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@cora-ssao
@ Green House | Breakfast
Os abraços de Cora sempre o surpreendiam, tentou da maneira mais educada o possível se desvencilhar, com medo de acabar machucando a garota, mas era difícil levando em consideração a forma que ela o abraçou - Sai - disse como se estivesse afastando um cachorro e puxou o braço. Se sentiu mal sendo ignorante com a garota de olhos azuis mas simplesmente que só queria o bem de todos mas não conseguia se controlar, ela o deixava nervoso com toda aquela necessidade de contato, limites eram feitos para ser respeitados e Roo não espera o tipo de pessoa que sai distribuindo abraços ou falando palavras doces, nunca fora, e quem diabos a que garota que veio do nada pensava que era pra tentar ultrapassar aquela barreira? isso não estava certo pra Roo.
Riu, talvez pelo efeito da erva, quando todos os demais ficaram falando coisas sobre ele fumar maconha e coisas do tipo, deu um suspiro pesada e os olhou - Claro que eu já fiz esse tipo de coisas seus babacas, a única diferença é que diferente de vocês eu não preciso disso pra viver - Deu uma piscada e se deitou na grama, sempre fora muito fraco para qualquer tipo de droga e já estava sentindo seu corpo tão leve que riu daquela sensação. Odiava se sentir fraco mas naquele momento estava tentando ignorar qualquer tipo de pensamento negativo a respeito do seu “ar", queria aproveitar o estado de não sobriedade. Kásia falou para eles jogarem verdade e desafio, não se lembrava quando fora a última vez que brincara disso, mas com certeza fora antes do irmão Adoecer, mordeu o lábio pensando, seus amigos maconheiros provavelmente iriam sacaneá-lo, mas então riu novamente, Era Roo Jaffe e sacanear era com ele mesmo - Eu concordo, com o desafio é claro - se sentou e voltou a fitar os demais.
A paz interior era algo muito presente no dia-a-dia de Cora. Praticamente nada a estressava, vivia sua vida a base de energias positivas que podiam vir de qualquer lugar, desde que afastassem o negativismo de perto dela. Lagrimas? Não se lembrava da ultima vez que as mesmas caíram de seus olhos. Talvez na infância, quando ainda não tinha uma personalidade fixa, mas desde então, não chorava, nem de tristeza, muito menos de alegria. Tinha medo do efeito que aquilo podia causar, más línguas diziam que era pior do que uma overdose, mas ela custava a acreditar. Preferia pensar que estava satisfeita com sua vida sem choros e sem dramas. Raiva? Ah sim, ela se lembrava da ultima vez que o sentimento tomara conta de seu corpo, justamente no dia que viu seu tão amado jardim devastado em sua própria casa. Era um sentimento perigoso, principalmente para alguém que não saia de seu ponto de paz, quando a menina ficava com raiva, nada no mundo parecia pacifico, era como se todas as energias que costumava ver ficassem invisíveis e ela não respondesse por si. Era irreconhecível.
Aquele momento naquele jardim parecia tão pacifico, até que o silencio foi cortado por seus amigos falando algo sobre um jogo de verdade ou consequência. Seus colegas de escola sempre jogavam aquilo, e ela sempre preferia ficar de fora, achava inútil ver todas as suas amigas desperdiçando seus primeiros beijos para um jogo idiota determinado pela probabilidade de uma garrafa cair virada para você, ou simplesmente alguém chamar seu nome e a desafiar a fazer algo inconseqüente que lhe traria más lembranças anos depois. Cora preferiu guardar seu primeiro beijo para alguém que valesse a pena, o que de certa forma tornou tudo muito tardio, mas não era algo que se arrependesse, assim como muitas outras de suas "primeiras vezes". Sorriu, já se acostumando com a idéia de que talvez conseguisse algum arrependimento não participando da brincadeira idiota dos amigos, até que um simples movimento conseguiu fazer o que muitas coisas não conseguiam fazer antes: tirá-la do sério.
Assim que sentiu o braço de Roo, a quem se encontrava abraçada, se mover e as palavras rudes saírem de sua boca, algo acendeu dentro da menina assim como da última vez que aquilo acontecera. Voltou a sua postura natural, respirando com certa dificuldade e constantemente olhando para os lados e para cima. Esticou o braço para um dos lados, procurando cegamente pelo resto do baseado que estavam dividindo. Dando uma tragada exagerada quando conseguiu o mesmo entre seus dedos. Se levantou em um impulso com uma velocidade que nem ela mesmo sabia que tinha. -Wow, ótima ideia Kas, verdade ou desafio.- Começou a andar em círculos pelo lugar, fumando o cigarro o mais rápido que podia. -Vamos fazer assim: eu começo! Que tal?- Sua voz agora se encontrava aguda, e todas as cores que via no céu e nas plantas agora não passavam de lembranças, via tudo como realmente era, frio. -Deixa eu pensar... Roo! Eu tenho um desafio pra você!- O tom de sua voz agora era alto, como não lembrava de usar fazia bastante tempo. Cruzou os braços e se posicionou na frente do rapaz. - Eu te desafio a não ser um completo idiota por um dia sequer. Sabe, deve ser por isso que você não tem amigos, depende de três completos desconhecidos para tirar toda a solidão de dentro da sua mente conturbada. Frigido. É isso que você é, frigido, deve ser por isso que todo mundo manda você ir fazer sexo o tempo todo e você nunca vai, você é uma porra de um frigido, babaca, idiota.- Sentia seu rosto quente depois daquela explosão. Aquilo nunca tinha acontecido antes, mas ignorância era algo que a tirava de seu padrão normal. Jogou o cigarro com força no chão e caminhou com passos fortes para dentro da casa novamente, correndo para seu quarto e batendo a porta, ligando na mesma hora sua pequena caixa de som, talvez aquelas músicas pudessem a acalmar pelo menos um pouco. Se sentou no chão, encostada na base de sua cama, abraçando os joelhos. Suas mãos afastaram o cabelo de seu rosto, depois encostando em seus ouvidos, enquanto tentava respirar fundo. Nem ela sabia porque se importou tanto com aquilo, por mais que fosse um dos piores atos de insensibilidade que presenciou na vida, nada nunca havia feito ela gritar ou algo parecido com o que acabara de acontecer. Fechou os olhos, apoiando a cabeça em sua perna, respirando fundo e liberando as energias ruins que possam ter tomado conta de seu corpo naquela hora.
"Longe de toda a negatividade a onda boa se propaga no ar"
@ Green House | Breakfast
Deu uma risada, os mais novos debochavam de seu jeito na maior cara de pau e nem se importavam em ficar vermelhos, era divertido para Roo também, ter com quem brigar e receber deboches como resposta. Cora começou a falar qualquer coisa sobre aquela energia fazer mal para a alma e essas baboseiras, antes que pudesse responder a garota saíra em direção o jardim e Roo deixou as palavras morrerem. Não por tempo o suficiente.
Logo Eduardo, o Brasileiro começou a falar sobre ovos e sobre o fato dele ter que comprar mais e para piorar deixou a frigideira em sua mão - Rapaz, vá se foder. - disse, deu uma tragada em seu cigarro colocou a frigideira de lado, não iria comer já que o cigarro tirava o seu apetite, já os outros 3 em compensação em breve estariam com tanta fome por conta da erva que nem se importariam em comer os ovos frios. Se levantou da bancada e foi em direção a cafeteira, se serviu uma caneca e escutou as palavras de Kasia, olhou com certo deboche para ela mas achou engraçado, com certeza antes deles aquela casa em ambiente muito mais obscuro, completamente assombrado pelo fantasma do irmão e pelas sua palavras. Mas o que parecia graça logo se transformou em ofensa como só a sincera Kasia conseguia fazer.
A garota, assim como Cora saiu de perto antes do seu direito de resposta, Roo suspirou e saiu em encontro dos demais. Não se sentou como eles e com a caneca em mão fez questão de responder Kasia que tragava o baseado - Não que seja do seu interesse, mas não sou virgem - Murmurou com indiferença, e se pois a pensar no gelo do seu coração, será que um dia ele derreteria, será que um dia conheceria todos esses sentimentos que sempre ouvira falar? Suspirou pesadamente e cedeu, se sentou perto deles. Pegou o beck da mão de Kasia e tragou - Nossa, a quanto tempo não faço isso. - a última vez que fumara maconha havia sido um pouco antes do irmão morrer, o mais velho chegou em casa certa porção e quando questionado por Roo o porquê daquilo ele respondeu “dizem que amenizam o efeito da quimioterapia" e depois que o baseado estava pronto praticamente forçou o moreno a fumar em sua companhia. A lembrança fez Roo de repente se sentir mal e passou logo a droga para Cora, odiava quando a tristeza o atacava de forma tão súbita.
Parecia que suas preces haviam sido escutadas quando, em pouco tempo, Eduardo se juntou a ela no jardim, assim que o menino se sentou, lhe passou o cigarro e se levantou, envolvendo o brasileiro com um de seus braços, tomando novamente o baseado de suas mãos com um sorriso e encarando o ar enquanto tentava soltar a fumaça em círculos. O ambiente do jardim sempre ficava agradável na companhia de alguém, mesmo se não falasse nada, energias conjuntas sempre eram melhores do que solitárias. Cora achava que a maconha tinha algum efeito mágico sobre ela. Logo depois que o efeito surgia, podia de fato ver as cores as pessoas, uma espécie de paz indeterminada, sempre presente uma mistura de cores que as pessoas e objetos exalavam a cada movimento, e não tinha nada que ela amasse mais do que aquela sensação.
Com o passar dos minutos, Kasia chegou, se sentando ao lado de Eduardo. A italiana de cabelos amarrados era com certeza a pessoa mais direta que ela conhecia, mas no fundo era uma ótima pessoa, apenas incompreendida. Ela enxergava suas próprias cores, começavam um pouco agitadas, mas seu núcleo era calmo. Cora sorria sozinha para as cores que via, desde as mais claras até as mais escuras vindas de trás da cerca limite do jardim, o que a fez tirar o sorriso do rosto por um minuto, imaginando o quanto tudo podia ser tão cinza do lado de fora daquela casa aconchegante, como o tempo passava mais devagar do lado de fora, cheio de preocupações, horários, deveres e segredos. Mesmo sabendo que eram inevitáveis, ela não podia deixar de pensar em quantos segredos existiam no mundo, o que lhe dava uma sensação de hipocrisia, já que nos poucos meses que esteve ali, não teve muitas oportunidades de compartilhar segredos com seus amigos novos, mas queria que isso acontecesse mais cedo ou mais tarde. Era bom saber que as pessoas mais próximas a você soubessem seus segredos e não lhe julgassem por isso. Ela sempre odiou julgamentos.
Quando saiu de sua reunião pessoal em sua mente, percebeu que Roo se encontrava sentado ao seu lado, e por essa ela não esperava. Até ele fazia o uso do cigarro compartilhado, coisa que nunca havia visto o rapaz fazendo. Tirou uma mecha do cabelo escuro de seu rosto, dando espaço para seus olhos apreciarem a calma daquele momento, o silencio, por mais que não completo, já que não podiam evitar o barulho dos carros na rua, mas por enquanto, naquele mundo de ervas medicinais e plantas cheirosas, o silencio era perfeito. Ela observou Roo, sempre com sua pose rabugenta e durona, agora se entregando a um vicio de adolescentes, coisa que nunca esperava vê-lo fazendo, já que a única coisa que o ouvia falar sobre os cigarros eram meras reclamações. Cora então abraçou impulsivamente o braço que apoiava o rapaz no chão, apoiando sua cabeça em seu ombro, como se sentisse algo de pesado em sua áurea, enquanto encarava os pés de Kasia, reparando no quanto eles eram bonitos, e rindo para si mesma, tentando aproveitar o momento antes que algum som saísse da boca de qualquer um ali.
@ Green House | Breakfast
Fora surpreendido por um beijo bochecha de Cora, a garota era realmente afetuosa e fazia questão de demonstrar isso a todo momento, chegava ser engraçado pessoas tão distintas morarem sobre o mesmo teto. Ele a pessoa mais escura em quilômetros, ela, a garota que só faltava flutuar de tão tranquila. Por mais que o gesto tivesse o acalmado por segundos não podia perder sua pose, afinal, ele era Roo Jaffe e se não fosse o seu mal-humor com certeza aquela casa seria o lugar mais zen do universo, a ideia por alguma razão o deixava incomodado. - Bom dia - respondeu a garota sem entusiasmo, não havia mal em desejar um bom dia apesar de aquela manhã para o rapaz já podia ser considerada perdida, não que fosse admitir mas queria que o dia valesse a pena. Deu uma pequena gargalhada quando a garota de olhos claros falou de amor, só de ouvir aquela palavra seu corpo estremecia, jamais se permitiria amar alguém, não amaria para perder de novo, todo seu amor havia ido com sua família e não faria esforço para mudar. A ideia de ser amado é sempre reconfortante, mas para Roo era medonha, e se de repente eles se esforçassem para que ele os amasse? eles iriam embora cedo ou tarde, voltou em si e olhou feio para a garota - Amor, amor é uma ova vocês não querem perder o meu teto isso sim. - Falou tentando se o filho da puta de sempre, mas teve se esforçar para parecer natural.
Foi então que Eduardo falou fazendo Roo colocar a mão no rosto, Chamar a atenção? quem diabos o garoto brasileiro pensava que era para o acusar de querer chamar a atenção? Respirou fundo, organizou as palavras e prosseguiu - Chamar a atenção? vocês que começam a fazer um barulho desgraçado quando eu só queria ter ficado na minha cama DORMINDO - As palavras de Kasia o deixaram ainda mais estressado, saiu rapidamente e foi na sala pegar seu maço de cigarros, no caminho de volta acendeu a droga a tragando. Como um velho rabugento voltou como se o diálogo nunca tivesse sido interrompido - Querida, eu sei que é sexta-feira e como eu acabei de falar, eu ia aproveitar muito estando na minha cama, dormindo, mas vocês começaram todo esse auê - Mas não podia negar que precisava de alguém, a quanto tempo não ficava com alguém? Sempre que se envolvia não passava de uma noite, era difícil conviver com o gênio do rapaz, mas não mudaria. Não precisava de ninguém e se julgava atraente o suficiente para conseguir sexo casual se quisesse. Se sentou em cima da bancada e pegou uma maçã na fruteira - Por quê os bonitos não vão para a universidade ou se vão estão atrasadíssimos? - Perguntou tentando ser casual e mudar a energia do seu ataque de antes.
Não pode deixar de rir do que os outros falavam, parecia que o senso de humor de seus amigos se elevava na manhã, ao contrário de Roo, sempre emburrado. A energia daquela cozinha estava visivelmente em confronto, o dono da casa sempre teve espíritos pesados ao seu redor, talvez esse fosse o motivo pelo qual seus destinos haviam se cruzado, todos vieram de tão longe, provavelmente para trazer um tipo de harmonia caótica para a vida de um homem que precisava se livrar dos demônios do passado. Não que eles já tivessem falado sobre isso, por mais incrível que parecesse, eles não conversavam muito, pelo menos não ela, estava mais acostumada a conversar com Kasia e Eduardo, já que além de sua energia ser um tanto pesado, a áurea do rapaz sempre lhe pareceu muito fechada, assim como ele. A única coisa que lhe reconfortava era que desde que se mudara para a casa, via suas cores ficarem cada vez mais claras, mesmo que ele não admitisse isso.
Se concentrou um pouco em seu chá, logo parando para prestar atenção no que poderiam estar falando, e dando de ombros para as coisas que ouvia até a hora em que sua caneca estava devidamente vazia. Jogou fora o saquinho contendo camomila, o sabor de seu chá, e depositou a louça suja no aparelho que a lavaria para ela, apesar de não confiar nele. Cora nunca confiou nos eletrônicos que substituíam as tarefas domesticas, como lava-louças e microondas, mas assim como todo ser humano do século XXI, era dependente deles querendo ou não, talvez por falta de tempo, ou talvez por ser uma de suas fraquezas. -Ah, eu não vou na universidade hoje.- Caminhou em direção ao portal da cozinha, estalando os ossos do pescoço e se apoiando na parede. -Toda vez que temos provas o ar fica tão...pesado. Como quando você briga com a gente. Isso não faz bem para a sua alma Roo, nem para a minha, ou a do Ed, ou a da Kas. - Fechou os olhos, inalando o cheiro do cigarro, provavelmente ainda aceso na mão de um dos presentes ali. Caminhou até Eduardo, retirando o baseado recém-aceso de sua mão, somente o segurando. -Não é bom começar o dia com essa áurea pesada sabiam?- Deu uma tragada no cigarro, soltando a fumaça devagar. -Eu vou estar me recuperando dessa chuva de negatividade no jardim, sugiro que vocês me acompanhem, amo ver vocês se purificando!- Riu sozinha imaginando o quanto aquela fala podia ser interpretada como alguém saindo de uma igreja, enquanto caminhava até o jardim da casa.
Era impressionante como seus cuidados fizeram o jardim, antes abandonado e mal cuidado, logo florescer, as plantas estavam coloridas e belas, pássaros pousavam na única arvore do local, e aquilo a fazia muitíssimo feliz. Se ajoelhou em frente a um arbusto de flores amareladas, passando seus dedos por suas pétalas e sentindo seu aroma pela manhã, doce misturado com orvalho, um tanto refrescante. Foi pegando todas as flores que haviam despencado dos arbustos e as posicionando com cuidado em seu cabelo, tentando criar uma tiara com alguns grampos que cismavam em ficar presos na alça de seu sutiã. Encostou o rosto na casca áspera da arvore, em um gesto de bom dia, a examinando com a ponta dos dedos, satisfeita ao ver que suas plantas estavam saudáveis e felizes. Poucos eram os que acreditavam que ela conversava com a natureza, nem ela mesma acreditava, mas sabia que conseguia sentir uma energia maravilhosa quando chegava perto de toda a naturalidade. Podia ouvir uma harpa tocando em sua mente, Cora sempre adorou harpas, eram seu instrumento favorito e sempre a reconfortava quando tinha alguma angústia. Se deitou na grama, espalhando sua grande saia em volta de seu corpo, enquanto dava algumas tragadas no beck em suas mãos e ria para o céu, em um ritual calmo e pacifico de bom dia, esperando com todas as suas forças que seus amigos se juntassem a ela nesse dia magnífico.
@ Green House | Breakfast
O despertador tocou, Roo deu um tapa no aparelho e se virou na cama, ficaria deitado até seu corpo começar a reclamar, seu dia estava completamente livre e o conforto das suas cobertas era tudo que o rapaz podia desejar naquele momento. Fechou os olhos e se aconchegou, começava a adormecer novamente quando começou escutar baralhos. Passos pra cá, risadas pra lá, barulhos de louça e tudo mais que era possível. Suspirou pesado, será que aqueles estudantes não podiam ser mais silenciosos? eles não moravam sozinhos naquela casa, havia um morador que ainda estava dormindo, será que eles não haviam sido educados? não duvidava da hipótese.
Desistiu de dormir quando percebeu que seus colegas de casa não iriam colaborar mesmo, o tom de voz estava mais alto e se ficasse na cama tentando dormir acabaria conseguindo apenas uma dor de cabeça das bravas. Se levantou da cama, coçou os olhos e foi direto para o banheiro do seu quarto, agradeceu por ter uma suíte e não precisar dividir o banheiro com os demais. Se questionou onde estava com a cabeça quando decidiu receber estudantes de intercâmbio, ou pior, abrigar uma louca por plantas que apareceu do nado em seu jardim? Chegou a conclusão que tinha perdido mesmo a cabeça depois da morte do irmão, ou que deveria parar de ouvir seu psicólogo. Se olhou no espelho, escovou os dentes e saiu da suíte. Do lado de fora 2 cheiros tomaram seu nariz imediatamente, primeiro: tinha alguma coisa queimando, segundo: eles já estavam fumando maconha. Deu um pigarreio e gritou do andar de cima mesmo - Seus maconheiros, vocês sabem que horas são? eu tava dormindo! - Eles estavam chapados e provavelmente não se importariam, Chegou na cozinha e os olhou da forma mais julgadora que podia, com um tom sarcástico continuou - E outra, vocês estão tão preocupados em queimar a verdinha de vocês que tem alguma outra coisa queimando nessa porra de cozinha! - Colocou a mão na cabeça para exemplificar o quão grave ele achava aquela situação, deu uma olhada em volta e achou o que queimava, eles haviam esquecido pão na torradeira. Com a maior cara de desaprovação do mundo tirou a torrada tostada e jogou direto no lixo. - Nem pra fazer torrada vocês servem, não sei como conseguiram entrar na faculdade.
Se havia uma coisa que Cora podia afirmar, era que os melhores dias de sua vida estavam acontecendo dentro da casa onde morava, mesmo com estudantes estrangeiros, carnívoros e barulhentos; e um proprietário rabugento e irônico, ela nunca se sentiu mais em casa do que se sentia naquele lugar. Era manhã de sexta feira, o dia em que todos ficavam felizes, até a energia da casa mudava de cor, passava de um azul melancólico dos cansativos dias de estudos e trabalhos para um laranja animado cheio da alegria que o fim de semana proporcionava aos moradores, ela pessoalmente nunca entendeu porque todos ficavam tão felizes com o final de semana, era talvez o único fim que faria qualquer um feliz. Isso a fazia pensar muito, já que não gostava muito de coisas que acabavam, e já que a semana acaba no sábado, não via motivos para o dia de desânimo ser o domingo ou a segunda, mas isso nunca foi motivo para ela não aproveitar o tempo que não tinha aulas.
Resolveu se dar um dia de folga para relaxar um pouco, já que no dia anterior achou que todos na universidade estavam muito carregados, cheios de energia negativa, e talvez pudessem transmitir isso a ela, e como o único lugar que poderia a purificar novamente dentro de casa era seu quarto, não se preocupou em atender as aulas daquele dia. Acordou junto com seus amigos intercambistas, que dormiam no quarto ao lado, enquanto Cora preferia dormir em seu pequeno e aconchegante quarto, sem desvantagens, já que acordava com o mesmo despertador e dividiam o mesmo banheiro, então tudo era muito pacifico em seu ponto de vista. Levantou da cama com calma, esticando os músculos de seus braços e pernas, logo se desvencilhando dos lençóis. Tinha uma mania estranha de dormir apenas usando sua roupa intima, mas não se incomodava muito com o que os outros pensavam disso, o corpo humano era algo tão natural para ela que qualquer um podia a ver trocando de roupa, essa era a menor de suas preocupações, não que tivesse muitas; caminhou até seu pequeno gaveteiro, tirando de lá uma blusa branca sem mangas e um tanto larga que possuía a um tempo considerável, e uma saia comprida que comprou um dia de uma senhora na beira de uma estrada, passou as mãos pelo cabelo comprido, sua maior sorte era que seu cabelo não fazia muitos nós, ao contrario de sua mente, que sempre era perturbada pelos nós cotidianos.
Pegou um pano de uma das gavetas e o estendeu no chão do quarto, acendendo um incenso leve e harmônico, botando seu mantra favorito para tocar na pequena caixa de som ao seu lado. Ao se sentar no chão, ficou um tempo encarando suas tornozeleiras, tinham muitas enroladas em seu tornozelo fino, linhas, conchas, pedras, assim como em seus pulsos, cada uma com uma lembrança diferente, todas muito boas e reconfortantes. Passou os dedos na mais nova delas, com miçangas verdes e amarelas, feita com a ajuda de Eduardo, seu colega brasileiro, que dormia no quarto ao lado, mas logo se lembrou de voltar ao seu processo de meditação. Podia ficar ali em transe o dia inteiro, até que ouviu barulhos vindo da cozinha, reproduzindo um som mais alto do que o da sua caixinha de música, e a forçando a abrir os olhos de volta para o mundo real. Se levantou, fechando a caixa de música e apagando o incenso, largando o pano em cima de sua cama e caminhando lentamente em direção a cozinha. Seus colegas estavam tentando fazer um café da manhã enquanto desfrutavam da companhia da boa e velha erva verde, era a favorita de Cora, mas não pela manha. Ela preferia chá. Voltou para a sala, onde se encontravam algumas de suas plantas, desejou bom dia a cada uma delas com um beijo em suas folhas, mas logo sendo interrompida novamente pelas risadas de seus amigos. Caminhou novamente até a cozinha, dessa vez sendo notada pelos mesmos. -Bom dia minhas flores!- Se dirigiu a Kasia, lhe dando um beijo na bochecha, e repetindo o gesto com Eduardo. Mal teve tempo de virar para trás quando se deparou com uma voz estressada, carregada de energia negativa. Não tirou o sorriso blasé do rosto enquanto ouvia o rapaz barbudo dar uma bronca nos três, por mais que se aplicasse mais aos outros dois, e assim que o mesmo terminou de falar, ainda com o rosto vermelho, fez questão de repetir o gesto com ele, caminhou cabisbaixa em sua direção, também lhe dando um beijo na bochecha -Bom dia pra você também Zangado.- Aproveitou a ocasião para pegar uma xícara e a encher com água, logo a botando no microondas enquanto escolhia um sabor de chá. -Não fique estressado Roo, você sabe que a gente ama você- Falou, dando um beijo na outra bochecha do rapaz, sentindo um pouco de cócegas ao sentir a pele em contato com a barba engraçada que insistia em manter. Ouviu o som do aparelho, pegando sua água e a misturando com o saco de chá, se sentando a pequena mesa da cozinha, sorrindo para os demais ali.