as palavras dela o seguiram pelo tempo que demorou a voltar para o carro - o que era ? a outra sequer sabia ? o quão longe ia a podridão em que estava metida ? que pessoas como ele eram generosamente recompensadas por fazer problemas desaparecer, e não só os legais ? era advogado , sim, mas também tinha um pé fundo demais na operação qual esperava um dia poder deixar. estava fazendo tudo para aquilo , voltar ao seu lugar de direito . longe de vermes com alexei, e com o sangue do irmão escorrendo pelas mãos. só assim teria algo similar a paz .
enquanto ela se limpava , jiho maquinava todas as implicações do que estava prestes a sugerir: ❛ ⎯⎯⎯⎯ posso te ajudar. ⎯⎯⎯⎯ ❜ afirmou, com certeza , pois sabia que tinha os meios para a tirar dali . porque o faria ? talvez informações, talvez compaixão. afinal, o fixer entendia bem como era - poder ir para qualquer lugar menos para casa. ou pior, estar preso sem lugar algum para ir, um lar sendo apenas uma ideia estrangeira e distante. sentia-se assim quando era pequeno e vivia com dois problemas - porque não podiam ser chamados de pessoas - que venderiam a própria alma por uma nova dose. no quarto tinha um colchão fino no chão, e nada mais. não era a vida de regalias e luxo que misaki vivia mas vinham com o mesmo preço ; um custo alto pela liberdade. mais tarde quando o pai morreu , sentiu-se preso de novo, as próprias circunstâncias e predicamento , queria apenas chorar e se fazer tão pequeno que talvez desaparecesse, mas não teve tempo para seu luto ; logo mais teve que começar a fazer planos para alcançar o que lhe pertencia . o advogado de lucero apareceu morto , e o testamento foi perdido , tudo foi visto como um acidente divino apontando o filho mais velho e irresponsável como chefe das operações , o novo don vicente , mas a maioria sabia que aquela não era a vontade do antigo regente da máfia. jiho também sabia - e por isso ia achar o testamento do pai, nem que custasse sua vida. estava perto, cada vez mais perto. ❛ ⎯⎯⎯⎯ consigo te tirar de lá. ⎯⎯⎯⎯ ❜ esclareceu, tamborilando os dedos contra o volante. ❛ ⎯⎯⎯⎯ preciso de informações. as outras meninas me dizem o que sabem, mas nenhuma delas passa tanto tempo com alexei. ⎯⎯⎯⎯ ❜ se virou para a outra, recostando-se no assento de couro, como se estivesse preparando-se para uma longa conversa naquele estacionamento vazio.
❛ ⎯⎯⎯⎯ preciso saber de tudo que você sabe, o tempo todo. ⎯⎯⎯⎯ ❜ barganhou , o semblante ainda vazio de qualquer sentimento, sempre a máscara perfeita de indiferença que usava em negociações . ❛ ⎯⎯⎯⎯ quando eu sair, levo você comigo. ⎯⎯⎯⎯ ❜ ofereceu , sabendo que ela provavelmente teria dúvidas - não entendia, no final, exatamente quanto poder ele poderia ter. ❛ ⎯⎯⎯⎯ não vou te prender, depois que eu fizer o que tenho que fazer, você está livre para ir para qualquer lugar. recomeçar sua vida em segurança. ⎯⎯⎯⎯ ❜ suspirou, se voltando ao para brisas , os dedos ainda apertados ao redor do volante - não era fácil dizer onde estava a lealdade de misa naquele ponto, mas ele imaginava que não era fiel a um homem capaz de a deixar sangrando no chão de uma boate e entregar sua segurança para outro que ela mal conhecia.
ㅤㅤㅤa oferta de ajuda, inicialmente, foi recebida como uma piada por misaki. até soltou uma risada nasalada, como se tivesse ouvido algo levemente engraçado, mas não o suficiente para fazê-la rir. a liberdade dela não era uma brincadeira. contudo, quando terminou de limpar o sangue, pôde reparar melhor na postura de jiho. os dedos no volante, como se estivesse ansioso, esperando algo dela; a expressão decidida e, ao mesmo tempo, tão leve e suave. ele tinha um rosto suave.
ㅤㅤㅤrespirando fundo, misaki se deixou pensar na situação e até sentir uma leve pontada do coração. ilusão. estava se iludindo com aquela possibilidade, podia perceber. no entanto, mesmo percebendo, não conseguia deixar de querer. sentia os olhos lacrimejarem e aquilo parecia doer mais do que um tapa. mais do que ser jogada no chão. mais do que qualquer surra que já tinha enfrentado. “ e o que você ganha com isso? por que arriscaria tudo para me ajudar? ”
ㅤㅤㅤela precisava de algum senso de segurança antes de confiar em jiho. uma coisa era aceitar uma carona dele e que brincasse de príncipe encantado salvando a princesa por uma noite. outra coisa era aceitar aquele plano e, sem querer, acabar caindo em uma armadilha. “ você pode estar tramando algo com ele. combinando alguma coisa pra provar minha lealdade e depois... depois... ” não conseguiu completar a trilha de pensamento, ficando irritada com as lágrimas que começaram a cair dos olhos. mesmo tentando impedir, elas tinham vida própria. “ eu não sei em quem confiar. ”
ㅤㅤㅤquando conseguiu controlar as próprias lágrimas, virou-se para jiho novamente, como se não tivesse mostrado tanta vulnerabilidade para ele. “ vamos para minha casa. ” pediu. misaki esperava que, ao chegar em casa, conseguiriam conversar sobre aquilo com mais liberdade. ela estaria em vantagem lá.









