Em todos os feriados de Chuseok (ou qualquer outro feriado, na verdade) na casa dos Park não dava outra coisa além de 궁중떡볶이 (tteokbokki da corte real). Era a comida preferida da família da sua mãe, que até mesmo tinha uma receita a qual era aperfeiçoada desde meados da era Joseon.
Não era a primeira vez que passava um feriado familiar sozinho, mas naquele ano, logo naquele, tinha finalmente recordado (e sentido falta) do prato suculento. Foi com esse pretexto que, naquela manhã de Chuseok, enfiou-se em seu porão, decidido a encontrar o “livrinho de receitas” de sua mãe em uma das poucas caixas que tinha trazido da Coreia.
Não foi tão difícil assim. Logo estava com o caderninho amarelo grosso e empoeirado, em mãos. Folheou-o com cuidado, passando seus olhos pela caligrafia da mãe. Conseguia sentir a energia dela ali, palpar seu corpo e sentir o cheirinho de canela que ela sempre tinha.
Foi quando algo caiu de dentro do livro. Olhou para o chão e se arrepiou. Conhecia aquele envoltório de veludo, aquela fitinha… Era o baralho especial de sua mãe. O que procurara por tanto tempo, mas nunca conseguira encontrá-lo.
Com os olhos cheios d’água, desatou o nó do pacotinho e o abriu, deparando-se com o 21º arcano maior do tarô: O Mundo.
— É só uma tiragem, filho — a mulher completamente pálida, com aparência frágil, disse.
Ela usava um lenço na cabeça, escondendo o resto dos fios que tinha na cabeça e que se recusava a raspar. “Até que o último caia, eu vou ficar assim e está tudo bem” – era o que ele ouvia se ele falasse qualquer coisa sobre o assunto.
— Eu não acredito nessas coisas mãe. A senhora sabe disso e, agora, quero que foque em melhorar — um Hyuk muito mais jovem, de cabelos castanhos escuros, e olhar cansado disse.
— Por favor, 꼼꼼 (kkomkkom)... Eu estou sentindo que você precisa de uma leitura, meu filho.
Não pôde dizer não para aquilo. Era o seu apelido carinhoso desde que estava na barriga de sua mãe, a arma secreta que a Sra. Lee sempre usava quando queria algo. E ela sempre conseguia.
Segundo depois ela estava desatando o nó do envoltório de veludo e embaralhando as 22 cartas de seu baralho mais antigo, o que sempre levava consigo para onde der e vier.
— A senhora não vai perguntar sobre o que eu quero saber?
— Eu sei o que você precisa saber — ela grunhiu baixo e ele suspirou. Ela sempre sabia. — Corte e escolha — pediu, colocando o montinho sobre a mesa da maca do hospital.
Mais um suspiro foi dado e ele cortou, empurrando o montinho direito para ela. A taróloga pediu, então, para que ele escolhesse três entre as diversas cartas que abria, viradas para baixo, na mesa. Com o trio escolhido, ela começou. Virou uma: o Mundo. Outra: o Bobo. A última: o Hierofante.
— Depois de todos esses anos, Park Hyukjae… Eu sei que você sabe o que significa! — a mãe falou em tom de bronca e desapontamento.
— Como que eu vou saber o que a senhora perguntou ou o método que está usando? — cerrou os olhos de forma teimosa e recebeu aquele olhar, o que lhe dava calafrios. — Tá bom… Deixa eu ver… O Mundo… Acho que fala sobre um caminho… Uma jornada com destino a algo bom…
— O caminho para seu próprio paraíso. — ela o completou, olhando para o filho com um certo brilho no olhar. — Isso é algo sobre o qual você tem controle. Você sabe o que quer, onde quer chegar e isso é o que te levará longe.
— Mas o Bobo é ruim — apontou para a carta seguinte e recebeu quase que automaticamente um tapa de sua mãe.
—Não existe carta boa ou carta ruim. Você sabe disso. E o bobo tem suas qualidades… Veja como ele está feliz, olhando para a flor…
— E saltando pelo precipício. — revirou os olhos, recebendo em seguida mais uma fuzilada com o olhar de sua mãe.
— Isso é algo sobre o qual você não tem controle. Você é o bobo. — ela falou como se aquilo fosse mais transparente que as águas de uma nascente.
— Eu não sou bobo mãe… — o rapaz falou com certa manha, cruzando os braços e ela riu.
— É sim. Todos nós somos bobos em algum momento de sua vida. Era bom se fôssemos em todos os momentos. Mas você é bobo. É idealista, inocente, entusiasmado, inexperiente, quer embarcar numa jornada emocionante e tem uma curiosidade… que eu me pergunto até de quem você puxou — o rapaz continuou fazendo careta, um tanto inconformado com aquilo, apesar de se identificar com cada uma das palavras que a mãe lhe dizia. — Você não tem controle sobre isso. Mas precisa… Ou a queda do precipício pode ser bem dolorosa.
— Tá. — respirou fundo, olhando para o lado. — E o hierofante?
— É o que você precisa saber. O que significa que… — ficou em silêncio esperando que o filho completasse, porém, Hyukjae nada falou.
— Eu não lembro dessa carta, mãe… — ela soltou um riso, estalou a língua e revirou os olhos, antes de elucidar as coisas para ele:
— Você sempre terá alguém na vida. Alguém a quem pode recorrer. Essa pessoa é seu mentor, seu conselheiro espiritual. Ele lhe dará as energias que você precisa para completar seu caminho.
Em suas mãos, no presente, ele olhava para as três cartas, as quais havia disposto para contemplação assim que a memória correu pela sua mente. Era uma das poucas leituras que sua mãe fizera para si a qual se lembrava. As outras estavam esquecidas em sua mente. Mas aquela… “Talvez porque foi a última…” sussurrou para quem estivesse ali também pudesse ouvir, pegando a carta do 5º arcano em mãos.
O Hierofante. Tinha decifrado bem as duas outras cartas. Mas aquela? Sempre lhe causou dúvidas. Até os dias atuais. Quem era seu mentor? Seu conselheiro espiritual? Hyuk não conseguia pensar em ninguém em sua vida que tivesse permanecido com ele sempre, lhe guiando e lhe dando energias como sua mãe lhe disse.
Virou a cabeça para trás, de repente. Podia jurar que tinha escutado a palavra “꼼꼼” e a risada estridente de sua mãe. Acabou ele mesmo rindo com aquilo. “É a senhora né?”, estalou a língua e negou com a cabeça, sentindo um ligeiro aperto no coração. Podia até se sentir solitário muitas vezes, mas ela nunca, nem mesmo por um segundo tinha o abandonado. E ele sabia daquilo.