A retirada dos pedacinhos de sua mão a fez reagir como uma típica garota mimada: os lábios se curvando em um bico de indignação, e os braços cruzados a frente do peito. “ — Por que você tem que ser tão chata?” a pergunta foi em tom emburrado, e Anneliese mostrou a língua para a outra, virando o rosto para ela logo em seguida. Sua cabeça zunia, e ela pouco tinha controle do que falava; talvez nem se estivesse totalmente embrigada pelo álcool se comportaria daquela forma. Relutou para se levantar, mas acabou cedendo à tentativa, erguendo-se e sentando-se no banco de uma das mesas. Ainda evitava olhar para Claire, como se a atitude dela lhe tivesse magoado a um ponto extremo. Voltou a sorrir, porém, ao ver o frasquinho novamente inteiro, os olhos brilhando em excitação. “ — Você é muito boa nisso! Uau!” a exclamação foi acompanhada de duas palminhas, e a ruiva observou sua companhia com atenção, batucando as unhas pintadas sobre as coxas. Sua cabeça estava inclinada para o lado, e toda sua expressão resumia um quadro de curiosidade que não era seu; era como uma criança esperando pela decisão da irmã mais velha acerca do que fariam a seguida. A ideia da grifana, porém, a fez levantar em um pulo, negando com o dedo indicador de maneira veemente. “ — Eu tenho medo de altura, você está louca? Você quer me matar! Eu sei que sim, é tudo um plano, não é?” a voz agora já era quase desesperada, e a sonserina se afastou com dois passos para trás, o rosto sério ao que encarava a garota a sua frente. “ — Me fala, vai, quem mandou você me matar? Quero saber o nome do infeliz!”
Se contasse a alguém que Anneliese estava batendo palmas para ela, provavelmente seria alvo de risadas. Realmente a cena era muito engraçada e não combinava, em nada, com a relação que as duas bruxas compartilhavam. Claire, porém, não conseguia usufruir daquela comédia toda. Precisava solucionar aquele problema, pois não duvidava que o tal Professor Fiddlestick fosse pedir que a suspendessem por causar um surto em uma de suas sonserinas. Quando colocou a ruiva para sentar, acreditou que ela estava mais calma e seria fácil levá-la dali até a Torre de Astronomia, onde esperariam o efeito passar sem que ninguém soubesse o que estava acontecendo. Não estava esperando por aquele desespero todo. “Não, sua louca!” Claire respondeu, colocando as mãos sobre as faces. Os gritos de Anneliese estavam a impedindo de pensar. “Eu não quero te matar! Não consegue entender que eu estou tentando te salvar?” A grifina usou seus melhores dotes de interpretação e tentou mostrar-se tão desesperada quanto a outra. “Uma pessoa está planejando contra você aqui dentro! Ela tentou me usar, mas eu não posso fazer isso com você. Por dentro, eu sempre quis que fôssemos amigas.” Colocou a mão sobre o peito e forçou uma expressão emocionada, como se tudo que dissesse fosse verdade. “Eu sei do seu medo de altura.” Aproximou-se da garota e colocou suas mãos nos braços alheios, apertando levemente para que Annie sentisse a falsa necessidade e desespero em suas atitudes. “Mas é a única forma de te esconder dele! Jamais vão te encontrar na Torre de Astronomia. Nunca vão imaginar, entende? Ir para lá, é a única forma de te salvar!”