Não me lembro ao certo quando comecei a me incomodar com a espera. Não que ela não incomode, de fato, mas assim, tão rápido, pra ser honesto, eu não me lembro. Já se passaram quarenta minutos desde o combinado. Tenho convicta noção de que largar no horário em plena terça-feira de pico não é fácil pra ninguém. No entanto, estou tranquilo, digo, não estou chateado com a demora, só meio ansioso, afinal, um ano de namoro, bem... É um ano de namoro. É bastante tempo... Passei o dia inteiro ignorando a data para não estragar a surpresa. A fiz acreditar que este seria um encontro entre amigos, como de costume o fazemos. Não consegui preparar nada de tão grandioso ou, até mesmo, merecedor desse momento, mas estive esperando que a agrade de alguma forma.
Quando o garçom aponta próximo à porta, eu o chamo. Peço mais um quarto de conhaque e alguns biscoitos de maisena pra tirar o gosto. Por sorte - para a minha sorte - o lugar não está tão cheio. Quantos menos senhorinhas, como essa sentada na mesa ao lado me encarando, melhor. Estico as pernas e relaxo as costas. Começo a recapitular meu discurso mentalmente. Por um segundo, não mais que isso, aperto os olhos e baixo a cabeça. Porra! O que é que eu ia dizer mesmo nessa parte... Meu corpo, então, pressente a presença de calor humano por trás. Meu cérebro logo abandona o que estou fazendo e começa a cogitar as possibilidades. A lógica indica o garçom; A ansiedade clama pela minha convidada especial. Mas o perfume... Familiar, porém onipresente. Está se deslocando. Permaneço parado, na mesma posição. Eu poderia esperar ver qualquer pessoa nesse instante, qualquer uma, menos a criatura que acaba de se sentar à minha frente. Ela está olhando fixamente para mim. Sua expressão está suave, mas consigo enxergar as batidas aceleradas de seu peito saltando pela jugular.
– Oi - diz ela.
Engulo a seco.
– Oi.
Ela ofega em meio a um sorriso e, agora, acho que é a minha jugular quem está me entregando.
– Eu estava ali sentada do lado de fora e o vi aqui dentro. Na verdade, eu estou te observando a mais ou menos meia hora. Estava decidindo se vinha ou não.
– E por que?
– Por que o quê?
– Por que estava decidindo? Quero dizer, por que passou trinta minutos decidindo sobre isso? - Digo e, em seguida, sorrio de canto.
– Ah, você sabe... Mas se eu estiver atrapalhando, sei lá, se estiver esperando alguém...
– Não, não. Tá tudo bem. Não está me atrapalhando não.
Não? Confesso que falei sem pensar, mas senti ao falar e não me arrependi à seguir - ou pelo menos por enquanto. Porém, estou meio nervoso. Não posso dizer ao certo se pelo fato de a “mulher da minha vida” estar tão próxima após um ano sem nos vermos ou por eu ter acabado de mentir para ela e para mim mesmo.
– Mas e ai? Tudo bem com você?
– Estou bem, sim. E você?
– Bem.
– Você tá... Diferente.
– É? Você continua a mesma.
E eu quero dizer a mesma em todos os sentidos. O mesmo aspecto, o mesmas forma de me abordar, o mesmo sorriso amarelo quando comete o erro de apagar as luzes antes do fim. A mesma Diana, a minha Maria Diana, de quem tanto sinto falta e, ao mesmo tempo, nunca senti...
– Quebrada, digamos.
– Me recorde de quando você foi inteira...
Sorrimos juntos.
– Um pouco dispersa, na verdade, mas isso não faz muita diferença. Eu sempre me viro de qualquer jeito.
– Isso me soa muito “eu”.
– Que nada! Você não está somente bem, Luís, você está... Está radiante, sem olheiras, sem café... - Ela aponta com os olhos para a taça de conhaque vazia.
– É uma boa observação, embora um tanto quanto superficial.
– É... Estou meio enferrujada de você. Mas soube que se libertou do folk e agora ouve jazz. Quem diria!
– Na verdade, eu me libertei de muitas coisas.
E essa foi a primeira frase da qual me arrependi de dizê-lo. Não porque não queria dizê-la, mas pela forma como soou e como Diana poderia ter interpretado. Mas agora é tarde. Ela já fechou a cara para mim. Está inexpressiva, mas sinto o desconforto se esvair por seus lábios apertados.
– Veja, não foi bem o que eu quis...
– Tudo bem, não importa. Eu sei - ela me interrompe. – O tempo passa, não é? As coisas tendenciam à mudar.
O meu amor não. Ela nunca muda... É claro que eu não posso simplesmente dizer isso agora. Eu ainda nem creio direito que estamos tendo esse diálogo, e 398 dias não são dez minutos de um reencontro circunstancial. Mas que curiosidade essa que me invade em querer saber como vai sua vida pessoal, como anda o coração. A maldita dúvida do devo ou não devo. Sabe-se Deus quando irei vê-la outra vez...
– Mas aproveitando o instante, conte-me mais!
Diana então me olha surpresa.
– Mais? Sobre...?
– Você. Sua vida... Qualquer coisa da vasta lista de coisas que perdi esse tempo todo.
– Passaríamos o resto da noite aqui.
– As que você considera principais, talvez.
– Não estou com ninguém - Ela dispara.
– Não?! - Tento disfarçar minha surpresa, embora eu já soubesse que não.
– Não, assim... Fixo. Certo.
– Ah, sei. Bom.
– Bom?
– Digo, ok!
– E o seu relacionamento?
– O que tem ele?
– Como tá?
– Bom!
– Bom?
– Digo... Bom, ele... Tá indo. Estamos bem.
– Ah, bom.
Nunca usurpei tanto de uma palavra quanto hoje. Bom. O que é bom, afinal? Bom é quando algo não está ruim? Porque o papo não está ruim, mas também não está bom. Sinto minhas pernas enrijecer embaixo da mesa e as têmporas de Diana se apertam cada vez mais. Só então percebo que o conhaque e os biscoitos estão demorando, mas que, para minha sorte, minha companheira também. Eu não tenho nada a esconder dela, mas seria realmente estranho, prum jantar romântico, ela nos encontrar ali. Contudo, por mais que Diana devesse ir embora, algo em mim implorava para que o tempo estagnasse e ela ficasse só mais um pouco. Mas se bem a conheço, sua partida está próxima. Ainda sou capaz de perceber sua inquietude, mesmo enquanto ela apenas respira e olha para minha taça.
– Quer me contar um segredo? - Arrisco.
– Um segredo?
– É. Algo além do que eu já saiba.
– Hum... Não sei. Não consigo pensar em nada em específico, agora. Me conte você.
– Eu?
A chegada do garçom me interrompe. Eu meio que pulo com o susto. Enquanto ele realiza a troca de taças, meus olhos encontram-se alinhados aos olhos de Diana. Ela nunca os desvia, tampouco eu.
– Algo para a moça? - Pergunta o garçom.
Meu celular começa a vibrar em cima da mesa, roubando a atenção de nós três ao mesmo tempo. Observo o visor da tela e friso os lábios, apreensivo. Em seguida, volto-me para Diana e ela está se levantando.
– Posso oferecê-la o drink da casa, senhorita?
– Não, obrigada, senhor. Já estou de saída - Diana se apressa. – E foi bom revê-lo, Luís.
Num movimento involuntário, acabo derrubando a taça em cima da mesa, molhando a toalha e a mim. Ela começa a caminhar em direção à saída e eu ainda não disse nada, sequer um “tchau”. Há somente uma coisa que eu gostaria de fazer naquele momento, mas não sei se seria o mais sensato. Diana me apareceu como um fantasma. Vê-la e ouvi-la foi como enfiar minha cabeça num poço de lembranças sem sequer tomar um fôlego. Devo, então, deixá-la sumir como um fantasma também?
– Ei, espere! - Eu a chamo. Deixo a mesa e caminho rapidamente pelo corredor de mesas, dando tempo de pegar a porta se fechando.
Ela olha para trás e diminui o passo até parar. Espero me aproximar e digo:
– Foi realmente bom revê-la, depois de tanto tempo.
Ela consente com a cabeça, mas não diz nada.
– Eu espero mesmo que você esteja bem do jeito como está, eu... - continuo.
Sua mão então descansa sobre meu rosto e tão serenamente ela o acaricia.
– Se eu tivesse que contar um segredo meu, algo além do que você já saiba, eu diria que um dia fui inteira: amei por inteiro, me dei por inteiro, senti por inteiro. Compartilhei por inteiro de uma vida. Mas hoje... Hoje eu sou metade, Zé, e não importa o tamanho do descontentamento alheio. Para cada um e qualquer um, sem restrição, sem absolvição, sem exceção.
E apenas foi...