Clara, mas me controlei. Hugo agora está com a arma, e tem ela apontada pra mim. Eu queria tanto quebrar a cara dele. – Devo dizer pra você que é uma agente impecável. Fiz de você uma grande otária, mas não tira seu mérito. Claro, porque eu só consegui enganar você por todo esse tempo porque conquistei a sua confiança. A Sabrina morrer facilitou pra mim, mesmo que eu tenha aguentado horas e mais horas de você chorando nos meus ouvidos e tudo o que veio depois.
- Não fale da Sabrina. Você não pode falar dela.
- Hugo: Tudo bem, não falo. Sabia que eu não planejava ficar atrás de você até saber que você ia voltar pra cá? Nossa, eu estava louco pra voltar para o meu estado. Você foi conveniente até nisso. Tão fácil extrair as informações de você. Tão fácil entrar na sua vida. – ele só conseguiu porque eu estava frágil, merda – Se arrepende de ter dado pra mim?
- Comeu ela, Hugo? Wow, finalmente alguma que prestasse.
- Cala a boca, me respeita, filho da puta.
- Hugo: Ponhase no seu lugar, eu não como vagabundas à força. Estuprador de merda. Você é um doente. Maluco. – ele cospe essas palavras para o Roger, ainda atrás de mim. – E muito pelo contrário, essa daqui me procurou e resolveu me dar. Agradeço à sua namorada que morreu.
- Já disse pra não falar da Sabrina.
- Hugo: Me diz, você ficou impressionada? Porque eu te fiz de boba? Porque nem meu nome verdadeiro você sabia? Foi bom demais ficar na sua cola, eu ficava sabendo de tudo antes de todo mundo. Agora eu posso dar um fim na sua operação antes dela ter sequer começado a ser executada. Você nunca vai pôr um fim no cartel, porque eu vou pôr um fim em você. Já. – ele para de falar e suspira. Olha para trás. – Onde está o Tobias? Por que esse silêncio?
- Ele tá logo ali, mantendo as duas quietas.
- Estou aqui, Hugo. – um homem que não tinha mais que a minha idade aparece sem camisa. Claro que não era hora pra isso, mas o corpo dele era ótimo.
- Hugo: Cadê a Clara Aguilar? Pegue a Clara Aguilar pra mim.
- Não acho que ela possa levantar. – quase dei um ataque. – Ela perdeu sangue, e eu não tive como fazer muita coisa. Usei minha camisa pra estancar o sangue. Já parou, mas ela está fraca. – a preocupação faz meu corpo gelar.
- Hugo: Como assim, perdeu sangue? O que você fez? Eu não fiz porra nenhuma, foi o Roger, tentou estuprála. – travei a mandíbula. Se tocaram na minha mulher... – E deixou ela fugir. A Aguilar saiu correndo e ele só conseguiu pará la com um tiro. Por sorte dela só pegou de raspão no braço. – ele pisca pra mim. Acho que Tobias estava do meu lado. Esse Roger tem que morrer.
- Você é um filho da puta mesmo, hein? – diz o Hugo para Roger. – Se você estuprasse Clara Aguilar, estaria fodido. Ela ia colocar você na cadeia depois que eu a deixasse ir. – ele ia deixar a Clara ir? – É, Vanessa, na verdade você e os irmãos Sánchez são os únicos que precisam morrer. Ela não precisa. Não sou assassino. Apenas trabalho para superiores e faço justiça com minhas próprias mãos.
- Você só faz a parte suja do trabalho. É o primeiro que vai se foder quando a polícia estiver ciente de tudo.
- Hugo: Com você eles até poderiam chegar a esse ponto, mas sem você... Impossível. Mas enfim, fodase, se a Clara não vem até a Vanessa, levo a Vanessa até ela. – ele me puxa pelo braço, quando passamos para a outra parte, no canto em que achei o Lucas, Clara estava sentada, perto da poça de sangue seco que ele havia deixado, com a camisa do Tobias amarrada em seu braço. Ela me olha e parece dizer várias coisas, mas a mordaça não me permite identificar uma palavra sequer. Era a minha vida ali. Amarrada e presa. Machucada.
- Hugo: Só te trouxe aqui pra ela te assistir morrer. Quer falar uma última coisa pra ela, Clara? Tira o pano, Tobias. – ela estava pálida. E apenas negou com a cabeça quando Tobias obedeceu à ordem. Suspirei. – E você, Vanessa? – agora ela me olhava, claramente esperando que eu dissesse a solução. A solução era a Paola. Onde ela está, não sei.
- No fim do dia estaremos juntas, Clara. Eu e você. – falei, firme.
- Só se for no inferno. – o tal do Roger comenta, fazendo Hugo negar com a cabeça. Clara assentiu (para o que eu disse, não conseguiu ouvir o comentário infeliz do outro filho da puta) e eu quis chorar porque realmente comecei a acreditar que o meu fim seria ali. De repente a percebo tentando levantar, com raiva. Clara não estava fraca.
- Hugo: Pode ficar paradinha, Aguilar!
- Vai se foder, filho da puta. – ela diz e é a última coisa que escuto antes de um tiro ser disparado, não sei de onde. Por reflexo, abaixei, o mais perto possível da Clara.
Levou um segundo pra eu perceber que não fui atingida, aí fui até ela e protegia dos próximos tiros que achava que viriam.
NA: E então... Gostaram dos 3 capítulos na madrugada? Hehehehe.
Mas e esse caso, hein? Como será que vai terminar? Será que alguém se feriu ainda mais com esses tiros? Hum... Vem muita coisa por aí ainda.
Curtam, compartilhem, comentem e continuem me dizendo o que estão achando, afinal, estou aqui por vocês. hehehehe.
Ah! Capítulo dedicado à “maktub-clanessa”. Afinal... Só pra isso que eu sirvo, né? ¬¬’