tô com saudade
mas ainda não sei do quê
talvez seja de mim
do que já fui
ou que gostaria de ser
jy.
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tô com saudade
mas ainda não sei do quê
talvez seja de mim
do que já fui
ou que gostaria de ser
jy.
Epifania Abissal
Então, inesperadamente, submerso em pensamentos, eu começo a afundar, afundar, afundar… As bolhas de ar começam a subir, subir, subir… E a luz da superfície começa a sumir, sumir, sumir… E, de repente, minhas costas tocam a terra que descansa no fundo do oceano. O céu que vejo é azul escuro aguado, com relapsos vagos de claridade e um silêncio distorcido. Quanta profundidade cabe dentro de uma alma tão frágil? Quantos pensamentos uma mente de cristal é capaz de processar sem trincar? A vida, o mundo e as pessoas… Tudo é tão confuso. Eu sou da vida, eu sou do mundo, eu sou pessoa: existe confusão em mim. A maneira visceral de me reconhecer nesse exato segundo, e no próximo centésimo não fazer a menor ideia de quem eu sou, me assusta, me apavora. Quantas metamorfoses são necessárias para chegar à versão final? Quantas dores são precisas para imortalizar a lição? Quantos beijos perdidos para encontrar o amor? Temo perder meu tempo em um contratempo por não perceber a tempo que ali nunca foi o caminho certo.
Não há aviso, estrondo ou despedida formal, apenas o corte seco de uma lâmina invisível que separa o antes do depois. Um sentimento inteiro silencia, uma expectativa morre asfixiada pela pressa do relógio e o mundo segue como se nada tivesse acontecido. Desse modo, a vida se esfaz não pelas grandes tragédias planejadas, mas pelos pequenos lutos diários que acontecem no espaço exíguo de um piscar de olhos.
“Meu coração tem segredos que movem a solidão.”
— Detonautas.
O vazio não é ausência; é território fértil para outras coisas.
Caderno do Vazio
“O vento soprou e eu me envergava junto com ele. Queimando no sol e me afogando na chuva. Querendo me mover porém com minhas raízes fixadas no chão. Pessoas passando ao redor sem notarem a minha existência e as que notaram queriam me levar, me tirar da minha zona de conforto e me colocar em um vaso para exibição. Mas minhas raízes sempre fora fortes e elas não conseguiam. Alguns animais vieram e com a mesma intensidade se foram. E eu continuei queimando no sol e me afogando na chuva. Assistia a vida passando, a cidade em sua imensa correria. Vínculos sendo criados e se desfazendo. O tempo foi passando e o sol queimava mais, a chuva me deixava totalmente sem ar. Um tempo depois os animais não me visitavam mais, a vida ao redor deixou de ser interessante.”
—
Minhas pétalas foram caindo, pedaços de mim levados pelo vento.
A vida não ficou perfeita. Mas ficou mais minha. E isso, por enquanto, é suficiente.
Escriturias
Minha pior versão não sou eu irritado, sou eu em silêncio, sem vontade de consertar nada.
“Paixão termina, amor não. Amor é aquilo que a gente deixa ocupar todos os nossos espaços, enquanto for bem-vindo, e que transferimos para o quartinho dos fundos quando não funciona mais, mas que nunca expulsamos definitivamente de casa.”
— Martha Medeiros.
“Você conheceu alguém, conversou, gostou do jeito, do físico e personalidade, ao seu ver, esse alguém era tudo que você sempre quis e sonhou. Não que a pessoa seja perfeita, mas, aparentemente, ela se encaixava direitinho no que você procurava. No decorrer das conversas, ao falar de futuro, filosofia de vida, sonhos e conquistas, você percebeu que esse alguém não almejava o mesmo que você. Ele quer coisa de pele, você, coisa de alma. Você quer profundidade, ele, um passatempo. Você quer amar e ser amada, construir família, ele, quer somente diversão e conversas rasas. Você falou, demonstrou, deixou claro suas intenções e mesmo assim ele não quis o mesmo que você. Tudo bem, você não fez nada de errado, não se culpe e não alimente pensamentos que só vão te deixar mal. Você gostou dele, mas ele, não está em sintonia com você. Não abra mão dos seus sonhos e desejos por alguém que não faria o mesmo que você. Não temos o poder de mudar ninguém, embarcar em um relacionamento onde não existe reciprocidade é mergulhar em tristeza e frustração constante. Nem todas as pessoas que cruzam nosso caminho vão estar em sintonia com aquilo que a gente sente e procura, por mais que a gente queira, as vezes não será recíproco. Não abra mão dos seus sonhos, não supervalorize uma pessoa achando que não encontrará mais nenhuma outra. Exitem diversas pessoas por aí. Você merece alguém que queira estar em sintonia com você, nos sentimentos, nos sonhos e na vida.”
— Vanessa Maia
Você me causa o impacto de um bom poema, abre meu peito de um lado a outro e me faz imensa.
— Desconhecido
Sinto saudade mas não das pessoas e sim dos momentos em que passei com elas.
Vanessa Maia
Eu bebi saudade
A semana inteira
Pra domingo você me dizer
Que não sabe o que quer
E não quer mais saber.
Esteban
MEDO
Eu sabia que tinha algo de errado com aquela casa velha. Eu não gostava de passar em frente, não gostava de olhar pra ela nem de andar pelo mesmo lado da rua onde ela se encontrava. Tudo que eu sabia era que lá morava um velho. Um velho sozinho que não gostava de ninguém e que todos falavam que era uma péssima pessoa. Ao contrário dele, minha mãe sempre fora muito gentil, e se preocupava com o pobre senhor que ali morava. Vez ou outra ia até lá ver se estava tudo bem. No fundo, ela só queria confirmar se o velho ainda estava vivo. Naquela noite, já passava das 22h, a rua estava silenciosa, como costuma ser cidade do interior a essa altura da noite. Nós ouvimos barulhos estranhos. Ao mesmo tempo que os morcegos estavam inquietos e sobrevoavam nossa casa aos montes, fazendo bastante barulho, uivos eram ouvidos ao longe. Os cachorros da rua, por sua vez, não se manifestaram. Estavam quietos, o que por si só era de se estranhar, pois com qualquer barulho, eles eram os primeiros a latir desesperadamente, rompendo o silêncio nas noites mais escuras. O uivo não parecia ser de cachorro. O que seria então? Lobo? Ali? Certo que em uma cidade de menos de dois mil habitantes, é normal termos avistamentos de animais selvagens, mas lobo? No Brasil, eu só conheço o guará. O que poderia ser então? Um guaxinim? Eu nem sei que som guaxinins emitem. Como se não bastasse toda a esquisitisse, minha mãe "meteu dos pés", como dizemos aqui no sítio. Se inquietou, não conseguia dormir. Começou a dizer que tinha algo errado com Seu Benézio e teve a brilhante ideia de me mandar ir lá ver como o velho estava. Eu, tentando contrariar todo o pavor que a simples existência daquela casa me causava, comecei a reforçar o pensamento de que era bobagem, que nada de errado poderia haver com um lugar que morava um velho ranzinza. Enchendo meu peito de coragem, não discuti, acatei o pedido da minha mãe, me levantei, mesmo com sono, e fui de encontro àquela residência acinzentada, rodeada de mato seco da caatinga, vegetação que não devia ser aparada há anos. Como nunca tinha visto o velho, fiquei um pouco receoso de me aproximar de repente, tarde da noite, e abordar a casa de um desconhecido, então bati palmas. Uma voz grossa, seca, vinda de dentro do pulmão, ecoou por todo o ambiente. Aquilo me deu arrepios. Nunca tinha ouvido nada igual. Era um tom grave, mas como se a garganta daquela pessoa estivesse completamente comprometida. Disse que era o vizinho e perguntei como ele estava. O velho se mostrou incomodado de estar sendo perturbado e respondeu ríspido que estava bem. Fui subindo os degraus da porta, pois estava aberta e eu queria olhar para o velho e mostrá-lo que aquilo não passava de uma visita amigável de um vizinho que se importava. Tamanho foi o meu espanto quando me deparei com o que vi. Um corpo muito magro sentado sobre uma rede, poucas mechas de um cabelo cinza sobre a cabeça. Mas o rosto, o rosto me causou arrepios e fez o meu estômago se revirar. A cara do velho estava completamente pra dentro, afundada, com um aspecto seco, como se fosse de cimento. Um rosto de pedra, é como melhor consigo descrever. E os olhos brancos, como se ele fosse cego. Mas por algum motivo, sua cabeça acompanhava os meus movimentos, como se olhasse diretamente pra mim. Eu travei, tenho certeza que não consegui esconder o meu espanto. Engoli a seco e me desculpei pelo incômodo. Dei as costas para aquela face demoníaca e voltei correndo para casa. Senti a minha espinha congelar e as pernas tremerem. Ao retornar, esbaforido, contei o que vi pra minha mãe que imediatamente brigou comigo. Disse que o velho sofria de uma doença rara que os médicos sequer conseguiam identificar, e que por isso se preocupava tanto, ela achava que a qualquer momento ele poderia passar dessa para uma melhor. Eu nunca mais voltei àquela casa, nem nunca fiquei sabendo se o velho morreu. Mesmo anos depois, eu ainda tenho pesadelos com aquela cara me encarando, acompanhada daquela voz sombria que só de me lembrar, tenho arrepios.
Abissal 2
Você me trouxe um milhão de coisas boas, e eu nunca vou esquecer nenhuma delas, mas eu preciso acreditar que eu sou uma pessoa, um ser inteiro, que não depende de você para existir. E eu lembro quem eu era. Eu era tão cheio de mim, cheio de certezas, cheio de crenças. Mesmo nas inseguranças, eu era otimista. Eu queria o mundo na palma da minha mão. Eu podia tudo, eu me sentia inteiro, um só, completo. É disso que eu sinto falta, sinto falta de ser completo sendo eu mesmo, e só. Não sei se você gostaria dessa pessoa, pois pra você entrar, eu tive que expulsar ela de dentro de casa. Eu tive que ceder espaços, abrir cômodos pra você passar, pra você se acomodar aqui dentro de mim. E todos esses anos foram muito cômodos pra nós dois. Sempre foi fácil querer as coisas quando agíamos em conjunto. Foi mais fácil correr atrás dos sonhos, enfrentar desafios. Quando unimos nossas forças, nós nos tornamos imbatíveis, mas em meio a isso, um pouco da nossa individualidade também se perdeu. Eu não sabia mais se os lugares que alcançávamos, eu ocupava por que queria ou por que era confortável estar lá com você. Eu não sabia mais se o que eu queria eu queria mesmo ou se eu só aceitava por que tudo se tornava melhor com você. Em certo ponto, deixamos de ser pessoas distintas e nos misturamos. Eu não estou reclamando de todas as coisas maravilhosas que essa nossa fusão nos trouxe. Eu faria tudo de novo. Mas entenda, neste momento, eu sinto falta de saber quem eu sou. Eu não sei mais quem eu sou. Eu me perdi dentro de mim. A prova disso são as coisas insensatas que tenho feito, as decisões erradas que tomei, os sentimentos que ignorei, as confusões que causei. Eu já nem me reconheço mais. Parece que todas as certezas que um dia tive a meu respeito, se esvaíram, e agora nada mais me resta. Eu me sinto completamente devastado, sem rumo, como se nada que do que eu faço tivesse sentido, como se nem mesmo o meu sorriso fosse de fato verdadeiro. Não me sinto bem profissionalmente, estou cada dia mais longe de ser uma pessoa admirável. Não tenho cultivado boas relações, não sinto como se as pessoas me quisessem por perto. Me sinto um estranho no ninho. Eu nem sei mais qual é o meu espaço. Nós sabemos bem o quanto eu ralei nos últimos anos pra tentar criar um lugar pra mim. Foram dias e noites à fio na busca incessante de me encontrar, de ter um lar. O pouco que construí, o pouco que tenho, foi fruto de suor e muitas lágrimas. E mesmo assim, no fim das contas, aqui estou, questionando se todo o meu esforço fez sentido. Eu sei que toda essa confusão esbarra em você. Mas a culpa não é sua, isso jamais foi sobre você. É sobre mim, é sobre o lugar que eu ocupo no mundo. Parece que metade de mim morre de medo de ficar sozinho, mas a outra metade acha que essa solidão é exatamente o que eu preciso pra voltar a ser quem um dia fui: completo, inteiro, sendo um só.
Abissal
A verdade é que eu tenho um medo abissal de ficar sozinho. Eu estive sozinho a maior parte da minha vida. Por muito tempo, fui filho único, por muito tempo, tive poucos amigos, por muito tempo, não tive relacionamentos. Toda e qualquer relação que criei foi difícil de ser construída, até com meus pais, que estão lá desde que eu nasci. E mesmo só, eu tinha medo de ficar pra sempre assim. Era uma sensação de inadequação, como se eu não me encaixasse em nenhum lugar, em ninguém. Eu tinha certeza que por mais que eu me apaixonasse, eu jamais namoraria. Isso se reflete até hoje nos amores platônicos que coleciono. Eu não imaginava criar um relacionamento com alguém, me tornar íntimo, confidente. Parece que em você eu encontrei o lugar ideal pra mim. E não foi nada fácil, por muito tempo, eu tentei fugir, por muito tempo, eu neguei, e, por muito tempo, me escondi. Mas se tornou inevitável. Você estava ali, eu também, nossos corpos davam choque, nossas respirações oscilavam e nossos corações erravam as batidas. Tivemos que entregar os pontos. Uma relação assim não se cria do dia para a noite, se cultiva, aos pouquinhos, de grão em grão. E foram anos de cultivo. Por vezes, arrancamos a plantação e juramos nunca mais plantar nada, mas voltávamos atrás, e lá estávamos nós de novo, um plantando na horta do outro. Foi muita coisa construída, muita coisa vivida. Você esteve do meu lado em um milhão de lugares. Porra, você me salvou da morte. Tem como eu te dever mais do que minha vida? Faz muito tempo que eu não sei o que é me sentir sozinho. Mesmo quando nos afastamos, você sempre esteve por perto, de olho em mim. Eu sempre tive a certeza de que se eu caísse, se eu tropeçasse, você estaria lá pra me levantar. E foi assim por anos, muitos anos. Não é como se eu não te amasse, não é como se eu não valorizasse cada instante que você esteve ao meu lado. É que estar contigo só pelo que você me proporciona, não é certo, não é o que você merece. "O amor é uma escolha, não uma necessidade! Eu gosto de você, mas eu não preciso de você," foi o que você me disse, citando Marília Mendonça, e você está certo. O amor não pode ser uma necessidade. Eu não posso te reduzir a isso. Você merece mais, muito mais. Mas o que eu faço com os espaços vazios? Com as noites sozinho, com os shows sem sua presença, com os jantares sem você do lado? O que eu faço ao acordar e não te ver na cama? Parece que eu serei condenado à solidão eterna! E como eu disse no início, eu tenho pavor de ficar sozinho. Eu sei, eu tenho família, amigos, um trabalho, atividades de lazer. Eu não estou necessariamente sozinho. Mas é que o espaço que você ocupa na minha vida é tão grande que a sua falta deixa um buraco imenso. Como se eu entrasse em uma casa sem móveis, e tentasse viver naturalmente sem nada ao meu redor. Eu não tô aqui divagando em vão, não tô aqui só pra demonstrar o quanto eu sou confuso, paranoico e contraditório. Nós chegamos onde chegamos por um motivo, e dói no cerne da minha alma admitir que nós só estamos aqui por causa do meu desejo fútil de querer saber quem eu sou sem você. E isso não é justo, não é justo comigo, não é justo com você, com nada do que construímos. Mas é como me sinto. Parte de mim acredita que eu quero descobrir quem eu sou sem você. Certo, nós já nos afastamos antes, mas não foi pra valer, você sempre esteve à espreita, pronto pra me socorrer com o que eu precisasse. Eu me sinto a pessoa mais patética do mundo admitindo isso, mas a essa altura, eu tenho que assumir mesmo o quão ridículo sou. Eu desdenhei do que venho sentindo por muito tempo, e as consequências disso foram desastrosas. Eu fui covarde, mesquinho, um mentiroso, coisa que sempre odiei. Menti pra mim mesmo, menti pra você. Tudo isso para não admitir que parte de mim quer viver por aí sendo outra pessoa. E isso é loucura! LOUCURA! Trocar tudo que eu sou, quem me tornei, pela incerteza de algo novo. Mas eu sempre tive um "quê" de louco, vamos confessar. Por maior que seja o medo que eu tenha da solidão, eu lembro um pouco de quem eu era antes de você...