#Post4: Ciberativismo Negro: a potência de contra narrativas ajudando a contrariar as estatísticas
Nátaly Neri | Canal Afros e Afins
Dos anos 90 para cá, pudemos observar o surgimento de novos expoentes do Movimento Negro através da Internet. Nátaly Neri, YouTuber do canal Afros e Afins, Monique Evelle, criadora do Desabafo Social, Rosa Luz, YouTuber e artista multidisciplinar e Caio César, YouTuber e professor pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, são apenas alguns dos nomes que vem em mente quando falamos sobre ciberativismo. No texto “Redes Sociais na Internet”, Raquel Recuero, jornalista, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pelotas ressalta que uma das principais mudanças promovidas pela Internet foi a possibilidade de expressão e sociabilização através das ferramentas de comunicação mediada pelo computador.
Em nosso primeiro post, pontuamos que apesar do ciberativismo ser um assunto intrinsecamente ligado à Internet, quando ocorre somente nela, qualquer ativismo perde o seu sentido maior, tornando-se um possível ativismo de sofá. Em se tratando de Ciberativismo negro é possível observar este debate inclusive entre antigas e novas gerações de pessoas negras. No texto “Movimento Negro Virtual de autoria do “Atabaque Blog”, há uma crítica à nova geração de militantes negros sem deixar deixar de ressaltar a importância da nova movimentação social na Internet:
“O movimento negro virtual é uma outra maneira de se fazer política e que sem dúvida, não substitui outras formas tradicionais de ação política e social. Os grupos de discussão ou 'listas' são espaços públicos virtuais onde se podem desenvolver ações políticas efetivas, tais como campanhas de denúncias, mobilizações para ações reais e virtuais, circulação de manifestos entre outros tipos de ações focais por meio eletrônico tais como ataques hacker e cracker.”
O espaço público virtual tem um caráter potencialmente democrático por estar aberto a diferentes formas de manifestações. Henry Jenkins, estudioso dos meios de comunicação, em sua obra “Cultura da Convergência”, cita a expressão “inteligência coletiva”, conceito elaborado pelo ciberteórico francês Piérre Levy. Jenkins diz que ninguém sabe de tudo, mas cada um sabe algo e podemos juntar as peças, “se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades”. Além disso, afirma que a inteligência coletiva pode ser vista como “uma fonte alternativa de poder midiático”, assim compreendemos que o ciberativismo negro tem ampliando vozes de grupos negros, organizados através da rede de computadores, pautando temas pouco explorados nas mídias tradicionais.
Como não somente existem marcadores de raça na vida da população negra, questões como gênero, classe e outros aparecem dentro deste tipo de ciberativismo. São subdivisões referentes à lutas específicas, como de mulheres negras, LGBTQ+, entre outros. Traremos aqui esses dois exemplos que nos servem de substância para compreender a potência de algumas dessas especificidades.
Ciberativismo por mulheres negras
Marcha do Empoderamento Crespo em Salvador | Foto: Marcelo Ferrão
Ciberfeminismo foi um termo usado na década de 90 pela teórica cultural britânica Sadie Plant. As ciberfeministas eram ativistas que acreditavam que a tecnologia seria uma importante ferramenta para desestruturar as divisões de sexo e gênero. Assim como surgiu o feminismo negro, reivindicando as questões de raça não abordadas dentro do movimento feminista, dentro do ciberfeminismo existe a vertente de mulheres negras. São lutas que surgem de um contexto social diferente, e que se desenrolam de formas distintas, pois não partimos do mesmo lugar ao falar sobre mulheres brancas e mulheres negras. Essas iniciativas, além de fomentar as manifestações no ambiente virtual, desenvolvem estratégias de representatividade no mundo offline.
A “Criola”, por exemplo, é uma organização que tem mais de 25 anos de trajetória. Dentre seus objetivos, estão criar e aplicar novas tecnologias para a luta política de grupos de mulheres negras e mobilizar ações políticas sobre setores da sociedade: governos e demais instâncias públicas. Em 2017, em parceria com a Oxfam Brasil, fundou a Rede Nacional de Ciberativistas em Defesa das Mulheres Negras. A Rede tem por objetivo visibilizar denúncias de violação dos direitos, de modo que elas resultem em revisão ou mudanças em políticas públicas nacionais. A organização ainda atua em áreas como saúde, memória, arte e empreendedorismo.
Ciberativismo LGBTQ+ negro
Coletivo AfroBapho | Foto: Gabriel Oliveira
Outro tipo de ciberativismo negro é pautado na luta pela vida da população LGBTQ+. Tratam-se de grupos LGBTs que pensam sobre a questão racial. Nesse cenário, a especificidade dentro do ciberativismo negro, busca promover uma ampla discussão sobre a posição em que essas pessoas ocupam na sociedade.
O coletivo AfroBapho é um grupo formado por jovens negros e LGBTs, que utilizam as artes integradas como forma de mobilização social, trabalhando a intersecção de raça, gêneros e sexualidades. Em fevereiro de 2016, inspirados por Beyoncé e o clipe “Formation”, o grupo realizou um ensaio para protestar contra o genocídio da população negra no Brasil. O nome é uma tradução do conhecido movimento americano “Black Lives Matter”, ou “Vidas Negras Importam”.
Contrariando as estatísticas
Em um relatório publicado em 2016 por Rita Izsák, relatora especial da Organização das Nações Unidas (ONU), após uma série de apurações sobre a situação social do negro no Brasil, Izsák afirmou que mesmo com uma série de políticas públicas e ações voltadas para os afrodescendentes, a desigualdade continua a afetar de modo desproporcional a vida dessa população. Ainda no mesmo relatório, a organização traz à tona a informação de que 70,8% dos 16,2 milhões de brasileiros vivem em extrema pobreza.
Considerando portanto que todos os índices de vulnerabilidade social estão diretamente associados à população negra desde o período da escravidão, podemos afirmar que este tipo de ciberativismo compõe uma série de contra narrativas que vêm sendo formuladas através da Internet, Redes Sociais e da Rede de Computadores. É o que Raquel Recuero afirma quando diz que o aspecto social do ciberespaço nos permite observar a formação de novas estruturas, onde os atores sociais se conectam viabilizando rupturas ao padrão estabelecido historicamente a essa camada da população.